França reabre fronteiras com o Reino Unido, mas demora em testes revolta caminhoneiros

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a reabertura do porto de Dover, na madrugada desta quarta (23), o Reino Unido começou a sair do isolamento em relação aos vizinhos europeus. O bloqueio foi determinado no fim de semana, para conter uma nova cepa do coronavírus, suspeita de ser mais contagiosa. Pela primeira vez desde domingo (20), vários veículos de passageiros puderam cruzar o canal da Mancha e chegaram ao porto de Calais, na França. No entanto será preciso de vários dias para que a situação se normalize. Na noite de terça (22), havia cerca de 4.000 caminhões parados perto do porto de Dover, e mais 3.000 em um aeroporto desativado nos arredores, esperando para fazer a travessia, geralmente de balsa. Pelo acordo feito entre França e Reino Unido, os caminhoneiros só poderão entrar em território francês se apresentarem um teste negativo de Covid-19. A demora no procedimento gerou revolta entre caminhoneiros. Um grupo deles entrou em confronto com policiais e soou as buzinas em protesto. As reservas de comida trazidas pelos motoristas estão acabando, e há revolta também porque o atraso fará com que muitos deles não consigam voltar a tempo de passar o feriado de Natal com a família. Em entrevistas à agência Reuters, vários deles reclamaram de falta de apoio do governo e ausência de informações. "Eles falam sobre teste de Covid, mas não há testes", disse Blazej Pankiewicz, caminhoneiro polonês. "Não temos nada para comer ou beber. Ninguém se importa conosco", disse Stella Vradzheva, motorista de uma van da Bulgária. Ela está há três dias na fila, e recebeu apenas água e pacotes de salgadinho. O governo britânico disse que os testes já começaram a ser aplicados, mas que levará tempo para que os cerca de dez mil caminhoneiros nos arredores de Dover sejam examinados. Outros países também flexibilizaram o bloqueio. Bélgica, Holanda, Espanha e República Checa autorizaram na terça o regresso de seus cidadãos que estavam em terrotório britânico, mediante a apresentação de um teste negativo de Covid-19. Já a Alemanha manteve as restrições como antes. Desde domingo (20), mais de 40 países, de vários continentes, suspenderam as conexões aéreas, ferroviárias e marítimas com o Reino Unido por causa da proliferação de uma nova mutação do coronavírus, que tem se mostrado com maior poder de contágio. Nesta quarta, a lista de paises que bloqueiam viajantes vindos do Reino Unido passou a incluir Honduras. E a Suécia estendeu o veto até o dia 31. Nesta terça, a OMS (Organização Mundial da Saúde) fará uma reunião para debater estratégias de combate à nova cepa do vírus. "Não há evidência sólida de que este vírus seja mais transmissível, [mas] há indícios claros de que está mais presente entre a população", disse Moncef Slaoui, assessor do programa de vacinação nos Estados Unidos, na terça (22). A Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, havia recomendado que os países do bloco retomassem as conexões com o Reino Unido para viagens essenciais e que buscassem formas de evitar a ruptura nas redes de abastecimento. A crise na fronteira levou consumidores ao pânico --eles esvaziaram as prateleiras de alguns supermercados de itens como peru, papel higiênico, pão e vegetais. O governo disse que havia comida suficiente para o Natal, mas responsáveis pelas redes de supermercado Tesco e Sainsbury's afirmaram que os suprimentos de comida seriam afetados se a interrupção continuasse. Também nesta terça, a Suíça deu início à campanha de vacinação contra a Covid-19. Os países da União Europeia começarão a imunizar seus cidadãos no domingo (27). Há outra data importante se aproximando. No dia 31, termina o período de transição após o brexit. O Reino Unido saiu da União Europeia em janeiro, mas houve um acordo para manter as regras de comércio anteriores até o fim de 2020. No entanto, até agora não foi fechado um acerto para definir como ficam essas regras a partir de 1º de janeiro. As conversas prosseguem, mas não houve anúncios oficiais sobre avanços nos últimos dias. ENTENDA A MUTAÇÃO DO CORONAVÍRUS O que é essa variação? Uma versão do novo coronavírus que tem maior facilidade para entrar nas células, o que a torna mais contagiosa. O governo britânico disse que essa versão é 70% mais transmissível do que as anteriores, mas os estudos ainda são preliminares. Como ela surgiu? Os vírus se multiplicam dentro das células humanas, fazendo novas versões de si mesmos. Essas "cópias" costumam ser ligeiramente diferentes da versão que as originou. Assim, o surgimento de novas variações já era esperada pelos cientistas. Essa versão é mais letal? Segundo dados iniciais, não. As vacinas darão proteção contra essa nova mutação? Há quase certeza que sim. Uma mudança capaz de fazer o vírus resistir às vacinas deve levar anos para ocorrer. Onde essa nova mutação já foi encontrada? Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Austrália, Itália e África do Sul.