França aguarda veredicto de julgamento por atentado contra Charlie Hebdo

Anne-Sophie LASSERRE, Valentin BONTEMPS
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Desenho da audiência de 14 de dezembro de 2020 mostra Ali Riza Polat (C), o principal acusado no julgamento dos atentados de janeiro de 2015

A justiça francesa anunciará nesta quarta-feira o veredicto do julgamento pelos atentados contra a revista satírica Charlie Hebdo e um supermercado judeu em janeiro de 2015, que marcaram o início de uma onda de ataques extremistas na França.

Após três meses e meio de um julgamento com grande cobertura da imprensa, o tribunal anunciará a partir das 16H00 (12H00 de Brasília) a sentença contra 14 pessoas, acusadas de fornecer apoio logístico aos autores dos ataques que mataram 17 pessoas entre 7 e 9 de janeiro de 2015.

"Hoje será encerrado finalmente o ciclo de violência que começou há quase seis anos na redação do Charlie Hebdo", escreveu em um artigo o diretor do semanário satírico, Laurent Sourisseau, também conhecido pelo pseudônimo Riss.

"Ao menos no plano penal porque, no humano, as consequências nunca serão apagadas", completou o chargista, um dos poucos sobreviventes do massacre.

Os autores materiais dos atentados, os irmãos Said e Chérif Kouachi, que abriram fogo contra a redação do Charlie Hebdo por ter publicado caricaturas do profeta Maomé, e Amédy Coulibaly, que matou um policial antes de invadir um supermercado judeu, morreram depois que cometeram os crimes.

Durante três meses, o julgamento, que foi interrompido diversas vezes devido à pandemia de covid-19, provocou a recordação do horror dos ataques e do período em que a França se tornou alvo de ataques islamitas.

Os promotores do departamento antiterrorista solicitaram penas de prisão que vão de cinco anos à prisão perpétua para os réus.

Os advogados de defesa consideram que as provas não são convincentes e advertiram contra a tentação de querer transformar os acusados em exemplo para atenuar a ausência dos autores materiais dos ataques.

- "Cúmplices" -

Os promotores pediram prisão perpétua para Ali Riza Polat, um amigo franco-turco de Coulibaly, e Mohamed Belhoucine. Os dois são considerados "cúmplices" dos atentados. O segundo está sendo julgado à revelia - ele viajou para a Síria.

Polat admitiu no tribunal que praticou crimes, incluindo tráfico de drogas, mas negou ter qualquer conhecimento de um complô terrorista.

"Não fiz todas as coisas que dizem que eu fiz", afirmou no tribunal.

A namorada de Coulibaly, Hayat Boumeddiene, que fugiu para a Síria pouco depois dos atentados e uma das três pessoas julgadas à revelia, pode ser condenada a 30 anos de prisão.

A Promotoria antiterrorista também solicitou penas de entre cinco e 20 anos de prisão para os demais acusados, suspeitos de fornecer armas e equipamentos "com conhecimento do compromisso jihadista" dos autores dos atentados, segundo o procurador-geral.

- Cenas de horror -

Durante o julgamento, os sobreviventes dos ataques relataram cenas de horror.

A colunista Sigolene Vinson, que sobreviveu ao massacre do Charlie Hebdo, descreveu o "silêncio mortal" na redação enquanto os colegas estavam mortos ao seu redor.

Zarie Sibony, ex-caixa do Hyper Cacher, descreveu como caminhou sobre corpos nos corredores do supermercado durante o confronto de quatro horas entre Coulibaly e a polícia.

O massacre do Charlie Hebdo provocou um intenso debate sobre a liberdade de expressão na França.

Para marcar o início do julgamento em 2 de setembro, a revista publicou novamente, em tom de desafio, as caricaturas do profeta que provocaram indignação entre os muçulmanos.

Três semanas depois, um paquistanês feriu duas pessoas diante da antiga redação da revista em um ataque com faca.

No dia 16 de outubro, um jovem checheno decapitou um professor do Ensino Médio que havia exibido algumas caricaturas publicadas no semanário durante uma aula sobre liberdade de expressão.

E em 29 de outubro, três pessoas foram assassinadas, incluindo uma brasileira, quando um jovem tunisiano que havia chegado recentemente a Europa esfaqueou as vítimas em uma igreja de Nice.

O governo do presidente Emmanuel Macron apresentou recentemente um projeto de lei para lutar contra o "islamismo radical" que pretende endurecer o controle sobre os locais de culto e proibir algumas práticas "incompatíveis" com os valores da República Francesa.

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