Franceses e espanhóis voltam às ruas com restrições; veja as regras do desconfinamento

Fernando Eichenberg, especial para o EXTRA
Homem se exercita em rua de Paris, na França

Após 55 dias trancados em casa, os franceses recomeçaram a retornar às ruas nesta segunda-feira, em meio a incertezas e estranhezas, e em uma vida bem diferente daquela que existia antes do surgimento da pandemia. “Desconfinados, mas não liberados”, em um novo regime de “semiliberdade”, eram definições de sentimentos que surgiram neste primeiro dia de desconfinamento no país.

O uso de máscaras se tornou obrigatório nos transportes públicos — incluídos trens, metrôs e ônibus — sob pena de multa de € 135 (R$ 844) a quem não obedecer. Os trens recomeçaram a circular com uma oferta inicial de 50% do tráfego normal, índice que sobe para 75% no metrô parisiense, que opera com 60 estações fechadas do total de 302.

Para Anne Sophie C., que reabriu hoje sua loja de óculos, situada na Rua de Rennes, no centro de Paris, o maior temor do desconfinamento é o transporte público.

— Hoje, vim de carro. Mas não poderei vir sempre porque sai caro. O que mais me angustia não é a retomada do trabalho nem o contato com os clientes, mas o transporte. O governo pode muito bem dizer que que será o mais seguro possível, mas isso é impossível. Muitas pessoas não vão respeitar as regras de distanciamento. Hoje, ainda há muita gente em teletrabalho, mas em uma ou duas semanas isso vai diminuir.

Na reabertura da loja, Anne Sophie estava acompanhada de seu único funcionário, Thomas D., mas a partir desta terça-feira, a loja funcionará apenas com um atendente. Os clientes deverão agendar um horário pela internet e respeitar o uso obrigatório de máscaras no interior. Os óculos serão disponibilizados à clientela em uma bandeja, e após manuseio, desinfetados, sem retornarem imediatamente à prateleira. A gerente evita pensar no futuro:

— O que acontecer amanhã faz parte do amanhã. Não me angustio com isso. Viver o presente já está de bom tamanho.

Em Paris, a prefeita Anne Hidalgo aplicou regras para evitar engarrafamentos e estimular a circulação de bicicletas. Foram instalados estacionamentos extras nos limites da capital, para quem vem do subúrbio e deseja deixar seu carro para usar o transporte público, a bicicleta compartilhada ou mesmo caminhar até o destino final. Foram criados 50 quilômetros de ciclovias temporárias na cidade. E o governo passou a oferecer € 50 (R$ 312) de auxílio na reparação de bicicletas.

A Rua de Rivoli , que corta Paris de leste a oeste, das praças Concorde até Bastilha, foi bloqueada para o tráfego normal e liberada apenas para ônibus, táxis, bicicletas e veículos de entregas de mercadorias. A prefeitura mantém como opção, após análise dos primeiros dias de desconfinamento, a imposição de um rodízio de circulação de carros na cidade.

Cédric E., analista financeiro, circulava de bicicleta pela Rua de Rivoli rumo ao seu trabalho. Na mochila, garantia levar uma máscara, para colocar antes de entrar no escritório.

— Estou contente de poder sair novamente e pedalar livremente. No trabalho, vamos alternar uma semana em home office e outra no escritório. Difícil dizer se foi uma boa hora ou não de desconfinar. Em todo caso, é importante que se continue a manter os gestos de higiene e de distanciamento social.

Para evitar o estrangulamento do tráfego, as empresas foram aconselhadas a manter, na medida do possível, o teletrabalho, e a alterar as escalas das jornadas, impedindo aglomerações em horários de pico nos transportes em comum. Nadia Hamdi, atendente em uma loja Louis Vuitton, saiu da estação de metrô Saint-Germain-des-Près mais tarde em relação aos seus horários habituais. A loja alterou os horários de abertura e fechamento e passou a funcionar das 11h às 19h.

— Para mim, foi tranquilo, não havia muita gente no metrô. Meu trajeto dura cerca de 50 minutos, e as pessoas estavam respeitando as regras de distanciamento. Mas às 6h, parece que havia mais gente e foi mais complicado.

As praias permanecem fechadas, exceto se houver alguma autorização especial concedida pelos governadores das regiões, a pedido de um prefeito. A cidade de Nice determinou um nível a mais ao impor o uso obrigatório de máscaras no espaço público. O ministro da Saúde, Olivier Véran, disse que se no período de três semanas o quadro se mostrar estabilizado, poderá haver uma ampliação da abertura do comércio e de espaços verdes.

Em queda de confiança junto à população em relação a sua capacidade para gerir a crise, o presidente Emmanuel Macron depende do sucesso do desconfinamento para poder liderar esta nova fase na luta contra o coronavírus e de retomada econômica do país, com uma recessão estimada em -8% em 2020. Na pesquisa de opinião Cevipof-Ifop-Sopra Steria sobre o nível de confiança dos cidadãos de seis países europeus em relação aos seus dirigentes durante a pandemia, o líder francês amargou o último lugar, com 24% — longe de seus colegas da Áustria (61%), Alemanha (50%), Reino Unido (48%), Itália (41%) e Suécia (38%).

Na Espanha, reabertura dos cafés

Garçons protegidos com máscaras faciais serviram café e bocadillos (sanduíches preparados no pão tipo baguete) nos terraços de cafés, ontem, como parte do relaxamento das medidas de confinamento na Espanha.

— Estou muito feliz, queria muito trabalhar. Estamos fechados há dois meses — disse Marta Contreras, garçonete no centro de Sevilha, sorrindo por trás da máscara.

Ontem, cerca de metade dos 47 milhões de espanhóis progrediu para a chamada Fase 1 de um plano de quatro etapas — iniciado na Fase 0 — para relaxar uma das mais estritas quarentenas da Europa, depois que o governo decidiu quais regiões atendiam aos critérios necessários para a reabertura gradual das atividades econômicas.

Cerca de 40% do total de pequenas empresas do país e 60% daquelas localizadas em áreas da Fase 1 foram reabertas, de acordo com a Federação Nacional de Trabalhadores Autônomos. No setor de hotéis, restaurantes e bares, apenas 20% das empresas reabriram em toda a Espanha.