Fuga de preso iniciou guerra que alavancou aumento de homicídios no Rio na quarentena

Rafael Soares

A guerra entre facções que alavancou o aumento nos homicídios no Rio na quarentena foi causada por um preso que aproveitou um benefício que ganhou da Justiça para fugir da cadeia. Evandro Guimarães, o Bigu, recebeu autorização da Vara de Execuções Penais (VEP) para visitar a família no réveillon passado: ele saiu do Instituto Penal Edgar Costa, em Niterói, em 30 de dezembro e não voltou mais. Segundo a Polícia Civil, Bigu é o chefe do bando de 30 criminosos que saiu do Morro de São Carlos, no Centro do Rio, e percorreu 180 quilômetros para invadir as favelas das Malvinas e Nova Holanda, em Macaé, no Norte Fluminense.

As tentativas de invasão alavancaram o aumento dos homicídios no Rio em março — quando começaram a valer as medidas tomadas pelo governo no combate ao coronavírus. No estado todo, registros aumentaram 8% em relação a março de 2019, após mais de um ano de sucessivas quedas no índice. Em Macaé, os casos quase quadruplicaram, passando de seis para 23. Todos os crimes, segundo levantamento feito pela PM, têm relação com a guerra de facções.

A origem dos confrontos remonta a 2017, quando as favelas de Macaé e o São Carlos eram dominadas pelo mesmo chefe: Sandro Luís de Paula Amorim, o Lindinho, hoje preso na Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia. Bigu, antes de ser preso em 2012, era homem de confiança de Lindinho e responsável por levar drogas do São Carlos a Macaé.

Na época, a facção dos dois — a mesma de Antônio Bonfim Lopes, o Nem — estava em crise: a quadrilha havia perdido o controle da Rocinha para um grupo rival. Lindinho, Nem e outros chefes decidiram, então, trocar de facção para juntar forças com criminosos da Maré e da Vila Aliança. No São Carlos, a mudança foi aceita. Em Macaé, não: os subordinados de Lindinho deram um golpe no chefe e permaneceram na antiga facção. Agora fora da cadeia, Bigu tenta retomar os antigos domínios para Lindinho.

Traição e invasores de várias favelas

Criminosos de diversas favelas da capital foram arregimentados por Bigu para participar da invasão. Um deles é Ivan Teixeira Figueira, o Tom da Mineira, identificado como um dos cinco mortos na primeira tentativa do bando de tomar a Favela das Malvinas, em 18 de março.

Antes de ir a Macaé, Tom foi expulso do Morro do Dezoito, em Quintino, Zona Norte do Rio, onde chefiava a venda de drogas. No início de março, a maior facção do estado invadiu a favela, que era dominada conjuntamente por um consórcio de traficantes e milicianos, costurado entre criminosos da Praça Seca, na Zona Oeste, e do São Carlos.

A invasão foi precedida de uma traição. No dia 18, também foi morto Cristian Miller Nunes Dias, de 24 anos. Seu corpo foi encontrado junto aos dos demais invasores quando PMs chegaram ao local. Miller é oriundo das Malvinas, mas fugiu da favela e foi para o São Carlos no ano passado. A 123ª DP (Macaé) já sabe que os invasores seguem na cidade, planejando uma nova investida.

Evandro Guimarães, o Bigu, é condenado a mais de 45 anos de prisão por crimes como roubo, porte ilegal de arma e tráfico de drogas. De acordo com uma das denúncias do Ministério Público contra Bigu, ela era o responsável pelo fornecimento de maconha para as favelas de Macaé. Segundo a investigação, trabalhavam para Bigu “portadores ou mulas que faziam o transporte da droga do Rio de Janeiro para a Macaé”.

Essa não é a primeira vez que Bigu foge da cadeia. Em março de 2007, o traficante ganhou o benefício da Visita Periódica ao Lar (VPL), saiu do presídio para visitar parentes e não voltou. Ele só ficou foragido até 2012, quando foi recapturado.

Para evitar novos tiroteios, a PM montou uma megaoperação para ocupar as favelas de Macaé. Desde o último dia 16, reforçam o policiamento da cidade agentes do 29º BPM (Itaperuna), do 36º BPM (Pádua), do 25° BPM (Cabo Frio) e do Batalhão de Ações com Cães (BAC).