‘Fui tirada do armário pelo LinkedIn’, conta executiva de um banco importante

O Globo
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Ana Branco / Agência O Globo

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Ana Branco / Agência O Globo

"Nasci em Goiânia, em novembro de 1983, em uma família de classe média. Minha mãe sempre se virou — e acho que herdei isso dela. Aos 16, abriu, como sócia, a primeira pista de patinação no gelo da nossa cidade. Anos mais tarde, já formada em Administração, conheceu meu pai, um engenheiro. Os dois ficaram dez anos casados.

Quando eu tinha 7, eles se separaram. Não foi fácil. Meu irmão, dois anos mais velho, ficou com meu pai em Goiânia e eu fui com ela morar no Rio. Teve muita briga, principalmente por pensão. Minha mãe não falava com o meu pai. Então, eu precisava negociar com ele, à distância. Lembro direitinho das nossas difíceis conversas. Eu, geralmente, desligava o telefone na cara dele encerrando uma discussão. Eram tensas.

O nosso começo no Rio foi difícil. Em Goiânia, eu fazia balé, natação e inglês, com um motorista particular que me levava para cima e para baixo. No Rio, não tinha mordomia. Nunca vi a cor de uma mesada, mas aprendi desde cedo que dinheiro traz independência e liberdade para a mulher. Me virava fazendo prendedores para o cabelo e docinhos, que vendia no colégio.

Aos 15, prestei vestibular para Administração e passei para a PUC. Nessa época, minha mãe já estava ganhando direitinho vendendo semijoias para metade do Projac. Eu a ajudava bastante: lembro que fiquei toda feliz quando a Xuxa usou um colar montado por mim. O negócio estava indo tão bem que mudamos o fornecedor de pedras da Saara por outros, que participavam de feiras de Nova York e Paris. A produção feita na nossa mesa de jantar foi transferida para três salas em uma galeria de Ipanema e a marca ganhou um nome: Susye Fleury Semi-Joias.

Eu já tinha juntado dinheiro para comprar meu carro, mas preferi fazer seis meses de intercâmbio na Inglaterra. Na volta, aos 19, me candidatei para a área comercial da Tim. Mas acabei sendo contratada para o setor de roaming internacional, onde comecei a trabalhar em janeiro de 2003. Fiquei lá durante três anos, passei pela Oi e fui contratada para dar consultoria telefônica na Jamaica. Passei dois anos por lá e enfrentei o machismo: tinham dificuldade de aceitar uma mulher em um cargo alto. Na volta, fui contratada para uma empresa no Vale do Silício. Até então, a minha vida era só trabalho — eu estava perto de um breakdown.

Voltei para o Rio e me dei uns meses sabáticos para curtir a vida. De 2011 para 2012, abri meu primeiro negócio, que deu totalmente errado: uma agência de viagens focada em entretenimento. Em 2015, fui para um Halloween em NY. Eu, toda bonitona de Mulher Aranha, fui de uber com uma amiga, mas não achamos o local. Gastamos 60 dólares para ir mais 60 para voltar. Na hora de dividir a conta, ela me falou que não queria o dinheiro e sugeriu que eu a pagasse via Venmo. Eu nunca tinha ouvido falar do app, uma espécie de carteira digital, e fiquei maravilhada. Naquela furada, achei o projeto da minha vida.

Um mês depois, eu já havia decidido que o nome da empresa seria DinDin e registrei domínio. Apesar de ser fã de tecnologia, esse não era o meu universo, mal sabia o que era Fintech e me sentia um peixe fora d’água por não ser da área de tecnologia nem de finanças. Os moldes do aplicativo norte-americano não faziam sentido para o Brasil, e precisei entender melhor o público-alvo. Quatro anos depois de a DinDin entrar no ar, a vendi para o Bradesco. A transição faz parte do novo produto do banco e mudou minha vida. Olhando para trás, lembrei das negociações de pensão com meu pai.

Em setembro, quando anunciei meu novo cargo no LinkedIn, como head da área comercial do produto, recebi uma enxurrada de felicitações. Entre elas, uma linda, assinada pela minha mulher, a Bruna, com quem eu já estava num relacionamento sério há três anos e meio. Sim, fui tirada do armário pelo LinkedIn. Nunca tinha falado que era gay porque não queria que os homens que me cantavam em reuniões achassem que eu não queria nada com eles por causa da minha orientação sexual. Não era uma vida escondida, mas reservada. Agora o mercado financeiro inteiro sabe e acho ótimo. Em abril do ano que vem vamos nos casar e já congelei meus óvulos: quero engravidar.”