Fundamental para proteção contra Ômicron, vacinação de reforço da Covid-19 caminha com dificuldade

No princípio era euforia. A essa altura do ano, em 2021, filas gigantescas apinhadas de pessoas ansiosas para receber as primeiras vacinas contra a Covid-19 eram rotina nos postos de saúde. Algumas variantes e — é claro — doses depois, há quem tenha perdido o entusiasmo para procurar as aplicações no posto de saúde e esteja com a carteirinha em atraso, carecendo de novas doses. Prova disso é que o Ministério da Saúde estima que cerca de 68 milhões de brasileiros que deveriam ter recebido a primeira dose de reforço não apareceram nos postos de saúde, segundo dados de janeiro deste ano. O atraso é somado às outras 30 milhões não apareceram para receber a segunda dose de reforço.

Há quem justifique a ausência por preguiça, falta de tempo, medo de agulha e, mais grave, por não achar que é mais necessário se submeter à vacinação por já ter se protegido contra a doença com duas aplicações. Há ainda quem justifique por medo de que efeitos adversos sentidos nas primeiras doses (como cansaço e dores no corpo) se repitam.

Os médicos ainda enumeram mais razões: fake news sobre os imunizantes e mudança na percepção do risco da doença, que dão a falsa sensação de que ela deixou de ser potente. Ou seja: como a Covid-19 está em patamares de controle, alguns acreditam que “tudo bem” deixar para lá as aplicações extras.

— Tomar a dose de reforço é importante para todo mundo. Quem não tomou todas as doses tem uma redução de anticorpos, fazendo com que o organismo fique vulnerável às infecções mais graves (da Covid-19), hospitalizações e morte pela doença — explica Leonardo Weissmann, médico infectologista do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo: — Além disso, a vacina dá uma proteção individual e coletiva, aquela que chamamos de imunidade de rebanho. Quanto mais pessoas completamente vacinadas, menor será a circulação do vírus e menor a chance de que uma nova variante surja.

Há ainda outro fator importante para correr atrás do tempo perdido e buscar as doses de reforço já: a aplicação extra, ainda que com a vacina monovalente (aquela que estamos usando desde o começo da pandemia), que oferece uma proteção considerável contra a variante Ômicron e suas sublinhagens, responsáveis pela maioria dos casos no país desde 2022.

É o que mostra um estudo brasileiro coordenado por especialistas da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). Na análise, os especialistas identificaram que a nova cepa — em sua versão circulante em março de 2022 — não era capaz de “burlar” o efeito da vacinação, quando era aplicada a dose de reforço. Sem essa forcinha extra (ou seja, em indivíduos sem vacina ou com apenas duas doses) os anticorpos não eram capazes de neutralizar completamente a mutação.

O geneticista Salmo Raskin, colunista do jornal o Globo e à frente do laboratório Genetika, de Curitiba, explica o que ocorre dentro do organismo para que a terceira dose seja efetivamente considerada um “trunfo” na imunização nesta etapa da pandemia.

— A terceira dose recupera a quantidade de anticorpos, cujo volume diminui após a segunda dose de vacinação. O mais importante é que essa aplicação aumenta a capacidade de reconhecimento dos anticorpos (deixando eles mais potentes) e eleva a produção de células T e B (as chamadas células assassinas do nosso organismo). Deste modo, o corpo alcança melhor as variantes com muitas mutações, caso da Ômicron e suas sublinhagens — explica.

Resistência causada por ‘fadiga’ e fake news

A resistência em buscar a terceira dose não se trata, porém, de uma exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, já existe o termo “booster fatigue” (“fadiga do reforço”), que nada mais é do que a hesitação da população em buscar as doses por falta de conhecimento de sua necessidade ou basicamente cansaço de continuar na lógica pandêmica de viver.

Professora do departamento de doenças infecciosas do curso de medicina da Universidade de Michigan, nos EUA, Preeti Malani apontou, em publicação da Associação Médica Americana, que apenas uma fração de 15,8% dos americanos aceitou tomar doses de reforço com imunizantes adaptados — essas vacinas atualizadas estão previstas para começar a ser usadas no Brasil hoje.

“Aqueles primeiros dias em que as pessoas faziam fila e dirigiam para diferentes estados (para buscar a vacina) se foram, e a demanda não é alta. Agora existe o ‘não sei se realmente preciso disso’”, afirmou na publicação.

O que a doutora Preeti sugere para ajudar a controlar o problema nos EUA é uma estratégia já em curso no Brasil para a imunização de outras doenças: a livre demanda de uso para as vacinas. Precisou? Haverá um posto pronto e, com doses, sem necessidade de agendamento para receber as agulhadas. No Brasil, para aumentar a adesão, a ideia será ainda apostar em campanhas de divulgação públicas, com propagandas defendendo a imunização e convidando as pessoas a irem aos postos, informou anteriormente ao EXTRA o novo chefe do Programa Nacional de Imunização (PNI), Éder Gatti.