Frei David: 'os assassinos de João Alberto arruinaram nossa alegria'

Bruno Alfano
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Agência O Globo
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RIO— Frei David, diretor executivo da Educafro, queria poder comemorar vitórias no Dia da Consciência Negra. Em vez disso, acordou com a notícia da morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, que foi brutalmente espancado até a morte por dois seguranças brancos na saída de um supermercado da rede Carrefour, no bairro Passo D'Areia, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

O caso ocorreu na noite desta quinta-feira (19). Ao GLOBO, Frei David afirmou que buscará a rede de supermercados para propor um programa de trainee para profissionais negros e também um pedido de desculpas. Ele também fez um apelo às pessoas que sofrem racismo:

— Denuncie fortemente. A Educafro se disponibiliza para conseguir advogados voluntários caso a pessoa não tenha. Pode telefonar para (11) 96173-6869 — afirma.

O Carrefour se manifestou sobre a morte de João Alberto na madrugada desta sexta-feira. Informou que os funcionários, contratados por uma empresa terceirizada, foram demitidos e "ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna".

Como o senhor recebeu a notícia da morte de João Alberto?

Infelizmente esse caso é a ponta do iceberg. A grande maioria de casos de racismo não é denunciada. Esse é um ponto delicado. Faço um apelo para todo irmão ou irmã negra que sofra qualquer tipo de racismo em quaquer espaço: denuncie fortemente. A Educafro se disponibiliza para conseguir advogados voluntários caso a pessoa não tenha. Pode telefonar para (11) 96173-6869 que o número está disponível para pessoas que sofrem racismo em qualquer lugar do Brasil. Já temos 15 advogados disponíveis e, se precisar, a gente entra em contato com a Defensoria Pública e com o Ministério Público do estado. A última estratégia vai depender de cada caso e do potencial de garantia de respeito ao distanciamento. Seria fazer um protesto na frente da porta ou dentro dos espaços onde o negro está sendo vilipendiado.

Que ações a Educafro vai tomar em relação a esse caso de Porto Alegre?

Temos agora total convicção de que o grande problema do Carrefour é a irresponsabilidade da contratação, onde prioriza o menor preço e não a qualificação do treinamento dos seus funcionários. Queremos condenar a direção nacional do Carrefour porque o problema acontece nos quatro cantos do Brasil. Já estamos procurando contato com a direção da empresa para que ela reconheça o racismo estutural que o Carrefour tem contra o corpo negro. E faça o que foi feito pelo Magazine Luiza e pela Bayer, um programa de trainee para profissionais negros. Também queremos uma nota de desculpa, como a Nubank fez ao povo negro. Queremos que a empresa valorize a comunidade negra e respeite nossa cidadania.

Como será esse Dia da Consciência Negra para o senhor?

Nós queríamos tanto no Brasil poder celebra esse 20 de novembro a partir da vitória do STF concendendo à comunidade negra o direito de ter a verba eleitoral e o tempo de TV. Queria poder celebrar hoje essa realidade. Nós do movimento negro decidimos que dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) é para celebrar nossas vitoiras. E o 13 de maio (data da assinatura da Lei Áurea) de denunciar a maldade do racismo estrutural contra nós. Mas infelizmente os assassinos de João Alberto arruinaram nosso dia de alegria. Eles nos fizeram chorar a morte de mais um irmão negro por uma violência descabida e irresponsável.

Leia a nota completa do Carrefour:

"Sobre a brutal morte do senhor João Alberto Silveira Freitas na loja em Porto Alegre, no bairro Passo D’Areia: O Carrefour informa que entrará com uma queixa-crime contra os responsáveis. Também romperá o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão. O funcionário que estava no comando da loja no momento do incidente será desligado. Em respeito à vítima, a loja será fechada. Entraremos em contato com a família para dar o suporte necessário.

O Carrefour lamenta profundamente o caso. Ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos as providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente.

Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais."