Gabriel Boric faz reforma e nomeia equipe mais experiente após plebiscito no Chile

SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - Em uma cerimônia confusa e atrasada devido a nomeações controversas, o presidente Gabriel Boric fez sua primeira troca de gabinete, privilegiando ministros de centro-esquerda e nomes técnicos e elevando a idade média do ministério. Ao todo, foram seis trocas.

Colega de militância e companheiro político do presidente, Giorgio Jackson saiu do cargo estratégico de secretário-geral da Presidência e assumiu um posto de segunda linha, no ministério de Desenvolvimento Social.

Outra mudança importante foi a saída de Izkia Siches do ministério do Interior, sem ser recolocada. Depois de lido o decreto de sua saída, Boric saiu de sua mesa e foi abraçá-la. Siches foi peça essencial em sua campanha eleitoral. Depois do abraço, ela voltou a seu lugar aos prantos.

Ela será substituída por Carolina Tohá, 57. Do partido de centro-esquerda PPD e ex-prefeita de Santiago, Tohá é filha de José Tohá, ex-ministro de Interior e vice-presidente do governo de Salvador Allende. O cargo de ministro do Interior é o mais importante do gabinete porque, no Chile, é o primeiro na linha de sucessão do presidente.

A cerimônia teve polêmica e atraso porque, num primeiro momento, havia sido anunciada a indicação de Nicolás Cataldo, do Partido Comunista, para o cargo de subsecretário de Interior, cargo a quem respondem as forças policiais. A oposição reagiu rápido, divulgando tuítes de Cataldo contra a instituição. Uma hora depois, com a cerimônia atrasada, a nomeação foi cancelada. Continua no cargo Manuel Monsalve, do Partido Socialista.

Houve manifestações na frente do Palácio de La Moneda, que foram dispersadas com dispersão de gás lacrimogêneo. Enquanto os nomes dos novos ministros eram anunciados, era possível sentir o cheiro de gás na parte de dentro da sede de governo.

No lugar de Jackson na Secretaria-Geral entrou Ana Lya Uriarte, 60, socialista, que foi chefe de gabinete da ex-presidente Michelle Bachelet (2014-2018). Na pasta da Saúde, entrou um nome técnico, Ximena Aguilera, médica e cirurgiã com experiência de ter sido consultora da OMS, especialista em epidemiologia.

Para o ministério de Energia, Boric escolheu Diego Pardow, do mesmo partido do presidente, Convergência Social. No ministério da Ciência, entrou Silvia Díaz, também do centro-esquerdista PPD.

"Mudanças de gabinete sempre são duras. Esta foi dramática, mas necessária, neste que é um dos momentos políticos mais difíceis de enfrentar", afirmou Boric em declaração no pátio de La Moneda, antes de realizar uma foto diante do novo ministério.

Sobre o plebiscito, afirmou que "os processos históricos que geram grandes mudanças são de longo prazo, não acontecem da noite para amanhã, não podemos esquecer essa lição da história". E acrescentou: "Os retrocessos sempre ocorrem em processos longos. Vamos escutar a voz do povo e caminhar junto ao povo".

As mudanças se dão dois dias depois de uma derrota do governo, quando os eleitores chilenos rejeitaram a nova Constituição por 62% a 38%. Na segunda-feira (5), deveria ter ocorrido uma reunião de Boric com os partidos de oposição, para buscar um acordo para encaminhar uma nova proposta de processo constitucional ao Congresso. A reunião foi suspensa, e terá uma nova data ainda a ser anunciada.

Apesar de os principais partidos de direita terem, na própria noite do plebiscito, afirmado que estavam comprometidos com a redação de uma nova Constituição, pediram mais tempo para apresentar sua proposta ao presidente.