Francesca Chaouqui, a mulher que traiu o Papa

Por Kelly VELASQUEZ
(Arquivo) Francesca Chaouqui, na Cidade do Vaticano, no dia 15 de janeiro de 2014

A jovem laica Francesca Chaouqui, especialista em relações públicas, bela e sedutora, é a mulher que traiu o papa Francisco ao vazar informações e conversas confidenciais do pontífice no Vaticano.

A italiana, de 33 anos e de origem marroquina, era uma espécie de agente duplo, especialista em marketing, que após sua prisão na semana passada por ordem da procuradoria do Vaticano decidiu confessar tudo o que sabia sobre o novo escândalo Vatileaks.

"Eu não traí o Papa", escreveu nesta terça-feira em um tuíte, após ser libertada por colaborar com a justiça.

A única mulher nomeada em 2013 pelo pontífice argentino para fazer parte do comitê que estudou por quase um ano a reforma das instituições econômicas e administrativas da Santa Sé, conhece muitos segredos de uma das questões mais sensíveis para a Igreja: o uso de enormes somas de dinheiro que recebe e que transitam pelo banco do Vaticano.

Chaouqui foi acusada, juntamente com o padre espanhol Lucio Anjo Vallejo Balda, de ter roubado documentos confidenciais do Vaticano, um delito que o Estado pune com até oito anos de prisão.

"Tudo o que fiz foi tentar detê-lo", justificou-se em entrevista ao jornal italiano La Stampa. "Não tenho nada a ver com corvos, vou provar minha inocência. Estou tranquila, me sinto bem com a minha consciência. Eu só disse a verdade a quem está investigando o vazamento de documentos na Cúria", acrescentou Chaouqui.

Documentos roubados, informações rackeadas de computadores e, especialmente, a gravação de conversas com o papa fazem parte da documentação que irá aparecer em dois livros que serão colocados à venda esta semana em todo o mundo e em várias línguas.

Segundo antecipações da imprensa, os dois livros revelam as dificuldades que o Papa argentino encontrou para reformar as estruturas da Cúria Romana e também denunciam o desperdício e a falta de ética na gestão do dinheiro da Santa Sé.

Eles também apontam contra o banco do Vaticano, por seus negócios obscuros, apesar das mudanças e inspeções ordenadas por Francisco desde o início de seu pontificado, em março de 2013.

De acordo com as conversas transcritas no livro "Via Crucis" de Gianluigi Nuzzi, Francisco comenta que "se não sabemos como cuidar do dinheiro, algo que se pode ver, como podemos cuidar das almas dos fiéis, que não vemos?"

Em outro capítulo, o Papa diz a um grupo de colaboradores que os custos de gestão da Cúria estão fora de controle.

Especialistas em assuntos do Vaticano argumentam que o vazamento de documentos confidenciais pode ter sido motivado por ambições frustradas.

Nem Vallejo Balda, de 54 anos, próximo ao Opus Dei, nem Chaouqui, conseguiram como desejado uma promoção após a consultoria prestada.

Para alguns observadores, o escândalo também denota a luta interna entre grupos de poder - Opus Dei, jesuítas e setores ultraconservadores - que não toleraram a chegada do pontífice argentino, sem experiência no manuseio delicado da Cúria Romana e comprometido com a implementação da austeridade, eliminando posições e cargos.