Fuzil de colecionador paulista foi parar nas mãos de traficantes da Zona Oeste do Rio

Rafael Soares
PM faz operação na favela do Rola, em 2018

Um fuzil fabricado nos Estados Unidos que tinha como dono um colecionador e atirador de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, foi parar nas mãos de traficantes do Rio. O armamento, da marca Bushmaster e calibre 5,56, foi apreendido por policiais do 27º BPM (Santa Cruz) na casa de um traficante na Favela do Rola, na Zona Oeste do Rio, em 2011. A origem da arma passou a ser objeto de uma investigação do Ministério Público do Rio quando, três anos após a apreensão, o próprio colecionador pediu à Vara Criminal de Santa Cruz a restituição do armamento, dizendo ser seu proprietário.

A investigação concluiu que o fuzil entrou no Brasil de forma ilegal, já que a Receita Federal nega a existência de uma autorização para importação da arma, e foi “esquentado” em São Paulo, onde passou a fazer parte do acervo do atirador. Após chegar à conclusão que o armamento havia entrado ilegalmente no país — provavelmente por contrabando — o promotor Luiz Antônio Ayres pediu à Justiça que a restituição da arma fosse negada. A juíza Regina Célia Moraes de Freitas determinou a sua destruição.

Até hoje, entretanto, não se sabe como o fuzil saiu de Ribeirão Preto e foi parar numa favela carioca. Após a destruição da arma, o caso foi remetido ao Ministério Público Militar (MPM) paulista, porque havia indícios da atuação de um militar para “esquentar” o fuzil contrabandeado no sistema de controle do Exército: apesar da origem ilegal, o armamento foi cadastrado, em 2008, no Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (Sigma) — medida necessária para o proprietário legalizar a posse do fuzil.

Ao longo da investigação, o colecionador afirmou que havia herdado a arma do pai e que desconhecia sua origem. O homem ainda alegou que, em 25 de março de 2010, o fuzil foi furtado de sua casa, em Ribeirão Preto. Um ano depois, a arma foi encontrada escondida embaixo da cama do gerente do tráfico da favela do Rola.

Ninguém foi punido pela posse ou por irregularidades no controle do fuzil. O traficante preso pela posse da arma foi absolvido em segunda instância porque os policiais militares não tinham mandado de busca para entrar em sua casa. Já o colecionador e um soldado do Exército, acusados de “esquentar” fraudulentamente o fuzil, foram absolvidos pela Justiça Militar, em junho do ano passado, do crime de falsidade ideológica. O MPM recorreu da decisão.