Funcionários administrativos da USP questionam exigência de retorno ao trabalho presencial

PATRÍCIA PASQUINI
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Parte dos 13.700 funcionários de setores técnico-administrativos da USP terão de retomar as atividades presenciais a partir de 6 de novembro. A determinação não inclui os docentes, que só retornarão aos campi em 2021. Há duas semanas, a reitoria decidiu mudar o plano de retorno gradual das atividades presenciais, que havia sido apresentado no final de agosto. Segundo o Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), que representa a categoria, isso foi feito sem diálogo. No dia 5 de novembro, às 14h, os servidores discutirão em assembleia virtual a possibilidade de entrarem em greve sanitária -quando o motivo é a existência de um risco à saúde ou segurança do trabalhador presente no ambiente de trabalho- a partir do próximo dia 9. O novo plano foi elaborado por seis dirigentes da USP escolhidos pela reitoria. "Em nenhum momento a reitoria aceitou receber o sindicato e não há representação de funcionários no grupo [de dirigentes]. Nós solicitamos reunião várias vezes e fomos ignorados. Não houve nem resposta à nossa solicitação", afirma o diretor do Sintusp, Reinaldo Souza. Ao longo da pandemia do novo coronavírus, na maior parte dos setores da USP foi adotado o trabalho remoto. As exceções ficam por conta dos serviços essenciais, como nos hospitais universitários e alguns laboratórios de pesquisa, por exemplo. Na versão anterior do plano, o retorno se dava de maneira gradual, não era compulsório -dependia de acordo entre a chefia e o funcionário-, e tinha como uma das diretrizes a manutenção do teletrabalho, quando possível. Segundo a categoria, o plano tem problemas graves e importantes. "Não há nenhuma justificativa no retorno presencial a partir do elemento da necessidade do trabalho, porque está sendo cumprido remotamente. Como as aulas não vão voltar, a demanda de atendimento é baixa", diz Souza. Outro questionamento é a categorização que a reitoria da USP fez de fatores de risco, em contradição com o que tem sido disseminado pela área médica. Para a instituição, idosos acima de 60 anos não são considerados de risco, assim como doentes crônicos. Pelo documento, hipertensos, diabéticos e pneumopatas só serão preservados se a doença for considerada descompensada. Também poderão continuar em home office os imunodeprimidos e as grávidas, se a gestação for de risco. "Se os grupos de risco fossem preservados e o retorno pudesse ser discutido nas unidades a partir das necessidades reais do trabalho, daria para debater sem precisar de medidas como a greve sanitária", diz Souza. "Da maneira como o plano foi elaborado, sem discussão prévia com o sindicato, sem preservar idosos, grávidas e doentes crônicos e tornando o retorno compulsório, o sindicato não viu alternativa a não ser a de defender ou indicar para a categoria a necessidade de preservar a vida." Um levantamento extraoficial elaborado pelo Sintusp aponta que 13 trabalhadores da USP, entre efetivos e terceirizados, já morreram em decorrência da Covid-19. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, São Paulo registrou até esta terça-feira (3) 39.364 mortes e 1.118.544 casos confirmados do novo coronavírus. Dos óbitos, 76,4% estão concentrados em pacientes com 60 anos ou mais. As cardiopatias, o diabetes e as pneumopatias estão entre os principais fatores de risco associados à mortalidade por Covid-19 - 23.579 (59,9%), 17.005 (43,2%) e 3.267 (8,3%), respectivamente. A Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas emitiu uma nota contra a medida da reitoria da USP. De acordo com o texto, o caráter compulsório do retorno presencial proposto irá expor os funcionários a um risco desnecessário, uma vez que o trabalho vem sendo desempenhado com eficiência. Outro lado A USP afirma que está previsto o retorno de 20% dos servidores técnicos e administrativos em cinco dos oito campi, que já estão com cenário epidemiológico mais favorável. "A despeito das aulas de graduação e de pós-graduação continuarem a ser ministradas de forma remota, as atividades de pesquisa e as administrativas da Universidade não estão suspensas", diz parte do texto. A reportagem questionou a instituição sobre a volta de idosos com 60 anos ou mais e grávidas, além de doentes crônicos, como hipertensos e diabéticos, cujo home office só será mantido se a doença estiver comprovadamente descompensada. Sobre esses grupos, não houve resposta.