Frangos foram domesticados na Tailândia há 3.500 anos, indica estudo

Um estudo publicado hoje pode colocar fim a uma disputa de décadas entre cientistas: qual foi a primeira população humana a domesticar o frango? De acordo com uma análise de ossos de galinha em mais 600 sítios arqueológicos de em 89 países, a primeira população a domesticar foi a tailandesa.

A querela que envolve a origem do frango doméstico é não apenas científica mas também cultural, com indianos, chineses e árabes e até europeus arrogando para si o mérito de terem domesticado o animal que se tornou a ave mais consumida no planeta. Em países dessas regiões, pratos de frango são componente importante de culturas locais, e o estudo da ave não raro se deixou contaminar por ímpetos nacionalistas.

O resultado da pesquisa feita agora, liderada pelas universidades de Oxford (Inglaterra) e de Munique (na Alemanha) é análise mais detalhada sobre o assunto, combinando não só informação arqueológica mas de sequenciamento de DNA das aves e registros escritos da presença e uso do animal em diferentes lugares.

Após cruzar os dados, o grupo liderado pelo paleontólogo e veterinário alemão Joris Peters afirma que o sítio arqueológico mais antigo em que há presença inequívoca da ave domesticada em Ban Non Wat, no centro da Tailândia. Galos e galinha desenterrados ali datam de 1650 a.C e 1250 a.C., o que significa que a sua domesticação pode ter ocorrido ali até meio milênio antes do que na China ou na Índia.

O estudo liderado por Peters, publicado hoje na revista PNAS (da Academia Nacional de Ciências dos EUA) contradiz dois estudos clássicos da área, um do cientistas Friedrich Zeuner (1963) e outro de Barbara West e Ben-Xiong Zhou (1988).

"O primeiro defende uma origem do Sudeste Asiático e possível do sul da Índia para as galinhas, e o segundo afirma que as galinhas domésticas apareceram pela primeira vez no norte da China antes de seguirem uma trajetória do norte em direção à Europa", escrevem os cientistas "Ambas as sínteses frequentemente citadas resumiram os dados, mas não os avaliaram criticamente."

Peters e seus colegas explicam que os primeiros estudos arqueológicos sobre o assunto usavam datas deduzidas por meio de camadas geológicas em que os ossos eram achados, mas ossos de frango pequenos frequentemente se movimentam nas camadas ao longo dos anos como fruto de atividades agrícolas e de construção.

O novo estudo corrige a data da maioria das amostras por meio de datação por radiocarbono nos ossos em si, uma técnica mais sofisticada. Cerca de 75% dos dados por estratos geológicos estavam errados, afirmam os pesquisadores.

O trabalho dos cientistas também aborda a questão de porque as primeiras galinhas foram domesticadas justamente naquela região.

Estudos genéticos já tinham mostrado que o grupo de frangos selvagens mais próximos do frango doméstico moderno é o da subespécie "spadiceus", que vive numa área indo de Mianmar e o sul da China até a Malásia, com partes no Vietnã, Camboja e Laos. Nessa região o centro/norte da Tailândia é onde se cultiva arroz há mais tempo.

Peters postula que, quando os primeiros povos começaram a plantar arroz e painço na região de hábitat das galinhas selvagens, apesar de serem ariscas, elas passaram a ser atraídas a populações humanas. A busca dos frangos por comida fácil teria estimulado o processo de domesticação.

Sucesso mundial

Não está totalmente claro que esse processo ocorreu exatamente na atual Tailândia, mas cientistas estão seguros que não foi no Norte da China nem no vale do rio Indo, as duas outras regiões candidatas mais fortes.

Teorias que colocavam a origem do frango doméstico no Oriente Médio e na Europa carecem ainda mais de base lógica, por falta de evidência de espécimes selvagens nessas regiões. Como o frango já era uma iguaria consumida numa vasta área durante a expansão do Império Romano, os relatos históricos se tornaram uma fonte confusa para tentar descobrir onde efetivamente as galinhas tinham sido domesticadas.

Outro estudo publicado hoje, liderado pela Universidade de Bournemouth (Inglaterra), analisou um conjunto de ossos de frango achados em sítios arqueológicos europeus, concluindo que as primeiras aves da espécie só chegaram ali depois de 1.000 a.C.

"Um hiato consistente entre a introdução do frango e seu consumo por humanos sugere que esses animais foram inicialmente considerados espécimes exóticos ornamentais, e só depois de vários séculos passaram a ser identificados como fonte de alimento", escrevem os cientistas, liderados pela arqueóloga Julia Best, na revista científica Antiquity.

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