Fred, Marta e a arte de decidir

No jornalismo, como no esporte e de resto na vida, é preciso tomar decisões — nem sempre com a ajuda do tempo. Na semana passada, já tinha escrito o texto deste espaço quando vi Fred fazer o que fez no Maracanã. Daria tempo de mudar, mas me apeguei a um argumento: não era a despedida oficial, ainda faltava um jogo. Errei. No noticiário do dia seguinte e ao longo da semana, foi ficando claro que a catarse coletiva do adeus ao ídolo já tinha acontecido, como Gustavo Poli registrou brilhantemente em sua coluna de ontem.

O ato final, como previsto, foi de pura celebração. Fred entrou com o jogo resolvido, viu o gol do Ceará e não fez o seu, para arredondar a conta em 200. Um dia depois do aniversário de oito anos do 7 a 1, a torcida do Fluminense, que acolheu seu ídolo depois do massacre, encheu o Maracanã para aplaudi-lo pela última vez. Valeu cada minuto.

Já houve outras decisões editoriais de que me arrependi no dia seguinte, claro. Mas a que mais me marcou foi uma que tive tempo para tomar e demorei a perceber que tinha errado. Em 2010, fui convidado pela Editora Contexto para escrever o livro “Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro”. O processo de escolha foi divertido (passando primeiro por definir a posição do camisa 10), mas no fim ficou claro que a lista geraria insatisfações. Muita gente reclamou da presença de Neto, da ausência de Alex. Fui levando tudo numa boa, até ler um tuíte que perguntava por que não a Marta. A resposta é doída: porque não pensei nela. Interpretei a expressão futebol brasileiro como futebol masculino brasileiro. E só percebi depois que o livro já estava publicado. Como não houve segunda edição, foi impossível corrigir — a injustiça está guardada na estante da minha sala e na de quem mais leu.

Logo depois da despedida oficial de Fred, a seleção feminina de futebol começou sua trajetória na Copa América, contra a Argentina. Sem Marta. E também sem Formiga e Cristiane, que brilharam a seu lado nas principais conquistas: ouro no Pan-Americano, prata nas Olimpíadas e no Mundial. Três ausências que não devem ser um problema para a competição, vencida pelo Brasil em sete de suas oito edições. Os desafios estão projetados para depois.

“Esse time em dois, três, quatro anos será imparável”, disse a técnica Pia Sundhage, mesmo depois de resultados ruins nos amistosos contra Dinamarca e Suécia. A Copa América vale três vagas para o próximo Mundial (Austrália e Nova Zelândia 2023) e duas para a próxima Olimpíada (Paris 2024). Nos dois casos, uma delas deve ficar com o Brasil. Mas o processo de transição — não só de nomes, mas de todo o conceito de jogo, com propostas mais modernas — ainda estará em andamento.

Para voltar a ocupar seu espaço no cenário internacional, a seleção feminina precisa de itens raros no futebol brasileiro: tempo e paciência. Como a própria Marta disse, depois da eliminação nos Jogos de Tóquio, não haverá sempre uma Marta, uma Formiga, uma Cristiane. Esse tempo já chegou. No lugar delas, deve haver investimento e condições de preparação — o que sempre lhes faltou. Assim, como uma geração driblou tantos obstáculos para se tornar vitoriosa, a próxima vai conseguir superar a invisibilidade.

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