Frases racistas são coladas em banheiro da Uerj: 'fim das cotas'

Cartazes com frases racistas foram coladas em banheiro masculino. (Foto: GettyImages)
Cartazes com frases racistas foram coladas em banheiro masculino. (Foto: GettyImages)
  • Alunos afirmam que mensagens são resposta a ato pró-cotas na semana passada

  • Ato foi chamado após estudante sofrer ataques racistas

  • Polícia Civil investiga os ataques

Estudantes denunciaram que mensagens racistas foram coladas em um banheiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em São Gonçalo, na Região Metropolitana da capital. As frases diziam: "estupro de pretas" e "fim das cotas".

Conforme explicaram os alunos ao portal G1, os cartazes seriam uma reação a um protesto que ocorreu na semana passada, a favor das cotas raciais na instituição de ensino, cujo slogan era: “cota não é esmola”. A manifestação foi organizada depois que uma graduanda de Pedagogia sofreu ataques.

"Nós estávamos numa aula de geografia e, de repente, começou uma discussão generalizada, com a aluna que me atacou. E, do nada, no meio de todos os que estavam discutindo, ela me escolheu para me atacar. Ela já sabia que eu era cotista racial da instituição e daí ela se levantou, veio até a minha mesa e falou: 'você não foi à Uerj Maracanã buscar as suas bolsas?'", relatou a estudante vítima dos ataques, que não quis ser identificada, ao portal.

"Ela começou a falar assim: você é favelada? Eu também sou. E começou a fazer ameaças citando o nome de comunidades. Eu não teria problema nenhum em morar em favela. O problema é quando usam isso para nos atacar. Nos xingar de forma pejorativa", continuou a estudante.

Ela então registrou o caso como injúria racial e ameaça na 73ª DP (Neves), em São Gonçalo. A Polícia Civil investiga o caso, mas a Uerj não registrou o incidente com as mensagens no banheiro.

"Nós estamos em espaços que, a algumas décadas atrás, nós não estávamos. E é claro que a política de cotas ajudou muito nisso, né? Se entramos por política de cotas ou não, somos alunos, somos cidadãos e temos esse direito. É como se nós, pretos, não tivéssemos que estar aqui dentro. E não é o caso. Mesmo nós sabendo que temos direito sim de estar aqui, a gente sente como se aqui não fosse o nosso lugar. Mas nós sabemos que é sim o nosso lugar. Não só aqui, mas onde nós quisermos estar e ocuparmos é sim o nosso lugar", lamentou.

Cotas na Uerj

A Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi a primeira do Brasil a adotar uma política de cotas para o ingresso na graduação. A ação inspirou uma lei federal, que desde 2000 garante cotas para alunos provenientes de escolas públicas e, desde 2001, para pessoas auto identificadas pretas e pardas.

No entanto, segundo a direção da Faculdade de Formação de Professores, falta na universidade um regimento que puna situações como a que ocorreu.

"Primeiro apurar efetivamente o que houve e dar o prosseguimento institucional. O que a gente pode fazer? Instaurar uma sindicância inicial, fazer o levantamento do que aconteceu na turma, ouvindo os alunos. Nesse caso, ele extrapola até o campus da universidade, porque ele é crime. Eu estou há 41 anos dentro da universidade, da Uerj, e nunca soube de caso de expulsão de aluno", disse Marisa de Paula Assis, vice-diretora da Faculdade de Formação de Professores, ao portal G1.