Frente anti-Bolsonaro remói derrota na Câmara e vê mais obstáculos para 22

CAROLINA LINHARES
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BRASÍLIA, DF, 05.02.2021 - JAIR-BOLSONARO-DF - O presidente Jair Bolsonaro durante coletiva de imprensa para falar sobre alterações na política do preço de combustíveis, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 05.02.2021 - JAIR-BOLSONARO-DF - O presidente Jair Bolsonaro durante coletiva de imprensa para falar sobre alterações na política do preço de combustíveis, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O naufrágio do bloco que apoiava Baleia Rossi (MDB-SP) na disputa pela presidência da Câmara expôs os entraves para a formação de uma frente ampla de oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na eleição de 2022.

A união de diferentes perfis ideológicos com caciques de MDB, PT, PDT, PSB, PC do B, Cidadania, Rede, PV, PSDB, DEM e PSL --os dois últimos acabaram abandonando o barco-- foi vista como um ensaio dessa frente, que já fracassou outras duas vezes.

Na segunda-feira (1º), quando o governista Arthur Lira (PP-AL) derrotou Baleia contando com rachas nos partidos que apoiavam o emedebista, o recado foi que as siglas e os deputados definem "lado" muito mais com base em vantagens pragmáticas para se reelegerem, como verbas e cargos, do que pela convicção de derrotar Bolsonaro.

Deputados ouvidos pela reportagem acreditam ser difícil uma união de esquerda, centro e direita moderada em uma candidatura presidencial única em 2022, mas avaliam que o segundo turno, dependendo de quem nele estará, pode forçar isso.

Especialistas concordam que o sistema partidário e eleitoral não dá incentivos para que haja uma frente ampla, pelo contrário: o natural é que diferentes siglas lancem seus projetos ao menos no primeiro turno.

O consenso em Brasília e na academia é que os cenários para 2022 não podem ser cravados agora, pois tudo depende de como o governo vai se comportar e de como as crises econômica e sanitária irão afetar a popularidade do presidente.

A força ou fraqueza eleitoral de Bolsonaro, o tamanho da oposição e o nível de entendimento quanto a ele representar uma ameaça à democracia são fatores que poderão unir os partidos para derrotá-lo ou, ao contrário, fazê-los seguir fragmentados.

Parlamentares mais otimistas veem, sim, possibilidade de frente ampla em 2022, seja num segundo turno, seja numa redução de candidaturas no primeiro --uma de centro-direita, uma de centro-esquerda e Bolsonaro.

De forma geral, porém, alguns deputados avaliam como positiva a união em torno de Baleia. O episódio teve o mérito de criar um diálogo entre siglas distantes.

Parlamentares ouvidos pela reportagem preveem que haverá no Congresso uma união da oposição ao governo, do PSOL ao PSDB, sobretudo para barrar pautas como ampliação do armamento, ensino domiciliar e brechas para violência policial.

Mais do que isso: creem que esse bloco vai crescer conforme Bolsonaro não consiga entregar cargos e emendas prometidas ao centrão ou enterre de vez sua popularidade com crises agudas.

Já quando o assunto for economia e reformas, a esquerda deve ficar sozinha na oposição, com alas oposicionistas de partidos como PSL, DEM e PSDB aderindo à pauta liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O tema do impeachment só sai do banho-maria, dizem parlamentares, se a vacinação permitir mobilização de massa de oposicionistas nas ruas.

A frente ampla já sucumbiu anteriormente devido a diferentes atores.

A primeira tentativa foi ainda no segundo turno de 2018, em torno da candidatura de Fernando Haddad (PT), quando Ciro Gomes, o candidato do PDT derrotado no primeiro turno, viajou para a Europa. João Doria (PSDB), que disputava o governo de São Paulo, se apresentava então como aliado de Bolsonaro.

Em meados de 2020, em plena na pandemia, quando a postura de Bolsonaro já indicava prejuízo à saúde pública, foi a vez de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) jogar água fria nos manifestos contra o presidente afirmando não ser "maria vai com as outras". Ele se recusou a estar ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Na eleição municipal do ano passado, partidos de esquerda se uniram no primeiro turno somente em Florianópolis e Belém (sem o PSB). Já as frentes contra candidatos bolsonaristas só se formaram no segundo turno no Rio de Janeiro e em Fortaleza.

