Funcionário revela protótipo de desenvolvimento do primeiro iPhone

Rafael Rodrigues da Silva

Em 9 de janeiro de 2007, Steve Jobs e a Apple mudavam o mundo ao anunciar o primeiro iPhone. À época, o aparelho não foi uma surpresa apenas para o público ou para a imprensa, mas até mesmo para muitos funcionários da própria Apple. Isso porque o aparelho foi desenvolvido em segredo durante dois anos e meio, e em todo esse tempo o dispositivo era chamado apenas pelos codinomes “M68” ou “Purple 2” pelos funcionários — e mesmo os engenheiros responsáveis pelo projeto só tiveram acesso ao design final do produto durante o anúncio oficial ao público.

Para manter o aparelho em segredo durante todo o processo de desenvolvimento, a Apple criou um protótipo que consistia de uma enorme placa de circuito com todas as ferramentas do iPhone espalhadas sobre ela. Essa placa foi um segredo durante quase quinze anos, mas foi finalmente tornada pública este mês, quando uma fonte anônima de dentro da empresa permitiu que um jornalista do The Verge tivesse acesso a uma das placas de desenvolvimento originais do primeiro iPhone — um verdadeiro tesouro da história da telefonia móvel.

Apesar de ser uma placa de smartphone, o protótipo se parece muito mais com a placa-mãe de um computador, tendo mais ou menos o mesmo tamanho das placas usadas em desktops há cerca de dez anos — ainda que alguns componentes sejam bem diferentes.

Placa de protótipo do primeiro iPhone (Imagem: Tom Warren/The Verge; Legendas: Rafael Rodrigues/Canaltech)

Essa placa, chamada na empresa de “amostra de EVT” (Engineering Validation Test, ou Teste de Validação da Engenharia, em português), era usada principalmente pelos engenheiros que trabalhavam no desenvolvimento de softwares (basicamente a primeiro versão do iOS) e dos circuitos de telefonia do aparelho. Esses engenheiros trabalharam com essas placas durante todo o processo (alguns deles tinham acesso somente a versões dessa placa que não possuíam a tela LCD), e só foram descobrir o formato final do iPhone junto com a imprensa e o público em geral.

Outra característica que mostra que essa é uma placa feita exclusiva para a engenharia é a cor dela, já que a Apple reserva a cor vermelha para protótipos da engenharia, enquanto as unidades para teste de linhas de produção costumam usar as cores azul ou verde.

A maior diferença da EVT para uma placa de computador é a falta de uma ventoinha em cima do processador ou das memórias, mas todo o restante é bem parecido com uma placa-mãe de desktops da época. É possível notar a presença de um conector serial e do conector Apple de 30 pinos, ambos usados para testar acessórios do iPhone. Há também uma porta LAN para conectar o protótipo à internet, e duas entradas Mini-USB que eram usadas pelos engenheiros para acessar as configurações de processador e do sinal de telefonia do aparelho — e muitos desses engenheiros acessavam essas funções para codificar os chips do aparelho sem o auxílio da tela.

Essas USBs eram provavelmente usadas pelos engenheiros para fazer o port do Darwin (um sistema operacional baseado em Unix que possui os compenentes mais básicos usados pelo macOS, iOS, watchOS, tvOS e audioOS) para o processador do iPhone. Esses engenheiros são conhecidos dentro da Apple como “engenheiros do núcleo OS”, e são os responsáveis pela programação de baixo nível dos sistemas operacionais da Apple, responsáveis também por definir os drivers dos dispositivos, arquivos de sistemas, o kernel e a arquitetura utilizado pelo processador, garantindo que toda a parte de conexão entre hardwares da máquina funcione sem problemas.

Protótipo do primeiro iPhone sendo ligado (Imagem: Tom Warren/The Verge)

O restante da placa já é bem diferente do que vemos em um PC e se aproxima mais dos componentes encontrados em um telefone, como o slot para cartão SIM e antenas para conexão Wi-Fi e Bluetooth. O curioso é que, apesar de a placa em si ser bem diferente do resultado final, o circuito responsável pelo processamento dos sinais de internet e telefonia é idêntico ao usado no produto final, e inclui chips da Intel, CSR, Marvell e Skyworks, mostrando o quão complexa foi a arquitetura de sinais usada pela Apple no primeiro iPhone.

