França proíbe venda de livros em supermercados

Joëlle GARRUS
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O escritor francês Sylvain Tesson, na Librairie des Abbesses, em Montmartre, Paris, no lançamento do evento "Rallumez les feux de nos librairies" ('Tragam de volta as luzes das nossas livrarias', em tradução livre), em 2 de novembro de 2020
O escritor francês Sylvain Tesson, na Librairie des Abbesses, em Montmartre, Paris, no lançamento do evento "Rallumez les feux de nos librairies" ('Tragam de volta as luzes das nossas livrarias', em tradução livre), em 2 de novembro de 2020

Nos supermercados de toda França, estantes em geral cheias de livros agora estão vazias, uma decisão do governo que busca aplacar a irritação das livrarias, fechadas por conta de mais um confinamento contra a covid-19.

"Me parece estúpida a decisão de proibir as estantes de livros nos supermercados. Nos deixam sem a cultura!", criticou Sylvie Lagrange, uma leitora assídua que correu para a biblioteca de seu bairro, em um subúrbio ao sul de Paris, para "se abastecer", dois dias antes do início de um novo confinamento que deve durar pelo menos um mês na França.

E ela não foi a única. Afiliados acudiram em massa às bibliotecas municipais na semana passada. Na biblioteca municipal de Villeneuve d'Ascq, uma localidade do norte da França, por exemplo, cerca de 8.000 livros foram emprestados em poucas horas na última quinta-feira.

Depois de fechar livrarias e bibliotecas para o segundo confinamento que entrou em vigor na sexta-feira, o governo francês também proibiu, para ser "justo" com os livreiros, a venda de livros nos supermercados.

Diferentemente da Bélgica, na França, os livros foram catalogados como artigos "não essenciais".

Esta decisão causou surpresa em um país que se orgulha de sua cultura e de seu amor pelos livros e que conta com uma das mais densas redes de livrarias do mundo.

Segundo o Sindicato da Livraria Francesa (SLF), o país tem cerca de 3.300 pontos de venda, um para cada 20.300 pessoas.

"Os políticos costumam ter muito orgulho da ideia de que a França era uma nação com uma exceção literária e que era uma espécie de filha mais velha da leitura e da venda de livros. De repente, você se dá conta de que tudo era um monte de mentiras", lamentou o escritor Sylvain Tesson.

Desde sexta-feira, a revolta vem aumentando, com abaixo-assinados ao presidente Emmanuel Macron, livreiros tentados a praticar desobediência, convocações de boicote aos gigantes da venda on-line, como a Amazon, e até pedidos de adiamento de vários prêmios literários - entre eles o célebre Goncourt - em sinal de solidariedade.

"A cultura é essencial. É um erro sacrificá-la", disse a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que anunciou uma "iniciativa conjunta" com outras cidades para reabrir as livrarias.

bur-jg/meb/mb/tt