François Ozon faz releitura de Rainer Werner Fassbinder em novo filme: 'às vezes, é bom matar ídolos'

“Às vezes, é bom matar ídolos”, deixa escapar François Ozon, com uma curvinha de ironia nos lábios, enquanto fala de “Peter von Kant”, sua releitura para o clássico “As lágrimas amargas de Petra von Kant” (1972), de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), uma de suas inspirações como cineasta. Exibido na abertura do Festival de Berlim, em fevereiro, o melodrama sobre a relação possessiva de um diretor veterano com um jovem aspirante a ator é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao realizador alemão e uma reflexão sobre as relações de poder. O filme, que ainda não tem data para estrear no circuito brasileiro, é uma das atrações da 13ª edição do Festival Varilux, que ocupa 92 salas em 50 cidades no país de amanhã (21) a 6 de julho.

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— Tenho muita ternura por Fassbinder, mas também consciência de sua monstruosidade. Estou totalmente consciente de quem ele realmente foi, como cineasta e como pessoa, e acho que todo mundo pode se identificar com ele de alguma forma. Porque, como cineasta, Fassbinder era uma espécie de ditador, de deus, queria criar mundos e, para isso, usava o poder que tinha sobre as pessoas ao seu redor, no trabalho e no amor — disse o realizador francês em Berlim, de onde saiu da edição de 2018 com o grande prêmio do júri com “Graças a Deus”, sobre abusos cometidos por padres católicos. — Mas desejava também mostrar que é possível sofrer nesse lugar de poder. Nada na vida é preto e branco, e dentro do universo do cinema não seria diferente.

Conhecido por seu atrevimento estético e temático, Fassbinder deixou uma obra marcada por histórias de repressão psicológica e ideológica. No início da carreira, Ozon chegou a adaptar para as telas uma de suas peças mais famosas, “Gostas d’água em pedras escaldantes” (2000). Quando, há dois anos, buscava um projeto que se encaixasse às restrições impostas pelo primeiro lockdown na França, por causa da pandemia de Covid-19, viu em “As lágrimas amargas de Petra von Kant” um material perfeito: cinco personagens em cena, dentro de um único ambiente. Ozon resolveu trocar o sinal do gênero das protagonistas — uma estilista famosa e uma jovem modelo — e colocá-las no mundo do cinema, ecoando também o #MeeToo.

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O movimento começou a tomar força em 2017, a partir de acusações de má conduta contra o poderoso produtor americano Harvey Weinstein. A partir de então centenas de atores e profissionais do cinema se dispuseram a falar publicamente sobre impropriedades que teriam sido cometidas não só por produtores, mas também por diretores e atores, como Kevin Spacey, processado por três homens no Reino Unido. Recentemente, até a premiada diretora japonesa Naomi Kawase (“Mães de verdade”) foi acusada de intimidação moral e comportamento violento contra homens de sua equipe. Com “Peter von Kant”, Ozon se propõe a compartilhar seus questionamentos sobre as relações de poder dentro e fora do ambiente de trabalho.

— Quando reli o texto original de Fassbinder, cuja ação se passa no início dos anos 1970, e dentro do universo da moda, percebi o quanto esse tema é universal, todas essas questões envolvendo controle, manipulação e jogo de dominação nas relações interpessoais, e o quanto elas são válidas ainda hoje, e não somente dentro do cinema — observou o diretor de 54 anos, autor de títulos tão diversos como a comédia “8 mulheres” (2002) e o drama de época “Franz” (2016). — Tenho certeza de que Fassbinder também se fez essas mesmas perguntas à época, porque, como diretor, ele também estava em uma posição de poder. Em última análise, o que me interessou foi fazer todas essas perguntas e compartilhá-las com o público.

Mudanças na história

Apesar das alterações, Ozon garante que o “o espírito do texto de Fassbinder está lá”. O cenário é o luxuoso apartamento do personagem-título, interpretado por Denis Ménochet, em caracterização que lembra o próprio Fassbinder. É ali que ele seu ambíguo mordomo Karl (Stefan Crépon) recebem a visita de Sidonie (Isabelle Adjani), ex-estrela dos filmes de Peter, e seu jovem protegido Amir (Khalil Gharbia), por quem o petulante diretor imediatamente cai de quatro. Este oferece fama em troca do amor do rapaz, mas Amir se mostra um amante caprichoso e cruel depois de conhecer o sucesso.

Mais adiante, entram em cena a filha de Peter, Gabrielle (Aminthe Audiard), e Rosemarie, sua mãe, vivida por Hanna Shygulla, uma das atrizes preferidas de Fassbinder, que no filme original fez o papel do objeto de desejo de Petra von Kant. A participação de Shygulla funcionou como uma espécie de “benção” para o projeto, segundo Ozon.

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— Ela veio com muita humanidade e ternura para o filme. E conheceu bem a mãe de Fassbiner, e por isso fiz muitas perguntas para ela. Até porque “As lágrimas amargas de Petra von Kant” é uma espécie de autorretrato de Fassbinder. Ele transformou o seu malfadado caso de amor com Günther Kaufmann, um de seus atores favoritos, em uma história de amor lésbico entre uma estilista e sua modelo — disse o diretor, destacando a generosidade de todo o elenco. — Para mim foi um sonho filmar Hannah Shygulla cantando, como Fassbinder fez com ela em “Lili Marlene” (1981).

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