Fuga de capitais de países emergentes pode estar só começando

AP - Gregorio Borgia

A alta nos juros americanos e a instabilidade internacional aceleram a fuga de capitais nos países menos estáveis, em especial os do sul. A saída dos investidores, que buscam mercados mais seguros e lucrativos nos Estados Unidos e na Europa, piora a situação econômica já fragilizada das economias em desenvolvimento.

A explosão da crise política, econômica e social no Sri Lanka, que decretou default de pagamento aos credores externos, é uma síntese dos riscos que pairam sobre os países mais vulneráveis, em apuros para controlar a inflação e sem reservas para honrar suas dívidas soberanas. O banco Goldman Sachs avalia que o caso do Sri Lanka é apenas o primeiro de uma série de calotes que está por vir. A instituição financeira estima que US$ 50 bilhões já saíram das economias emergentes desde o início do ano – a pior sangria em 17 anos.

“No campo de mercados emergentes, a classificação é ampla demais. Cada um vai ter um tipo de reação diferente – cada país e cada região tem as suas características próprias”, destaca o brasileiro Wilber Colmeräuer, fundador da consultoria financeira EM Funding, de Londres, especialista em mercados emergentes. “Se você pegar um país que tem problemas de abastecimento de comida, de combustíveis, problemas fiscais – o Sri Lanka já tinha uma dívida monstruosa –, isso acaba se refletindo na moeda, que se desvaloriza em relação ao dólar, afinal os juros estão subindo nos Estados Unidos, e vira uma tempestade perfeita. Para alguns países, isso é uma tempestade perfeita.”

Egito, Gana, Tunísia, Paquistão são alguns dos mais expostos. Na América Latina, a situação no Equador e na Argentina são as mais preocupantes, num contexto em que a saída de dólares leva à alta do câmbio e a um aumento ainda maior da inflação, observa o economista Flavio Fligenspan, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Muita gente pegou financiamento internacional nos últimos anos, pré-pandemia e durante a pandemia, e não previu a possibilidade desse quadro se reverter. Isso lembra bastante os anos 1970, na crise do petróleo, quando muita gente pegou financiamento superbarato, mas o sistema financeiro se protegeu com um mecanismo de juros flutuantes – e aí a gente se deu muito mal. O Brasil entrou nessa, na época”, relembra. “Hoje, estamos numa situação inversa: nós não temos uma situação frágil de contas externas. Essa é a nossa grande vantagem nesse momento.”

Brasil tem reservas, mas não está ao abrigo

Embora o Brasil disponha de cerca de US$ 350 bilhões em reservas, está com o equilíbrio fiscal ameaçado e voltou a ter a taxa de juros reais mais elevada no mundo (a 13,25% ao ano), o que amplia os temores de uma nova recessão no país.

“Agora, o grande fantasma é a recessão mundial, algo que ainda não está totalmente integrado na equação. Os mercados financeiros, tanto os de ações como os de renda fixa, já reagiram, porque são os que reagem primeiro, mas existe uma situação de completa indefinição”, explica Colmeräuer. “A América Latina já estava meio jogada para escanteio, por seus problemas econômicos e por crescer muito pouco. O Brasil, na última década, não cresceu. Foi pífio. Enquanto isso, o mundo desenvolvido cresceu e o continente asiático, cresceu muito. Ou seja, o nosso problema é que a gente já não era muito relevante e esta ficando mais irrelevante ainda”, resume.

As incertezas ligadas às eleições e ao próximo governo tendem a manter olhos dos investidores estrangeiros afastados do Brasil, em meio um cenário de escassez de recursos e aversão aos riscos. Os juros altos atraíram investidores em renda fixa para o país, entretanto, o índice neste patamar elevado tende a uma degradação econômica mais dramática – sobretudo se a conjuntura mundial piorar, como se espera.

“Isso sim nos pega, porque parte da nossa economia é vinculada a exportações de commodities. Se o mundo inteiro andar mais devagar ou até para trás, e se inclusive a China, nossa grande importadora, passar a andar meio de lado, isso vai acabar afetando as nossas exportações”, adverte Fligenspan.

Previsões pessimistas

No fim de semana, após uma reunião ministerial do G20 marcada pela ameaça de recessão mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que voltará a revisar para baixo as previsões de crescimento em 2022 e 2023 e ressaltou “as repercussões, sobretudo para os países emergentes e em desenvolvimento”.

“Eles correm agora o risco de perderem três décadas de progressos rumo à convergência com as economias avançadas e ficarem ainda mais para trás”, declarou a diretora-geral do Kristalina Georgieva. “Mais de 30% dos países emergentes e em desenvolvimento estão superendividados ou próximas dessa situação. Para os países de baixa renda, essa cifra é de 60%. E com o endurecimento das condições financeiras e as depreciações cambiais, o serviço da dívida é um fardo pesado e, para alguns países, insustentável”, destacou.

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