Funeral de jornalista da al-Jazeera tem choques em Jerusalém, e um soldado israelense é morto na Cisjordânia

A procissão funerária da repórter da al-Jazeera Shireen Abu Akleh, morta por um disparo na cabeça quando cobria uma operação militar israelense na Cisjordânia na quarta-feira, foi marcada por choques violentos entre os participantes e forças policiais, que lançaram nesta sexta-feira granadas de efeito moral para dispersar uma multidão em Sheikh Jarrah. No mesmo dia, um soldado israelense morreu e 13 palestinos ficaram ferido numa nova operação na Cisjordânia.

Centenas de pessoas se reuniram do lado de fora do hospital onde a procissão teve início, com muitos deles empunhando bandeiras palestinas e gritando o que a polícia descreveu como "incitações nacionalistas". Ao menos dez pessoas precisaram receber assistência médica.

As forças israelenses invadiram o recinto do hospital San José, em Jerusalém Oriental, setor palestino da cidade ocupada e anexada por Israel. Os agentes afirmaram que pedras foram atiradas contra eles, que foram "forçados a usar meios de dispersão".

"Se não pararem com esses cantos nacionalistas, vamos ter que dispersar vocês usando a força e impediremos a realização do funeral", declarou por um megafone um policial israelense, dirigindo-se à multidão, segundo um vídeo divulgado pela polícia.

No Twitter, Hanane Achraoui, ex-responsável da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), denunciou a ação dos policiais: "Forças especiais israelenses brutais estão atacando o cortejo fúnebre de Shireen Abu Akleh saindo do Hospital São José".

Na sequência, o caixão de Shireen Abu Akleh foi finalmente transportado para a Cidade Velha, onde uma missa foi celebrada em uma igreja, antes do enterro em um cemitério próximo.

O anúncio da morte da jornalista provocou grande comoção entre os palestinos e no mundo árabe, que acompanharam por mais de duas décadas suas reportagens na al-Jazeera. Protestos foram registrados em vários territórios palestinos e uma rua de Ramallah recebeu o nome dela.

No mesmo dia do funeral de Abu Akleh, um soldado israelense morreu e 13 palestinos ficaram feridos em uma nova operação das forças da Israel na Cisjordânia.

A operação ocorreu em Jenin, o mesmo local onde a jornalista foi morta na quarta. De acordo com o Ministério da Saúde Palestino, entre os 13 feridos, um foi baleado no estômago. No Twitter, o Exército israelense disse que palestinos atiraram quando suas tropas chegaram ao local para prender combatentes suspeitos.

O primeiro-ministro israelense, Naftali Bennett, informou que um soldado foi morto na operação. "Hoje [sexta-feira], perdemos um verdadeiro herói, um bravo lutador que se colocou em perigo pela segurança de Israel", afirmou em comunicado.

Enquanto isso, o Exército israelense informou que, após uma investigação preliminar, não foi capaz de determinar quem atirou em Abu Akleh — os palestinos rejeitam uma investigação por parte de Israel. No dia da morte da jornalista, Israel chegou a acusar combatentes palestinos, mas recuou logo depois, afirmando que não era possível determinar quem era o responsável.

O comunicado dos militares diz que há duas possibilidades sobre a origem do tiro. A primeira é que decorreu das "centenas de balas que foram disparadas de diferentes lugares por palestinos armados [contra soldados israelenses]". A afirmação, porém, contrasta com jornalistas presentes no local quando Abu Akleh foi morta: segundo eles, não havia combatentes palestinos armados no local, nem confrontos.

"A outra opção é que, durante o tiroteio, um dos soldados tenha disparado várias balas de um veículo contra um terrorista que tinha como alvo o seu veículo", acrescenta o comunicado do Exército.

Tanto a al-Jazeera, como autoridas palestinas e o Catar — onde é a sede da al-Jazeera — acusaram Israel pela morte, enquanto os EUA pediram uma investigação "transparente", e a ONU e a União Europeia, "independente".

Os israelenses pediram às autoridades palestinas a bala que matou a jornalista para determinar a origem do tiro, mas as autoridades palestinas rejeitaram o pedido, assim como se recusam a realizar uma investigação conjunta com Israel. — inclusive sob supervisão internacional em um laboratório israelense.

— Consideramos as autoridades de ocupação israelenses plenamente responsáveis pela morte — declarou Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina na quinta-feira.

Ele explicou que rejeita uma investigação conjunta porque "as autoridades israelenses cometeram o crime e não confiamos nelas", acrescentado que deseja enviar o caso ao Tribunal Penal Internacional.

A bala que matou Abu Akleh se tornou um foco da investigação. Segundo autoridades israelense ouvidas pelo New York Times, tanto soldados de Israel como combatentes palestinos no suposto confronto estariam utilizando fuzis M16, que usam o mesmo modelo de munição. Apesar disso em um primeiro momento poder dificultar a descoberta da origem do disparo, é possível comparar a bala com a arma da onde ela saiu.

Portanto, seria possível descobrir se a bala saiu da arma de um soldado israelense.

Por outro lado, segundo a reportagem do jornal americano, enquanto alguns acreditam que as autoridades palestinas não tenham a capacidade de realizar tal exame, ativistas de direitos humanos apontam que seria necessário que os militares tivesse entregado suas armas imediatamente após a operação para impedir uma eventual manipulação.

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