França relembra massacre às voltas com atos terroristas

RAFAEL BALAGO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Dois ou três indivíduos entraram com armas automáticas e começaram a atirar cegamente contra a multidão. O ataque durou 10, 15 minutos. Foi extremamente violento e houve uma onda de pânico. Todos correram para o palco, e muitos foram pisoteados." Julien Pierce, jornalista da rádio Europe1, estava na casa de shows Bataclan, em Paris, na noite de 13 de novembro de 2015, quando o local foi cenário do pior atentado terrorista já registrado na França. "Os agressores tiveram tempo de recarregar as armas pelo menos três vezes. Eles não estavam mascarados, estavam muito seguros de si, e eram muito jovens", informou o repórter, logo após o ataque. A ação no Bataclan não foi a única daquela sexta-feira 13 em Paris. Às 21h20 (hora local), uma bomba explodiu em uma das portas do Stade de France, onde as seleções de futebol de França e Alemanha disputavam um amistoso, com 80 mil torcedores nas arquibancadas. Uma pessoa morreu. Na meia hora seguinte, dois homens-bomba também detonariam explosivos perto do estádio. Minutos depois, clientes de dois restaurantes foram mortos a tiros de fuzil, disparados de um carro em movimento. O veículo seguiria viagem, com mais disparos contra quem estava em bares. As mesas na calçada são um símbolo de Paris, e muitas das pessoas assassinadas estavam nelas quando foram mortas. Também houve vítimas em um restaurante de comida do Camboja, outro de receitas italianas, dois de culinária francesa, um café, um bar e uma lavanderia. Às 21h40, começou o ataque ao Bataclan, histórica casa de espetáculos, com capacidade para 1.500 pessoas, que recebia um show da banda americana Eagles of Death Metal. Os três autores do ataque ficaram duas horas ali, matando a esmo e tomando parte dos espectadores como reféns. Quando forças de segurança invadiram o local, perto da meia-noite, dois terroristas detonaram as bombas que levavam no corpo, e um terceiro foi morto pelos agentes. Naquela noite, 89 pessoas foram executadas no Bataclan. Ao todo, 129 mortos e 352 feridos em Paris. No dia seguinte, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) assumiu a autoria dos ataques. Naquele momento, em 2015, o EI controlava territórios na Síria e no Iraque. Um ano antes, havia anunciado que pretendia construir um califado. Na visão do grupo, seria um estado regido por interpretações radicais de preceitos islâmicos e financiado com a receita de poços de petróleo conquistados. A França era um dos países da coalizão que lutava contra a facção terrorista, e os ataques em Paris foram vistos como represália. O presidente à época, François Hollande, considerou as ações um ato de guerra, e a França deu início a uma grande operação policial para caçar os envolvidos. A forte resposta francesa, no entanto, não impediu novos ataques nos anos seguintes. Há menos de um mês, a França voltou a ser alvo de terrorismo: em 16 de outubro, Samuel Paty, professor de história, foi decapitado na rua dias após mostrar charges de Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão. Desenhar a figura do fundador do islã é considerado blasfêmia pelos muçulmanos. Em 29 de outubro, outro ataque. Três mortos em uma basílica de Nice, em um ataque a faca. Uma das vítimas foi a brasileira Simone Barreto Silva, 44, há 30 anos na França. Após os ataques, o presidente Emmanuel Macron deu declarações duras contra o terrorismo islâmico. O líder francês reafirmou a importância do estado laico e da liberdade de expressão. Em seguida, determinou uma série de operações contra suspeitos de estimular discursos de ódio. As falas de Macron revoltaram diversos países islâmicos, pois foram interpretadas como um ataque à religião. Houve atos no fim de outubro no Líbano, no Paquistão e em Bangladesh, entre outros, além de uma campanha para boicotar produtos franceses vendidos em países islâmicos, como na Turquia. "Governos e líderes de extrema direita do Ocidente criticam muçulmanos para ganhar pontos com eleitores, e governos populistas islâmicos, como o de [Recep Tayyip] Erdogan [na Turquia] atacam os europeus e usam a questão para incendiar suas bases e desviar o foco de problemas internos, como a economia", diz Karabekir Akkoyunlu, professor de relações internacionais da FGV e pesquisador do Oriente Médio. "E os muçulmanos, no meio, sofrem muito com isso." A França terá eleição presidencial no ano que vem, e a postura de Macron foi vista como tentativa de ganhar espaço entre conservadores que defendem medidas radicais. A postura agressiva adotada por Hollande, à época dos atentados de 2015, no entanto, não garantiu a reeleição em 2017. "Os países seguem dando as mesmas respostas e esperam resultados diferentes", critica Akkoyunlu. "Não há saídas fáceis, como reduzir o problema à questão de segurança. Dar apoio ao desenvolvimento real dos países, e não em ações militares, é o único caminho. Estados quebrados são terreno fértil para grupos radicais." Akkoyunlu lembra que a derrota militar do Estado Islâmico na Síria e no Iraque não decretou o fim do grupo e que ambos os países ainda penam para voltar à paz. "O terrorismo não é o problema em si. É a expressão de um problema. É uma tática. Você nunca vai derrotar o 'terrorismo' porque alguém poderá escolher essa tática. Mas você pode, por meio do poder público, mudar as condições adversas que levam as pessoas a pensar sobre terrorismo", diz Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da USP. Para os especialistas, a desigualdade social nas periferias das cidades europeias e em países do Oriente Médio e da África criam condições para que o discurso de radicalismo ganhe força. E após um 2020 em que o mundo viu a economia entrar em colapso devido à Covid-19, mais problemas poderão surgir. "A pandemia aprofunda desigualdades, e o extremismo se beneficia da desigualdade", diz Akkoyunlu. "A relação de confiança entre estado e população está sendo testada [na pandemia], e quando esse elo se perde, há espaço para radicalismo", aponta Lehmann. Nos últimos anos, o radicalismo também ganhou impulso com as redes sociais, cujos algoritmos dão preferência para conteúdos capazes de despertar ódio ou medo. "O Estado Islâmico usa a tecnologia muito bem. Sua comunicação tem linguagem de videogame, capaz de atrair os jovens", comenta Francisco Teixeira da Silva, professor de história contemporânea da UFRJ e pesquisador do terrorismo. Limitar a circulação dessas mensagens de radicalização, no entanto, implica vigiar mais de perto as comunicações dos cidadãos, o que coloca os governos em um rumo perigoso ao totalitarismo. "É preciso de ações coordenadas para combater os crimes que permitem o financiamento desses grupos. O dinheiro surge em algum lugar. O EI destruiu algumas antiguidades, mas a maioria foi saqueada e vendida para outros países, e o dinheiro usado para comprar armas", diz Teixeira.