Fundos de investimentos começam a publicar pegada de carbono de suas carteiras

O inventário de carbono das empresas começa a ser cada vez mais cobrado por investidores. No Brasil, muitas gestoras de investimentos já procuram medir o impacto ambiental de suas decisões de alocação de recursos. Mas a divulgação dessas informações só começa agora a vir a público, mas ainda timidamente.

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Duas principais casas estão à frente do movimento, a FAMA, com aproximadamente R$ 2,5 bilhões sob gestão em seu fundo de ações Fama FIC FIA e a versão de previdência privada, e a Trígono, com R$ 2,3 bilhões em sete fundos, todos de ações e foco noinvestimento em empresas menores listadas em bolsa.

Para Claudio de Moraes, professor de Macroeconomia e Finanças do Coppead/UFRJ, é um movimento que vem ganhando força, visto que o mercado financeiro e os investidores compreenderam que as empresas são responsáveis pelo meio ambiente e a sociedade e isso deve também ser incorporado nas análises.

- É uma tentativa de fazer o capitalismo funcionar melhor e lidar com a grave ameaça representada pelas mudanças climáticas - aponta. - Uma vez que os consumidores estão mais exigentes, atender às práticas de ESG [ambiental, social e de governança corporativa] tornam as empresas mais responsáveis e preparadas para serem mais eficientes e perenes. Isso tem sido visto como um diferencial para o investidor - acrescenta o acadêmico.

O mais novo documento da praça é o da Trígono, que acaba de divulgar seu segundo relatório, com dados de 2021 de emissão de dióxido de carbono (CO²) das empresas que compõem seus sete fundos de investimentos, feito em parceria com a consultoria especializada ATA Sustentabilidade. São avaliados os fundos Flagship FIA, Verbier FIA, Delphos FIA, Horizon FIA, Power FIA, 70 Prev FIM e Icatu 100 FIFE, no final de 2021.

Nesta segunda edição, diz Werner Roger, gestor e cofundador da casa, a qualidade dos dados aumentou. Isso se traduz em uma pontuação que vai de 1 (o mais alto grau de certeza na qualidade dos dados) a 4 (o menor grau). Este ano, essa pontuação baixou de 2,28 para 1,84, seguindo a metodologia.

- A melhora pode ser explicada por dois motivos: eu selecionei melhor as empresas e também porque as próprias empresas melhoraram, adotaram melhores práticas. Nosso objetivo é estar o mais próximo do 1 [ponto] possível - diz Roger.

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O documento traz que a Trígono contabilizou um aumento das emissões em relação a 2020, passando de 48.828 toneladas equivalentes de dióxido de carbono (tCO²e) para 195.188 tCO²e no ano passado.

Segundo Roger, isto se deu basicamente em função do aumento dos ativos sob gestão e, desta forma, o aumento de participação no capital total das empresas investigadas, passando de aproximadamente R$ 500 milhões para mais de R$ 2 bilhões em 12 meses nos últimos dois anos. Ao analisar a pegada de carbono por cada R$ 1 milhão investido, a gestora saiu de 105 tCO2e, em 2020, para 84,77 CO2e ,em 2021.

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Roger conta que as empresas, quando questionadas sobre seu inventário de carbono e se têm alguma política de compensação ou mitigação de poluição, se sentem pressionadas a fazer algo:

- Acreditamos que é importante as empresas publicarem relatórios sobre o tema, como o de sustentabilidade, para mostrar à sociedade o que estão fazendo. Quando começam a medir, conseguem ver se estão ruins e desenhar ações internas para melhorar o resultado a cada ano. Eu também, ao medir a pegada de carbono do portfólio, começo a me cobrar também para ter um desempenho melhor no ano que vem.