Logo ao lado do circuito de processamento dos sinais de telefonia é possível ver um conector RJ11, do tipo usado para a conexão de linhas de telefone fixas. Essa entrada era usada pelos engenheiros para conectar um aparelho de telefone tradicional à placa e fazer os testes de discagem e recebimento de ligações.

No centro da placa está a verdadeira “alma” do iPhone original: o primeiro processador mobile da Apple. Identificado como Samsung K4X1G153PC, o processador é uma mistura de um cluster de memórias da Samsung combinado a um processador de 620 MHz da ARM (o ARM1176JZF), que é a peça responsável por rodar o sistema operacional do iPhone. Esse tipo de armazenamento de circuito era conhecido como PoP (package on package, ou “pacote sobre pacote” em tradução livre), e consistia em colocar a CPU na parte de baixo e a memória na parte de cima do bloco. Esse circuito era utilizado em conjunto com uma memória NAND de 4 GB da Samsung, que era onde a primeira versão do IOS ficava armazenada. A vantagem do módulo NAND durante o desenvolvimento do iPhone é que ele é facilmente removível da placa, permitindo que os engenheiros testassem diferentes versões do sistema operacional apenas trocando de chip.

(Imagem: Tom Warren/The Verge)

Nessa placa em particular, há a existência de uma tela LCD, mas a tela usada aqui é, literalmente, apenas a tela, e o famoso botão “home” do iPhone está montado de forma separada, logo à esquerda dela. Enquanto isso, os botões para ligar o aparelho e controlar o volume estão mais longe, na parte mais à esquerda da placa. Ao ligar o protótipo, os engenheiros da Apple seriam levados a uma tela similar a um prompt de comando, onde poderiam testar as mudanças feitas no kernel. A fonte ainda explica que é possível conectar o protótipo ao iTunes utilizando o conector de 30 pinos do aparelho, e o programa base dos dispositivos Apple iria reconhecer essa placa como um iPhone pronto para ser restaurado.

Mas além do conector de 30 pinos, a placa ainda tinha outros conectores que eram usados pelos engenheiros em durante o processo de programação. Por exemplo, diversos conectores JTAG eram usados para fazer o debug da placa, proporcionando locais onde fosse fácil fazer medições de voltagem e dos sinais transmitidos pelo aparelho, permitindo descobrir se qualquer erro que poderia acontecer durante o teste não era algo causado por alguma falha no hardware. E, para o caso daqueles engenheiros que tinham acesso às versões do protótipo sem a tela LCD, a placa também possuía conectores de vídeo componente e RCA, que permitiam conectar o protótipo a um monitor externo para fazer as programações necessárias.

Também era possível testar o funcionamento de fones de ouvido com os conectores jack de 3,5mm presentes na lateral do aparelho, e o protótipo possuía locais reservados até mesmo para o teste da câmera, do sensor de proximidade e da bateria. Mas, caso o engenheiro responsável não estivesse testando a bateria, era possível conectar uma fonte DC no topo da placa para energizar todo o circuito.

(Imagem: Tom Warren/The Verge)

Ainda que essas placas tenham sido uma parte importante da história da Apple, já faz tempo que a empresa abandonou esse tipo de protótipo. A partir do iPhone 4, a Maçã passou a usar placas de protótipos menores, e ultimamente os testes dos iPhones mais recentes utilizam um aparelho mais parecido com os antigos celulares “tijolões”, que permite efetuar testes em algo mais parecido com um smartphone ao mesmo tempo que mantém em segredo o design final do dispositivo.

Apesar disso, esse protótipo mostra bem o quanto a Apple estava preocupada em garantir que qualquer informação sobre seu primeiro smartphone vazasse antes do tempo, escondendo até mesmo de seus engenheiros o produto no qual eles estavam trabalhando. E finalmente ter acesso a essa parte da história da empresa é algo que, durante mais de uma década, parecia impossível.

Fonte: Canaltech

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