Gabriel Calamari estreia como diretor e critica atores que "só se importam com TikTok"

Gabriel Calamari atuou em
Gabriel Calamari atuou em "Malhação" (Foto: Ramón Vasconcelos/Globo e Arquivo Pessoal)

Você deve se lembrar dele em "Malhação: Viva a Diferença", na série "3%", "Que Talento!" ou "Soy Luna". Gabriel Calamari se destacou em todos os projetos que encarou como ator, mas resolveu deixar o glamour no passado, seguir seu sonho e apostar na carreira de diretor quando encerrou o trabalho na Globo em 2018.

Aos que perguntam se Calamari sente saudade da atuação, ele é direto e reto: "Às vezes, mas passa rápido, quando lembro que corro o risco de atuar com gente que se importa mais com TikTok que com teatro e cinema". Na nova fase, Gabriel quer focar cada vez mais na arte e estar rodeado de pessoas que compartilham o mesmo pensamento.

Durante a pandemia, ele teve a experiência de dirigir, produzir e assinar o roteiro do curta "Desaparecido", que teve sua primeira exibição no Petra Belas Artes na última quarta-feira (8). Agora, mais maduro, Calamari começa a se preparar para gravar o seu primeiro longa, "E o Sol na Cabeça", projeto vencedor do PROAC (Programa de Ação Cultural).

O filme tem como público alvo a geração Z e será filmado em São Paulo, Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. A trama é sobre duas estudantes de cinema que se revoltam com o fechamento do cineclube da universidade e resolvem viajar pela América do Sul para gravarem o próprio road movie (filme que se passa na estrada). No caminho, elas conhecem uma garota que sonha em ser atriz. O cenário parece perfeito e as três passam a viver essa aventura juntas, sem fazer ideia do que pode acontecer pelo caminho.

Reencontro

No projeto, Gabriel Calamari trabalhará com as argentinas Malena Narvay e Caro Kopelioff, ambas com milhares de seguidores jovens no Instagram. Caro, inclusive, foi protagonista de "Soy Luna". Ela contracenou com Gabriel no início da carreira e o ajudou na adaptação em Buenos Aires. Agora, além de protagonista do filme dele, a atriz será co-produtora.

"Caro é daquelas atrizes que não existem mais e só isso me deixa muito contente. É uma raridade, daquelas atrizes que encaram o trabalho do ator como um ofício, gente que estuda teatro até o osso, que vive por isso. Além disso, ela equilibra bem a maneira com que se comunica com o público jovem, por isso fez um enorme sucesso em todos os filmes que faz e um furor nas redes sociais", elogia o diretor.

A diferença entre atuar e dirigir

Embora a paixão pela direção seja evidente, Gabriel Calamari fala com a propriedade de quem já esteve dos dois lados e acha difícil apontar as diferenças entre atuar e dirigir. Apesar das peculiaridades de cada função, ele vê tudo com o mesmo objetivo: contar uma boa história. E, para isso, não importa a posição.

"Claro que é possível elencar diferenças práticas entre atuar e dirigir, principalmente no set, onde há uma militarização artística das funções, os respectivos deveres e responsabilidades de cada função, quem orquestra o que, mas nunca há uma regra, não existe um manual, cada um sabe naturalmente seu lugar, por isso nunca reparo nessas diferenças", diz ele.

Gabriel Calamari dirigindo o curta
Gabriel Calamari dirigindo o curta "Desaparecido" (Foto: Arquivo Pessoal)

Como diretor, Gabriel acredita que o ator precisa seduzi-lo (no bom sentido, ele faz questão de frisar). "Existe um certo jogo de sedução. O ator está o tempo inteiro buscando seduzir o diretor. É para o diretor que ele atua - importante dizer que me refiro a seduzir no sentido mais puro e artístico da palavra, em tempos de cancelamento é bom explicar", completa.

Influenciadores "invadindo" os estúdios

Recentemente, a escalação de Jade Picon para a novela "Travessia" revoltou alguns artistas. Gabriel Calamari chegou a comentar a polêmica em suas redes sociais. Engana-se, porém, quem acredita que ele é totalmente contra. O artista lembra que na história do cinema grandes diretores conseguiram extrair boas interpretações de pessoas que nunca haviam atuado. O que precisa estar claro é o objetivo.

"Durante o neorrealismo italiano, praticamente só se filmava com não atores, e eu sou um grande admirador dos filmes de Rossellini, do De Sica… Mas, quais foram as motivações deles e de tantos outros diretores que optam filmar com não atores? Estas escolhas, durante a história do cinema, sempre estiveram ligadas a intenções virtuosas por parte dos diretores; surgem da obsessão de um artista em encontrar o ser humano mais apto para interpretar determinado personagem, independente de quem seja", explica.

O que Gabriel enxerga como problema, na verdade, é a escalação de pessoas que nunca atuaram visando apenas o aspecto comercial. "Quem paga a conta de um filme, hoje em dia, quer simplesmente escalar quem está em alta nas redes, quem faz mais sucesso, pois isso, supostamente, lhe dará segurança e maior garantia de retorno no investimento", aponta.

E como isso acontece na prática? "Primeiro pensa-se em quantos seguidores o nome sugerido pelo produtor de casting tem, depois nas características físicas do personagem, na capacidade de leitura do roteiro, nos trabalhos pregressos do sujeito, no brilho que carrega no olhar. Tudo é simplesmente atropelado pelo sucesso que determinado nome tem", diz.

O que mais revolta Calamari é que, segundo ele, nada disso é garantia de sucesso. Basta pesquisar os fracassos de bilheteria que alguns filmes desse modelo tiveram. "Não tem segredo: no fundo, quando o espectador senta a bunda na cadeira para ver um filme, ele ainda prefere ver um bom filme, com um ator desconhecido, do que um filme medíocre, com uma blogueira famosa, mas sem talento."

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