Na eleição da Câmara dos Deputados, o ônus ficou com DEM e PSL, que saíram do bloco de Baleia, rumo que o PSDB quase tomou.

Na esquerda, o PSOL foi criticado por lançar candidatura própria para marcar posição enquanto Baleia tinha chances reais de derrotar Bolsonaro. Agora, o partido reforça a opinião de que a esquerda tem que ter candidatura própria e não pode contar com a oposição de direita --o PT ainda defende a postura pragmática como a correta naquele momento.

O movimento do DEM aproximou-o do governo. Ao jornal Folha de S.Paulo o presidente da sigla, ACM Neto, afirmou que não descarta apoiar a reeleição de Bolsonaro em 2022. Mas se mantêm abertas as possibilidades de apoiar PSDB, MDB e Cidadania, com Doria ou Luciano Huck, ou PDT e PSB, com Ciro.

O desafio da unificação existe também na esquerda, onde PSOL e PT podem não abrir mão de candidatura própria. Lula é ficha-suja, mas poderia ser candidato caso o Supremo Tribunal Federal julgue que Sergio Moro foi parcial e anule suas condenações.

Entre os otimistas em relação à frente ampla está o deputado Júnior Bozzella (PSL-SP), que vê chance de que a união da oposição se estenda a 2022.

"Não é fácil unificar, mas se iniciou a discussão para o amadurecimento de que precisamos de uma alternativa. A candidatura do Baleia foi um marco, é uma chama que se acendeu e deve ser levada adiante."

O líder do PSDB na Câmara, Rodrigo de Castro (MG), afirma que o partido resistiu com Baleia apesar das pressões --e que o movimento a favor de Lira se deve à sua boa articulação e ao pragmatismo de alguns deputados, mas não enfraquece a oposição.

Para ele, se os partidos não estarão juntos no primeiro turno, ao menos "quebraram o gelo" para um eventual segundo. "Há um ano não tinha esse diálogo e hoje tem."

Fora do campo eleitoral, os deputados dão exemplos da manutenção da unidade da oposição, já que todos agiram em conjunto contra a determinação de Lira de deixá-los de fora da Mesa Diretora.

Carlos Zarattini (PT-SP) diz que as alas de DEM e PSDB fiéis a Rodrigo Maia (DEM-RJ) agora estão marcadas como oposição, e que o autoritarismo de Lira exigirá que todos joguem juntos na Câmara --embora acordos para 2022 não sejam possíveis na visão dele.

Elmar Nascimento (DEM-BA), que aderiu a Lira, afirma que antecipar 2022 para a eleição da Câmara foi um equívoco e que o cenário das urnas só será discutido no ano que vem. Para ele, o discurso de que o bloco de Baleia era uma frente anti-Bolsonaro foi uma estratégia de Maia para obter a adesão da esquerda.

O presidente do PDT, Carlos Lupi, e o líder do partido na Câmara, André Figueiredo (CE), acham possível a adesão do DEM a Ciro, mas veem o PT fora da aliança.

Para o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), é necessário haver ações conjuntas de partidos e da sociedade civil contra Bolsonaro, "mas isso não projeta imediatamente soluções para 2022".

A cláusula de barreira, a necessidade de fazer boa bancada de deputados, a eleição em dois turnos e a quantidade de partidos dificultam uma frente ampla, avaliam os professores Marta Arretche, da USP, e Felipe Nunes, da UFMG e diretor da consultoria Quaest.

"Os incentivos institucionais obrigam os partidos a lançarem candidatura no primeiro turno. É um atributo do próprio sistema", diz Nunes.

"A ideia de formar uma grande frente contra Bolsonaro é inspirada em Joe Biden, nos EUA, mas nosso sistema é diferente. Bolsonaro montou uma coalizão de sustentação, mas não revelou até agora habilidade necessária para manter coesa a situação. O tamanho da oposição vai depender dos movimentos que ele fizer", afirma Arretche.