Fusca — e até Brasilia — são os carros da onda na Etiópia; veja fotos

Jason Vogel
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Fusca alemão pintado como a bandeira imperial da Etiópia

A maioria dos brasileiros associa Etiópia a maratonistas, que volta e meia vencem a São Silvestre, ou à grande fome de 1983 a 1985 (quando terríveis fotos de crianças em pele e osso impressionaram o mundo). E, de 2013 para cá, o país africano tem servido como conexão para voos que partem do Brasil rumo à Ásia.

Agora nos chegam, via agência de notícias AFP, imagens do primeiro encontro de Fuscas na capital, Adis Abeba. Pesquisa daqui, pesquisa dali, descobrimos que os velhos VW “a ar” estão na moda entre os etíopes.

E não é só o besouro que faz sucesso por lá: surpreendentemente, participaram da reunião umas tantas Brasilias e Kombis made in São Bernardo do Campo. São sobreviventes dos anos 1970 e 1980, quando o governo do Brasil incentivou as exportações a países africanos e do Oriente Médio como forma de atrair divisas estrangeiras.

Há seis décadas, os Volkswagen a ar rodam na Etiópia. Em 1974, ao ser deposto em um golpe militar, o imperador Hailé Selassié (encarado como um messias pelo movimento rastafári), foi retirado do palácio a bordo de um prosaico Fusca alemão azul celeste — que, aliás, ainda existe.

Com o passar dos anos, os carros e picapes da Toyota tornaram-se ampla maioria nas ruas e estradas do país. Os velhos Volkswagen com motor refrigerado a ar foram relegados aos coroas saudosistas ou aos “duros” que precisavam de um meio de transporte robusto e confiável, mas não tinham como comprar algo mais novo.

Para se ter uma ideia, um Fusca alemão dos anos 1970 em razoável estado de conservação hoje custa uns 60 mil birres etíopes (o equivalente a R$ 7.500), enquanto um Toyota Corolla 2003 vale uns 420 mil birres (R$ 52.800).

Dos coroas aos jovens

O país está passando por um milagre econômico desde 2003 — com média de crescimento da renda de 8,5% ao ano — e os jovens da nova classe média etíope resolveram transformar o Fusca e outros VW antigos em brinquedos incrementados, à moda do programa “Pimp My Ride”, da MTV. Na receita, entram tetos e para-lamas recortados, rodas enormes e pinturas berrantes.

Há também os entusiastas que tentam manter os carros originais, na medida do possível, já que as peças são raras e muito caras — quase sempre importadas do Brasil ou do Egito. Todas as Brasilias que vimos nas fotos, já estavam com lanternas transplantadas de modelos como o VAZ-2101, antecessor do Lada Laika. Para complicar, a Etiópia passou a cobrar impostos mais altos à medida que o automóvel envelhece.

Mesmo assim a onda cresce: o primeiro encontro dos donos de VW em Adis Abeba, em dezembro, juntou 200 carros e cerca de mil Volksmaníacos e os organizadores já esperam mais besouros no próximo.

— Nós amamos nossos Fuscas. O carro é lindo, cheio de curvas, fotogênico e de manutenção fácil, apesar das peças caras. Temos que estimular a juventude amar o besouro novamente — diz Nasredin Mohamed, um dos organizadores do encontro.

De olho nessa paixão revivida, bem como no crescimento do país e nos impostos exorbitantes para carros importados, a Volkswagen anunciou, no ano passado, que terá uma linha de montagem na Etiópia, com progressiva nacionalização dos componentes. Pena que não pretenda relançar o Fusquinha por lá.