Fritura de Mandetta expõe contradição de Bolsonaro sobre ministério técnico

Eduardo Bresciani

Ao escolher sua equipe, o presidente Jair Bolsonaro criou um discurso de que montava seu ministério apenas por critérios técnicos, ignorando a composição política. Foi essa a justificativa para nomear Luiz Henrique Mandetta ministro da Saúde, duas semanas depois de ter escolhido Tereza Cristina para a Agricultura, mesmo os dois sendo deputados pelo DEM, e ambos do Mato Grosso do Sul. A crise do coronavírus, porém, evidencia que Bolsonaro nem sempre está disposto a ouvir quem ele próprio julgou como especialista.

O discurso de um ministério técnico visava proteger o presidente em alguns debates, em que o responsável pela pasta e sua equipe assumiam a linha de frente. O caso mais evidente foi na discussão da reforma da Previdência. Ao elevar a fritura de Mandetta para um nível que nunca aconteceu na sua gestão, o presidente deixa claro que a escolha de técnicos tinha um outro objetivo: o de ter ao seu lado pessoas capazes de executar as suas ordens, não alguém com capacidade para questioná-lo, ainda mais publicamente.

O ministro da Saúde se definiu como "médico raiz", mas sua experiência como gestor da área é curta, e apenas na capital do sétimo estado menos populoso do país. O destaque que Mandetta teve antes de chegar à pasta foi, como deputado, na oposição ao Mais Médicos, quando militou ao lado do seu atual chefe. O hoje ministro defendia o interesse dos médicos, enquanto Bolsonaro bombardeava o programa pela parceria com Cuba.

Na crise, o ministro tem destacado o uso da ciência e da técnica como seu norte. Para um presidente que se orgulhava de não deixar a política invadir seu ministério, tal posição deveria merecer elogio. Bolsonaro, porém, acusa o subordinado de falta de humildade e pede que ele o escute. Na encruzilhada, porém, ele disse não ter como demitir Mandetta "no meio da guerra". Assim, decidiu ignorá-lo e acabou por transformá-lo em um "ministro de oposição".

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