FTX: crise da maior corretora de criptomoedas dos EUA preocupa investidores no Brasil

Investir em renda variável — especialmente no que está relacionado a inovações, como ações de big techs ou criptomoedas — embute estar preparado para altos riscos financeiros. Quando se trata de moedas digitais, as oscilações são ainda maiores e podem levar a lucros extraordinários ou à perda de grandes fortunas.

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Quem escolhe a maior corretora de cripto dos EUA para confiar parte da carteira de investimentos busca maior segurança, mas não está livre de percalços. Com o cenário de guerra na Ucrânia, alta de juros em diversas economias no mundo e desconfiança nas plataformas de moedas criptografadas, os investidores já convivam com a tensão de um ano com ativos digitais em queda.

No entanto, a inesperada crise financeira da FTX.com adicionou contornos dramáticos ao setor nos últimos dias. E alguns dos aflitos estão no Brasil.

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A corretora FTX.com, que estava a ponto de ser comprada pela Binance, rival chinesa e gigante do setor, entrou em colapso depois que o CEO Sam Bankman-Fried confirmou nesta quarta-feira um déficit de até US$ 8 bilhões. Sem a aquisição da Binance, a situação está cada vez mais difícil.

Segundo a agência Bloomberg, autoridades dos EUA estão investigando as transações da FTX, que pode declarar falência se não conseguir capital para cobrir um déficit nas contas. A Comissão de Valores Mobiliários das Bahamas congelou os ativos da FTX Digital Markets e das “partes relacionadas”. A decisão foi uma “ação prudente” para preservar os ativos e estabilizar a empresa, disse a agência nesta quinta-feira em comunicado.

A crise ameaça fortunas de nomes conhecidos no mercado, como de Alan Howard, da Brevan Howard Asset Management, o family office de Paul Tudor Jones, o fundador da Millennium Management, Izzy Englander e até o ex-casal de celebridades Tom Brady e Gisele Bündchen, que adquiriram participação acionária na empresa em meados de 2021. A modelo chegou a se tornar assessora de iniciativas ambientais e sociais da FTX.

Faria Lima nublada

Os maiores investidores da FTX incluem gigantes das finanças como grandes fundos de pensão e gestoras de investimentos como Sequoia Capital, Lightspeed Venture Partners e SoftBank, mas a crise não ameaça apenas o patrimônio dos grandes.

Na Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, o clima é nebuloso. Entusiastas de blockchain não conseguem conter a surpresa, uma vez que a exchange já foi considerada a segunda maior do mundo.

Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb, um buscador de investimentos e de criptomoedas, acompanha a trajetória da empresa desde 2020, quando fez o primeiro aporte no valor de R$ 5 mil. Ele estuda o mercado de cripto há cerca de cinco anos, e considerava a corretora um exemplo de boas iniciativas que demonstraram segurança.

— Sempre foi uma corretora que cresceu muito rápido. Ela teve o apoio dos maiores investidores do mundo, além de uma proposta diferenciada de apoio ao usuário, com ferramentas para traders — diz o investidor.

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Desde o colapso, a corretora não prestou nenhum esclarecimento aos investidores, além do pedido de desculpas do próprio CEO. Até o momento, não é possível fazer nenhum saque, pois as plataformas estão travadas.

Pascowitch mantinha entre 40% e 50% da carteira em fundos relacionados à corretora. Ele calcula que até o momento a perda de patrimônio seja entre 12% e 13%.

Ao demonstrar a confiança na FTX, ele também destaca a reputação do fundador, Sam Bankman-Fried, um bilionário americano de 30 anos que chegou a ser chamado de “próximo Warren Buffett” pela revista Fortune e era conhecido como um magnata das criptomoedas cumpridor da lei:

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— Ele tem uma grande história com bitcoin, tinha boas estratégias de arbitragem e conseguiu muito lucro. Eu achava que (a FTX) era uma das maiores corretoras, junto com a Binance.

Reputação abalada

Ainda que Bankman-Fried tenha tido anos para construir uma reputação, em poucos dias, a imagem do bilionário foi por água abaixo. Para Pascowitch, não há possibilidades de voltar a confiar na FTX e, a não ser que a empresa anuncie uma troca em toda a sua administração, ele pretende retirar o que restou dos investimentos assim que os recursos forem liberados.

Um outro investidor que não quis se identificar também está aguardando a liberação dos recursos para sacá-los. Foi a primeira vez que ele decidiu aplicar no mercado de cripto. Ele não possui conta na FTX, mas investiu na criptomoeda parceira Solana, que foi afetada pelo crash. Dos R$ 1,5 mil aportados, sobraram R$ 363.

— É um pouco de chateação e um pouco de aprendizado — lamenta.