Funerária de NYC aceita vítimas de coronavírus quando outras estão lotadas

Por Diane DESOBEAU, Thomas URBAIN
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Alisha Narvaez, gerente de funerária, empurra maca com o corpo de vítima do coronavírus no Harlem, Nova York

Quatro mulheres que dirigem uma funerária do Harlem, em Nova York, se negam a rejeitar um enterro para vítimas de coronavírus, embora estejam sobrecarregadas.

O número de mortes provocadas pela COVID-19 registrou uma queda expressiva em Nova York desde o recorde de 799 mortes em 24 horas em 9 de abril, mas o telefone da International Funeral & Cremation Services não para de tocar.

"Os parentes estão desesperados, eles dizem 'vão enviar meu ente querido para uma fossa coletiva, os hospitais não podem mais guardar o cadáver. Podem ajudar? Podem ajudar?'", conta a diretora de funerais Nicole Warring, uma das quatro mulheres à frente da empresa.

"E é muito duro responder 'liga de volta em dois dias'. Parte meu coração", afirmou à AFP.

Desde que Nova York se tornou o epicentro da pandemia de coronavírus nos Estados Unidos, a empresa está inundada de trabalho.

Para muitas famílias do estado de Nova York, onde se calcula que mais de 20.000 pessoas morreram vítimas do coronavírus, encontrar uma funerária que aceite o cadáver de um parente é um desafio.

"Tínhamos pessoas de todos os distritos ligando porque muitas funerárias estão completamente lotadas. Elas nem atendem as ligações", disse Warring.

A gerente Alisha Narvaez odeia aumentar a dor de uma família em luto e, por isso, aceita todos os corpos, mesmo que signifique trabalho dia e noite para os funcionários.

"É frustrante não poder atendê-los como eu gostaria. O mais duro é rejeitar as famílias, algo que tento não fazer", afirma Narvaez.

Na semana passada, a AFP observou quando dois corpos de vítimas da COVID-19 chegaram à funerária em uma caminhonete.

Muitas vezes, elas recolhem os corpos dos caminhões brancos refrigerados estacionados em frente aos hospitais, que servem como necrotérios temporários.

"Em alguns caminhões, os corpos estão no chão", disse Warring. "Não quero pisar em ninguém. É uma quantidade enorme de corpos e é esmagador".

Narvaez e a funcionária Lily Sage Weinrieb retiraram os corpos em sacos de plástico com a legenda "COVID-19" da caminhonete e os levaram para a funerária em uma maca.

Dentro, a equipe prepara os corpos, conclui os trâmites administrativos e organiza velórios em um quarto especial, onde são permitidas apenas 10 pessoas devido às restrições de distanciamento social.

Os corpos são cremados em outros locais. Quando é um caso de COVID-19, os familiares raramente acompanham o processo.

"As pessoas estão em quarentena e não comparecem à cerimônia. Desta maneira, somos apenas nós, o diretor com a pessoa querida no cemitério. Gravamos e enviamos. É duro", disse Narvaez.

Esta mulher, de 30 anos trabalha todos os dias da semana durante a crise e não sabe quando vai conseguir descansar.

"Estamos atrasados. Ainda temos uns dois meses caóticos pela frente", explica. "Espero que as coisas acalmem um pouco, porque realmente preciso de um descanso. Preciso de férias depois disso".