Frigoríficos de aves e suínos podem suspender abate caso protesto continue, diz fonte

Frangos expostos em frigorífico

Por Nayara Figueiredo

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria de aves e suínos já sente os efeitos de protestos nas rodovias do Brasil motivados pela insatisfação com o resultado das eleições presidenciais, e alguns frigoríficos devem paralisar abates a partir de quarta-feira caso as manifestações continuem, conforme fonte a par do assunto.

O integrante do setor, que falou à Reuters nesta terça-feira na condição de anonimato, disse que o risco é iminente em todo o país, devido à interrupção no fluxo de entrega de animais para abate e dificuldade de escoamento da carne aos destinos.

"A planta consegue manter de três a quatro dias de abate, a depender do estoque, e depois disso não consegue mais", disse a fonte.

Os protestos começaram na noite de domingo, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o atual presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os manifestantes chegaram a interditar 230 pontos de estradas em 21 Estados e no Distrito Federal nesta terça-feira, apesar de uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinando o desbloqueio imediato das vias tanto pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) como pelas polícias militares estaduais.

De acordo com a fonte da indústria de carnes, os atos ainda não estão desencadeando desabastecimento no mercado interno, mas os efeitos para a cadeia "vão começar a aparecer".

"Em alguns casos, isso reflete até mesmo em preço na prateleira do consumidor, porque é mais custo (para a indústria)", alertou ele, sobre o que as interrupções na operação dos frigoríficos podem causar posteriormente.

No Paraná, maior produtor e exportador de aves do país, outro representante da indústria de proteína animal disse que ainda não há prejuízos financeiros gerais reportados, exceto com o não embarque de mercadorias.

"Contudo, a medida que o movimento avançar, começaremos a ter falta de ração para os animais e possivelmente abates sanitários, a depender da quantidade de dias", afirmou o executivo na condição de anonimato.

Ele disse que os primeiros danos à cadeia produtiva do Estado começaram a ser contabilizados nesta terça-feira.

"Os abates estão parados desde ontem, porque não está acontecendo carregamento e não há funcionários."

O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, por sua vez, disse que ainda não há relatos de falta de ração nas granjas da região, pois alguns produtores rurais já imaginavam este desfecho após as eleições e fizeram estoques de insumos.

"O que está complicando é para as indústrias, para recolher esses animais e abaterem, porque não estão conseguindo transportar as carnes para os destinos e acabam ficando com as câmaras frias cheias. Os caminhões também estão carregados e não conseguem se deslocar como deveriam", disse ele.

Lorenzi comentou que, apesar de ainda não identificar problemas dentro da porteira com a alimentação dos suínos, esta "é realmente uma preocupação muito grande que nós temos enquanto associação".

O Estado é o principal produtor e exportador da proteína suína no Brasil.

(Reportagem de Nayara Figueiredo)