Funcionários do 'cassino de Gabigol' tentaram barrar fechamento usando nome de autoridades

ROGÉRIO PAGNAN
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando os policiais invadiram o cassino de luxo na zona sul de São Paulo onde estava o atacante Gabigol, parte deles acreditava que iria acabar com a aglomeração de uma festa LGBT, conforme denúncia recebida por um dos integrantes da força-tarefa de combate à Covid-19. Descobriram ali um pesado esquema de jogos de azar, que movimenta milhões de reais, e que o funcionamento do cassino clandestino era conhecido por policiais e políticos, citados nominalmente por funcionários para tentar intimidar o grupo que comandava a operação e evitar o fechamento da casa. São autoridades que, desconfiam os próprios policiais, podem estar na "folha de pagamento" da casa para ajudar a manter o esquema funcionando, mesmo sendo ilegal. Entre elas estaria gente graúda que, ainda conforme esses policiais, pode até comprometer o futuro de operações semelhantes. Todas essas informações estão sendo analisadas pela Polícia Civil. Parte dos nomes pode ter sido usada indevidamente. As equipes de investigação sabem disso, mas apostam na quebra de sigilo das contas bancárias, descobertas na operação, para apurar uma eventual lista de propinas. Uma das primeiras medidas tomadas pela cúpula da Segurança Pública, segundo a Folha apurou, foi afastar alguns policiais que, em tese, deveriam ter tomado providências contra o cassino e não tomaram. Por ser algo tão evidente, avaliam, é pouco provável que esses policiais desconhecessem tal situação. As equipes policiais que atuaram no "cassino do Gabigol" também descobriram que o atacante do Flamengo não era o frequentador mais famoso daquela e de outras casas, mas, sim, o jogador Gil. Não se trata do zagueiro craque do Corinthians. Gil é um dos apelidos de Reginaldo Moraes de Campos, 47, apontado como o verdadeiro dono de alguns dos principais cassinos na capital e na Grande São Paulo, todos clandestinos e que movimentam milhões de reais ao mês. O empresário seria uma espécie de "rei dos cassinos" de São Paulo, que emprega dezenas de funcionários, incluindo alguns vindos do Paraguai e Uruguai. Entre os clientes estão empresários e outros milionários dispostos a gastar muito dinheiro para jogar, mesmo correndo riscos. Campos só não foi levado ao distrito naquela madrugada porque, com sorte de bom jogador, não estava quando os policiais chegaram em ambos os endereços. Além da unidade da rua Alvorada, no Itaim Bibi, onde estavam o atacante do Flamengo e o funkeiro MC Gui, o empresário também seria dono de ao menos mais dois endereços, segundo policiais ouvidos. Um deles ficava na rua João Cachoeira, também no Itaim Bibi, e foi fechado no mesmo dia 14 de março, horas depois da ação que envolveu o jogador e o funkeiro. O local não seria tão suntuoso quanto ao primeiro, mas, era onde trabalhava a maior quantidade de estrangeiros. Uma terceira casa atribuída ao empresário funcionava na região de Alphavile, apontada como uma das mais luxuosas, que só não foi fechada porque as atividades foram suspensas logo após as batidas realizadas em São Paulo. Policiais civis chegaram a fazer campana em frente à unidade, mas ele não apareceu por lá nem enviou prepostos, como aconteceu nas outras duas casas. Isso não quer dizer que tenha ficado parado. Segundo pessoas ligadas ao meio ouvidas pela Folha, Campos teria aberto outra casa em São Paulo, no dia seguinte às batidas no Itaim Bibi, para atender os clientes dispostos a jogar, mesmo sob o risco de pararem em uma delegacia. Campos é um velho conhecido da polícia. Desde o ano 2000 foi flagrado várias vezes explorando jogos ilegais, na capital e no interior, e já teve outras passagens por estelionato, emissão de cheques frios, uso de documentos falsos e até desrespeito à lei do estatuto do idoso. Chegou a ser condenado, mas as penas se limitaram a pagamento de multas, trabalhos comunitários e regime semiaberto. Atualmente, não há nenhuma ordem de prisão contra ele. Policiais ouvidos afirmam que Campos também será investigado sobre o funcionamento desses cassinos na capital e Grande São Paulo. Além do jogo de azar e da aglomeração, os policiais acreditam que pode haver associação criminosa e lavagem de dinheiro, crimes muito mais graves. A reportagem tentou contato com Campos, mas não conseguiu. Além dos telefones fixos atribuídos a ele, a reportagem também ligou para cinco números de celulares diferentes, e ainda enviou mensagens para dois endereços de email. Até o final da tarde desta quinta (25), ainda não teve resposta. A Folha apurou que o empresário chegou a consultar advogados da capital na semana passada, afirmando saber que a polícia estaria atrás dele. Citou especificamente o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, do Dope ( Departamento de Operações Policiais Estratégicas). Nico foi um dos policiais que participaram do fechamento de cassinos na capital. De acordo com integrantes da cúpula da Segurança Pública de São Paulo, não há uma grande quantidade de cassinos na capital, até porque, segundo eles, para montar uma casa semelhante àquela em que os famosos foram encontrados seria preciso investir algo entre R$ 8 milhões e R$ 30 milhões. Um dos itens mais caros dessas casas são as mesas especiais (que podem custar centenas de milhares de reais cada uma delas) e o sistema de monitoramento de câmeras de última geração, além das "taxas" da proteção. Não é, enfim, para qualquer um. O mais comum, segundo policiais ouvidos, são máquinas caça-níquel e vídeo bingos. Boa parte desse mercado é dominado por policiais civis e militares --ou seja, quem deveria combatê-lo.