Francisco critica ideologização da Igreja e defende comunidades de base

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Papa Francisco é cercado por crianças em sua visita à Varginha, no Rio, 25/07/2013

O papa Francisco criticou neste domingo a ideologização da Igreja católica e destacou a importância do trabalho pastoral e das comunidades eclesiásticas de base durante encontro com 45 bispos que integram o comitê organizador do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (Celam).

Em um discurso duro, o pontífice pediu aos bispos que não sejam "comandantes", nem se comportem como "prínicipes".

"Os bispos devem ser pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham 'psicologia de príncipes'", disse Francisco antes de voltar para a Itália.

"Ele deve guiar, que não é o mesmo que comandar", acrescentou o primeiro papa latino-americano.

Francisco advertiu sobre as tentações que afastam os sacerdotes da palavra de Jesus, como a ideologização da mensagem evangélica, o "reducionismo socializante (...) engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista".

Em alguns momentos essa ideologização foi, segundo o Papa, "muito forte".

Muitos sacerdotes e freiras latino-americanos entraram nas guerrilhas nos anos 1960, 70 e 80, quando vários países da região eram governados por ditaduras militares.

A Teologia da Libertação (TL), que nasceu há mais de quatro décadas na região e defende uma opção prioritária aos pobres, foi acusada de marxista por João Paulo II na década de 1980, em plena Guerra Fria.

Franciscou ressuscitou vários aspectos da TL, como a defesa dos pobres, a ida até as periferias, a compaixão e a cidadania participativa, ressaltam especialistas. Mas, diante do Celam, o papa declarou que não quer uma Igreja ideologizada.

O papa também alertou para o "clericalismo", no qual a Igreja projeta uma imagem de poder e de privilégios, enquanto o papel do fiel laico é simplesmente rezar e obedecer.

"O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina", disse o pontífice argentino.

Francisco indicou que a propagação das comunidades eclesiásticas de base, dos conselhos pastorais e dos grupos bíblicos vai "na linha da da superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical".

"Pastoral é o exercício da maternalidade da Igreja. Às vezes, nós nos esquecemos disso e ela vira madrasta", disse o Papa, arrancando risadas dos bispos.

Ele também incentivou o uso de uma linguagem simples e clara, próxima dos fiéis. "Como são as nossas homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que 'falava como quem tem autoridade', ou são meramente prescritivas, distantes, abstratas?", questionou.

Desde o início de seu pontificado, em março deste ano, Francisco buscou revitalizar a Igreja Católica, usando sua viagem ao Rio de Janeiro para pedir que os jovens católicos propaguem o Evangelho e "façam bagunça" em suas dioceses.

No sábado, ele disse a milhares de bispos, padres e seminaristas que "é nas favelas, cidades miseráveis, que se deve buscar e servir a Cristo".

"Não podemos ficar trancados na paróquia, em nossa comunidade, quando tantas pessoas estão esperando pelo Evangelho", acrescentou.

Francisco tentou dar um novo rumo ao seu rebanho no Brasil, país com mais católicos do mundo, onde as igrejas evangélicas ganham força e o secularismo é crescente.