Ocidentais advertem Putin sobre anexação da Crimeia

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Os ocidentais advertiram o presidente russo, Vladimir Putin, nesta quarta-feira, sobre o risco de uma "anexação" da península ucraniana da Crimeia, antes da reunião em Washington entre o presidente Barack Obama e o premiê da Ucrânia, Arseni Yatseniuk.

Nas vésperas do referendo organizado pelas autoridades separatistas pró-Rússia nessa região à margem do Mar Negro, onde vivem dois milhões de pessoas, incluindo as minorias tártara e de língua ucraniana, nada parece capaz de deter a anexação da península por Moscou.

Hoje, o grupo das sete principais economias do mundo (G-7) afirmou que o referendo na Crimeia sobre sua possível anexação pela Rússia não terá "qualquer efeito jurídico" e pediu a Moscou que desista de mudar o status da península.

"Considerando a falta de uma preparação adequada e a presença intimidadora das tropas russas, seria ainda um processo profundamente viciado que não teria força moral. Por todas essas razões, não podemos reconhecer o resultado", acrescenta o G-7 (formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão), ao qual a União Europeia se associou, em um comunicado publicado pela Casa Branca.

Enquanto isso, os europeus aceleram sua aproximação com a Ucrânia. A chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que o acordo político de associação da Ucrânia com a União Europeia pode ser assinado na próxima semana.

"Nós nos pronunciamos por assinar o mais rápido possível o acordo de associação, provavelmente na próxima cúpula da União Europeia", prevista para os dias 20 e 21 de março, declarou Merkel em uma entrevista coletiva com o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk.

Os dois líderes garantiram que a UE está pronta para passar à "segunda etapa de sanções" contra a Rússia.

"Nós desejamos uma desescalada, mas se esse não for o caso, os ministros europeus das Relações Exteriores irão discutir na segunda-feira uma segunda etapa de sanções", garantiu Merkel.

Essas sanções devem incluir o congelamento dos bens e uma proibição de visto de personalidades russas e ucranianas consideradas responsáveis pela crise.

- Abandonar a Crimeia -

Herdando uma situação econômica catastrófica, governando em estado de emergência um país que ainda não cumpriu o luto pelas vítimas da repressão do antigo poder pró-russo de Viktor Yanukovytch, o primeiro-ministro ucraniano Arseni Yatseniuk foi recebido hoje por Barack Obama, na Casa Branca.

No encontro, Obama disse estar do lado da Ucrânia, reiterando que a incursão de Moscou na região da Crimeia violou o Direito Internacional, e garantiu que Washington apoia a integridade territorial da Ucrânia.

Barack Obama também alertou Putin sobre os custos de se tomar um curso diferente sobre esse conflito.

O presidente americano disse ainda esperar que os esforços diplomáticos de última hora consigam evitar a realização do referendo. Obama garantiu a Yatseniuk que Washington não reconhecerá o resultado do referendo.

"Espero que, em consequência dos esforços diplomáticos nos próximos dias, possamos repensar o processo", afirmou Obama.

Já o premiê interino da Ucrânia garantiu que seu país "não se renderá jamais" em sua luta para proteger a soberania do país.

A Ucrânia "é e será parte do mundo ocidental", insistiu Yatseniuk, em sua primeira visita à Casa Branca.

Em conferência em um think tank em Washington, após o encontro com Obama, o premiê confirmou as declarações da chanceler alemã, destacando que o acordo com a União Europeia poderá ser assinado na próxima semana.

"Tenho certeza de que, na próxima semana, a Ucrânia assinará a parte política do acordo de associação e dará um passo muito forte e sólido para fazer da Ucrânia uma parte integral da União Europeia", declarou.

Já as declarações do presidente interino da Ucrânia, Olexander Turchynov, à AFP parecem confirmar que Kiev está conformada com deixar a Crimeia para a Rússia e tem se concentrado, nesse momento, em uma possível invasão pela fronteira leste, região onde vivem muitos ucranianos de origem russa.

"Não vamos nos envolver em uma operação militar na Crimeia para não deixar desprotegida a fronteira leste da Ucrânia. Os militares russos estão contando com isso", disse Turchynov em entrevista à AFP.

Na fronteira leste, concentram-se importantes unidades blindadas.

Em um clima de extrema tensão, na semana passada, foram registradas manifestações separatistas em Donetsk e Lugansk, cidades russófonas do leste do país, onde manifestantes invadiram temporariamente repartições públicas.

Os serviços especiais ucranianos também afirmaram que prenderam na região de Kherson, perto da Crimeia, uma "patrulha de reconhecimento do Exército russo", que veio espionar a mobilização das unidades armadas ucranianas.

- Secessão rápida -

A Crimeia está praticamente isolada do restante da Ucrânia, com as forças russas controlando todos os prontos estratégicos.

Tudo foi organizado para uma secessão rápida da península: o "primeiro-ministro" Serguei Axionov se autoproclamou "chefe dos Exércitos" e os dois milhões de habitantes da Crimeia, em sua maioria de língua russa, viram os canais de televisão russos substituírem os canais ucranianos em seus televisores.

Homens em uniformes revistam qualquer viajante que chega a Simferopol vindo do Norte e apenas voos de Moscou podem pousar.

Na terça, as autoridades separatistas da Crimeia aprovaram uma declaração de independência da Ucrânia, etapa prévia ao referendo do próximo domingo para permitir a anexação do território à Rússia, enquanto o diálogo entre americanos e russos não avançava.