Funai aponta visita irregular de senador pró-garimpo a terra yanomami, e MPF cobra explicação

**Arquivo**BRASÍLIA, DF, 09.08.2019 - O senador Chico Rodrigues. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
**Arquivo**BRASÍLIA, DF, 09.08.2019 - O senador Chico Rodrigues. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) apontou irregularidades na visita do senador Chico Rodrigues (PSB-RR) à Terra Indígena Yanomami, realizada nesta segunda-feira (20).

A fundação comunicou o Ministério dos Povos Indígenas sobre as circunstâncias da visita, realizada em desacordo com as regras vigentes na situação de emergência -declarada há um mês pelo governo Lula (PT) em razão da crise de saúde no território- e contra manifestações de organizações indígenas, segundo a Funai.

O MPF (Ministério Público Federal) em Roraima cobrou explicações sobre a presença do congressista na terra indígena.

A Procuradoria expediu ofícios, também nesta segunda, ao gabinete do senador, à Funai e ao COE (Centro de Operação de Emergências), um colegiado constituído para comandar as ações de emergência voltadas aos yanomamis.

A entrada do senador no território ocorreu sem que houvesse um acordo prévio com o COE e sem aval da Funai, segundo fontes envolvidas nas ações de emergência.

Rodrigues é um defensor do garimpo em terras indígenas. No último dia 15, ele foi eleito presidente da comissão temporária do Senado sobre a situação dos yanomamis.

A indicação rendeu protestos de organizações indígenas, como o CIR (Conselho Indígena de Roraima), em razão do histórico do parlamentar de defesa de garimpos ilegais.

O senador afirmou defender proteção tanto aos indígenas como aos garimpeiros invasores.

Ele fez um sobrevoo na terra indígena e esteve em Surucucu, na unidade de saúde que concentra os atendimentos aos indígenas da região, conforme informação da assessoria do parlamentar. A entrada do senador na área ocorreu por meio de uma aeronave do Exército, segundo a assessoria.

"Ele não precisa de autorização da Funai nem do COE. Estava com o Exército", disse a assessoria à reportagem. "Houve um sobrevoo por região de garimpo, e depois ele foi a Surucucu, onde desceram. A viagem foi para que o senador tivesse um diagnóstico do problema, de forma a orientar os trabalhos da comissão."

Segundo a Funai, a entrada do parlamentar no território não seguiu o preconizado em portaria conjunta do órgão e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do Ministério da Saúde.

A portaria suspendeu novas autorizações para entrada no território, de forma a priorizar o acesso de profissionais de saúde. Outras autorizações precisam passar por avaliação de Funai e COE.

A visita do senador não foi feita em conjunto com outros parlamentares da comissão temporária constituída pelo Senado. Não havia intérpretes, nem servidores da Funai e da Sesai na comitiva, segundo integrantes do governo que acompanharam os desdobramentos da visita. Em Surucucu, houve pedidos para que o parlamentar se retirasse, em razão de seu histórico a favor do garimpo.

Senadores que integram a comissão já haviam pedido que Rodrigues respeitasse a necessidade de aprovação de um plano de trabalho para agendamento de visitas na terra indígena. A solicitação foi feita pelos senadores Eliziane Gama (PSD-MA), vice-presidente da comissão, e Humberto Costa (PT-PE).

Defensor de garimpos em terras indígenas, Chico Rodrigues já foi vice-líder do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Senado. Quando ocupava o posto, foi flagrado pela PF (Polícia Federal) com dinheiro na cueca. A polícia apontou suspeita de desvio de recursos destinados ao enfrentamento da pandemia.

O parlamentar nega as acusações. Disse ter sido vítima de "escárnio" e "veleidades". O senador pediu licença para interesses pessoais, por 121 dias, e retornou ao exercício do mandato em fevereiro de 2021.

O avanço do garimpo ilegal na terra yanomami, aceito e estimulado pelo governo Bolsonaro, provocou uma crise humanitária, sanitária e de saúde no território. Mais de 20 mil garimpeiros invadiram o terra indígena e chegaram a regiões antes intocadas, como Auaris, quase na fronteira com a Venezuela.

O garimpo e a desassistência em saúde indígena no governo Bolsonaro levaram a uma explosão de casos de malária, desnutrição grave, infecções respiratórias e outras doenças associadas à fome, como diarreia.

Além das ações de emergência em saúde, o governo Lula deu início à Operação Libertação, para destruição de aeronaves e maquinários usados pelo garimpo e para tentativa de retirada dos milhares de garimpeiros. A operação está prevista para durar de seis meses a um ano.