Fraude bancária na China: mesmo sem risco sistêmico, um golpe na confiança

O escândalo envolvendo quatro bancos rurais na província central de Henan voltou a levantar dúvidas sobre a estabilidade do setor financeiro da China e expôs os perigos de um sistema que combina alta competitividade, proliferação de meios eletrônicos e regulação mais frouxa do que se supõe. O governo afirma que são casos isolados e que não há risco sistêmico, o que faz sentido levando-se em conta que as quantias comprometidas são relativamente pequenas para o tamanho da China. Mas em meio à desaceleração da economia, a pressão sobre o setor imobiliário e as incertezas criadas pela política de Covid zero, o problema é que a turbulência em Henan alimente uma crise de confiança generalizada, com indesejáveis abalos na estabilidade social.

Leia também: Covid zero na China torna celular um meio de sobrevivência — e paranoia

Em oito anos: Xi Jinping faz primeira visita a Xinjiang desde acusações de crime contra a Humanidade

O caso começou a chamar a atenção ao deflagrar protestos a partir do fim de maio, quando clientes foram aos bancos exigir a liberação de seus depósitos, bloqueados desde o mês anterior. A crise ganhou repercussão nacional e internacional no momento em que imagens de clientes sendo reprimidos por homens à paisana em Zhengzhou, capital da província, se espalharam pelas mídias sociais. A revolta aumentou com os relatos de que clientes tiveram o status do aplicativo para controle de Covid-19 adulterado indevidamente para restringir seus movimentos. Criou-se um coquetel indigesto: a descrença no sistema bancário misturada à desconfiança no controle da pandemia.

No centro do escândalo em Henan está um obscuro esquema de depósitos fraudulentos. Segundo as autoridades, um grupo privado de investimentos havia obtido acesso ao sistema online dos quatro bancos rurais de Henan (e um na província vizinha de Anhui) e oferecia taxas de poupança bem acima da média no mercado. Seduzidos pelo alto retorno, milhares de clientes de Henan e de outras províncias depositaram sua renda nos bancos, acreditando que eram contas seguras. Uma investigação do órgão regulador chinês mostrou que o grupo agiu em conluio com funcionários dos bancos para atrair fundos de forma ilícita por meio de plataformas online, as quais estavam proibidas desde 2021. O líder do grupo está foragido, supostamente nos Estados Unidos.

É um dos maiores escândalos bancários já ocorridos na China. As autoridades se apressaram a apagar o incêndio antes que a desconfiança se alastre. A grande preocupação é que o esquema de pirâmide também tenha sido aplicado em outras províncias. Clientes em Henan com depósitos de até 50 mil yuans (R$41 mil) começaram a ser ressarcidos, informou o órgão regulador, que pediu paciência aos que ficaram de fora da primeira leva. A estimativa é de que as fraudes tenham envolvido 40 bilhões de yuans (R$ 32 bilhões) em depósitos de 400 mil clientes. Segundo testemunhos, algumas contas tinham milhões em depósitos. Os poupadores alegam que caíram na fraude ao achar que estavam movimentando seu dinheiro num esquema seguro, de grandes instituições para os bancos rurais, por meio de transferências online.

Veja também: Maior fabricante de chips da China consegue avanços tecnológicos, apesar de boicote dos EUA

Conversa à vista: Biden prepara conversa com Xi e se opõe a visita da presidente da Câmara a Taiwan

Não está claro como o pagamento das compensações será dividido entre o governo local e central. Em muitos casos os clientes terão que arcar com as perdas devido à falta de proteção legal, disse Liqian Ren, economista formada pelas Universidades de Pequim e Chicago, ao portal SupChina. Segundo ela, a proliferação de plataformas financeiras eletrônicas tornou mais difícil a regulação de transações feitas por pequenos bancos e a desaceleração da economia contribuiu para o aumento de dívidas de risco. Para reduzir os danos, o governo autorizou a emissão de 103 bilhões de yuans (R$ 84 bilhões) em títulos a Henan e outras três províncias para reforçar a capitalização de pequenos bancos.

Para Michael Pettis, professor de finanças da Universidade de Pequim, a determinação é um sinal claro de que Pequim reconhece na crise em Henan um problema sistêmico, "e não específico de uns poucos bancos mal-administrados". Pettis há anos aponta para o alto endividamento como um dos principais riscos para a economia chinesa. A questão agora é como o governo irá alocar as perdas em Henan e outros casos semelhantes que, prevê ele, irão surgir. Transferir as dívidas de bancos para governos locais só adia o problema, "porque ele é grande demais para ser resolvido".

As autoridades chinesas afirmam que as redes de proteção existentes são suficientes para impedir um efeito dominó. Segundo o Banco Central, um exame recente mostrou que 93% dos cerca de 4 mil bancos do país são seguros e os riscos financeiros "em geral são controláveis". Para o governo, inflar a crise em Henan como um sinal de fragilidade sistêmica é mais uma tentativa do Ocidente de "manchar" a imagem da China, conforme acusou o jornal estatal Global Times, minimizando o fato de que a preocupação também foi dominante nas mídias sociais do país. Muitos foram descuidados ao exagerar a reação do governo para abafar as repercussões do caso: imagens de tanques supostamente percorrendo as ruas de Henan que viralizaram na verdade eram de outra província, e faziam parte de um exercício militar que nada tinha a ver com o caso.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos