Gaby Amarantos estreia no ‘The voice kids’ e relembra a infância pobre, mas feliz: ‘Fazia picolé de ki-suco para usar como batom’

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Quem vê Gaby Amarantos com figurinos, maquiagens e penteados exuberantes pode imaginar que toda essa abundância visual seja apelo da vida artística. Também, mas não só. Olhar a vida pelo prisma multicor é um exercício que Gabriela Amaral dos Santos pratica desde a infância, enquanto crescia em meio à pobreza e à violência do bairro Jurunas, na periferia de Belém do Pará.

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— Eu era uma menina toda aparecida! Customizava o uniforme da escola, prendia o cabelo pra cima, usava as sementinhas de urucum para dar uma cor ao rosto. Como não podia usar batom, fazia picolé com aqueles ki-sucos cheios de corante para chupar e deixar a boca vermelha. E construía roupas com jornal, porque via na TV os ícones pop com estampas cheias de letras impressas. Eu causava, amor! — lembra a cantora, compositora, atriz, apresentadora e, agora, técnica do “The voice kids”, reality musical voltado para o público infantil que estreia sua nova temporada neste domingo (6) à tarde, na Globo: — Tenho essa atmosfera lúdica do “kids” na vida. Fui feita para o programa!

Depois de uma participação como assistente de Lulu Santos no “The voice Brasil”, em 2013, Gaby entra para o elenco oficial da versão infantil da atração, comandada pela primeira vez pelo apresentador Marcio Garcia. No júri, ela estará ao lado do veterano Carlinhos Brown e de Michel Teló, que embora pentacampeão na versão adulta também está debutando como técnico de um time mirim. Talita Rebouças continua cobrindo os bastidores.

Orgulhosa por ser a primeira representante da região Norte do país a sentar na poderosa cadeira vermelha giratória, ela conta que a emoção rolou solta ao ser escolhida pela primeira criança aprovada nas audições às cegas, já gravadas (vale lembrar que a edição pode não manter a ordem das apresentações para a exibição na televisão).

— Rolou uma energia tão boa! Sinto que a gente (o time Gaby) vai fazer a diferença. Não quero parecer pretensiosa, o elenco todo é competente, mas foi lindo esse episódio, porque era o meu pontapé inicial e já me deu um gás. Tem acontecido cada coisa incrível ali... É o trabalho mais lúdico que já fiz, o mais fabuloso. No sentido de fábula mesmo, de fantasia. Vejo a fantástica fábrica de sonhos acontecer. Agradeço o tempo inteiro pela oportunidade de participar disso. Estou me reencontrando com a minha criança e aprendendo com as do programa. Acho que elas ensinam mais pra gente do que o contrário — observa a paraense, revelando já ter sido convidada para integrar o júri de atrações semelhantes, anteriormente: — Mas nunca aceitei porque achei que não era a hora. Eu sabia que o momento certo, o convite que eu queria chegaria. Eu dobrei os meus joelhos, pedindo que alguma coisa especial acontecesse na minha vida durante a pandemia. No dia seguinte, o Creso (Eduardo Macedo, diretor-geral) me ligou, chamando para o programa. Foi o milagre mais rápido que já vi.

Diferentemente das crianças e pré-adolescentes que serão avaliados no “The voice kids”, a artista não chegou a passar por prova de fogo parecida nas primeiras fases de sua vida. Nos anos 80, ganhar visibilidade era sonho distante para Gabyzinha, que promovia seu espetáculo na sala de casa, com os três irmãos mais novos.

— A TV daquela época nos influenciava muito, e a música era nossa educadora. Eu lembro que a gente colocava o vinil do Raul Seixas para tocar “Mosca na sopa”. Aí, eu pintava meus irmãos com as amostras de maquiagem da minha mãe, que era consultora de uma marca de cosméticos. Montava neles umas roupas meio de roqueiros, e a gente ficava como loucos, gritando e dançando. E tinha uma outra música do Djavan, “Hino Nacional do Congresso Africano” (“Nkosi Sikele’ Iafrika”), com uma batida afro boa! Eu amarrava uns lençóis neles e a gente fingia ser de uma tribo. E quando eu chamava para brincar de “Show de talentos”, era eu que tinha que cantar primeiro — lembra ela.

O primeiro concurso de que Gaby se recorda ter participado foi um em que foi eleita Miss Caipira:

— Eu no palco, com um vestidinho cheio de patchouli (planta de aroma forte, muito presente na cultura nortista), e a minha mãe com um sorrisão, no meio de todo mundo, orgulhosa. Ela não era mãe de miss, era mãe de artista. Fez o que pôde para eu gostar de ler, de ouvir música... Sabe aquele filme “A vida é bela” (produção italiana de 1997, ganhadora de três Oscar)? A minha mãe era aquele pai da história (no longa-metragem, um judeu enviado para um campo de concentração em Berlim com seu filho pequeno faz tudo para que o menino acredite que eles estão em um jogo, na tentativa de protegê-lo do horror da guerra). No lugar de extrema violência onde a gente vivia, ela me protegia de abuso sexual, crime ainda normalizado por lá. O Jurunas se equivale a uma favela aqui no Rio de Janeiro, era bala perdida todo dia. A gente ia pra escola e passava por corpos estendidos na esquina por causa de chacina ou operação da polícia.

Dona Elza (vítima de um câncer de pulmão em 2015, aos 69 anos) usava todos os artifícios possíveis para evitar que os filhos fossem atingidos e absorvessem as mazelas cotidianas. Costureira, vestia a primogênita como sua bonequinha:

— Era o couro comendo lá fora, e minha mãe dentro de casa me enfeitando, me botando pra desfilar, desenhar, pintar, cantar. A arte me salvou no meio disso tudo, e ela foi e é minha maior inspiração. Deu asas aos meus talentos, entendeu que eu tinha uma parada diferente desde muito pequena.

Foi num domingo de Páscoa que, de brincadeira, a já adolescente começou a soltar a voz em público no altar da Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, dentro da sua comunidade. E levou o primeiro “não” da profissão que escolheria como sua: acabou sendo afastada do microfone do templo por sua tamanha desinibição.

— Fizeram uma reunião e falaram: “Você é muito animada para cantar aqui, talvez tenha que procurar outro lugar”. E eu fui expulsa do grupo da igreja por conta dessa minha animação toda — entrega ela, que foi desabafar com uma amiga num barzinho do bairro, tomando sorvete, onde um rapaz que se apresentava com voz e violão a convidou a assumir os vocais: — Peguei o microfone e, de repente, uma coisa mágica aconteceu. A galera estava curtindo uma MPB calminha, e eu sugeri: “Vamos cantar uma lambada, um forró?”. Quando vi, estava todo mundo levantando e dançando.

A boa repercussão fez com que o dono do bar convidasse a moça a continuar se apresentando ali:

— Ele disse: “Não tenho um cachê pra oferecer, mas quer tomar uma sopa?”. Então, brinco que o meu primeiro cachê foi um prato de sopa.

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A popularidade em sua cidade fez um grupo de amigos de Gaby inscrevê-la para o “Fama”, primeiro reality show musical da Globo, comandado por Angélica, em 2002.

— Cheguei a ir até a porta da TV Liberal (afiliada da emissora no Pará), vi aquela fila e pensei: “Não é por aí, não é isso que quero”. Olha o que se passou pela cabeça pretensiosa da pessoa aqui: “Quando eu tiver que participar de um programa assim, vai ser como jurada”. Abusada, né?! Eu já queria chegar sentando na cadeira (risos).

A essa altura, a jovem já havia decidido que a música seria seu principal sustento. E, a partir daí, outros “nãos”, mais cruéis, foram se apresentando como obstáculos em sua trajetória.

— Quando eu comecei a cantar pra valer, fiz teste para bandas. Nessa época, não existiam cantoras com o meu tipo físico, com a minha cor e o meu corpo. Eu sempre ouvia: “Nossa, você tem um vozeirão, mas a gente precisa de alguém mais magra”. “Você canta pra caramba, vamos te ligar”, aí eu via a escolhida e era uma mulher branca, toda Barbie. E às vezes ela nem cantava tão bem. Para eu ter a minha própria banda, tive que comprar os instrumentos, vendi carro pra bancar e fiz acontecer. Até quando já tinha o grupo de músicos montado, ouvi: “Você não vai a lugar nenhum cantando essas músicas do Pará, que ninguém conhece”. Empresários ricos que bancavam forró e sertanejo me disseram que não investiriam em mim simplesmente porque eu era mulher: “Vocês só dão problema. Engravidam, levam muito tempo pra se arrumar...”. Mas eu persisti. Foi Deus me abençoando e eu abrindo caminhos com o facão no dente. Olha aqui, meu amor, aonde eu já cheguei! — conclama, vaidosa pela história que construiu.

A carreira, iniciada em 2011, deslanchou para todo o Brasil no ano seguinte, quando o tecnobrega “Ex mai love” caiu na boca do povo ao ser abertura da novela “Cheias de charme”, na Globo.

— Nessa época, comecei a receber muitos vídeos de crianças cantando e dançando a minha música. Bebês ficavam vidrados na frente da TV quando começava a novela. Além da melodia animada, meus figurinos sempre chamaram atenção da criançada. Sabe a Lol, boneca toda coloridinha, que é hit entre a meninada hoje em dia? Eu recebo mensagens de muitas mães falando que suas filhas colocaram o nome de Gaby no brinquedo delas, porque se parece comigo. Acho ótimo que existam, hoje, bonecas com o tom de pele, a textura do cabelo e toda a diversidade para que as crianças se enxerguem nelas, se identifiquem. E que meninos também brinquem de bonecas. E que meninas também brinquem de carrinhos. Precisamos acabar de vez com essa coisa de determinar gênero para cada tipo de brinquedo. Criança tem que brincar de tudo para se formar um ser humano completo — opina a mãe de Davi, de 12 anos, que também considera as sobrinhas Adriele, de 13 anos, e Ana Vitória, de 4, como filhas: — Eu e minha irmã fizemos um trato de maternidade compartilhada. Nós duas temos três filhos: o meu Davi e as duas meninas dela. Ele mora em Belém com a tia e as primas, e eu sou a provedora da família. Meu filho precisa da qualidade de vida que é crescer na Amazônia. Quero que absorva o máximo dessa cultura, tenha a lembrança do que é uma samaumeira, um igarapé, tomar banho de rio... Porque, em breve, ele vai sair de lá pra vir morar em São Paulo comigo e com Gareth (Jones, marido inglês de Gaby, que é seu produtor, sócio e parceiro criativo).

Companheiros na vida e na arte há sete anos, Gaby e Gareth não passaram por momentos críticos de estresse durante a quarentena imposta pela pandemia, nos últimos 15 meses. Mas fizeram um combinado: um surto por dia estava permitido.

— Não tem como não surtar nesse cenário que estamos vivendo, né? Eu tenho o privilégio de fazer terapia, isso me ajudou muito. E, pra mim, foi um período bom para encontrar a minha porção criativa. Eu criei um estúdio em casa, estou no processo de preparar um novo álbum (o segundo da carreira, que chegará após um hiato de nove anos). Foi tão tranquilo botar voz nas canções... É meio louco eu dizer isso, porque sei que estamos num momento de muita dor, e eu vivo antenada em tudo o que está rolando. Faço um programa (o “Saia justa”, no GNT) em que a gente debate toda semana sobre pandemia. Mas, falando artisticamente, se eu não tivesse tido essa pausa, talvez não conseguiria preparar esse disco — desabafa, continuando: — A música pra mim é sagrada, é lidar com divindade. Não consigo ir ali e gravar uma coisa mais ou menos. Eu sou muito cuidadosa, faço tudo com muito amor. Estudo referências para os clipes; pesquiso capa e nome para o álbum; os feats (parcerias musicais) são estrategicamente pensados para cada canção. Demorou um tempinho, mas os fãs terão um resultado lindo e vai valer a pena essa espera.

E um projeto do tipo “Gaby só para baixinhos”, estaria nos planos, cantora?

— Olha... Você me deu uma ideia... Desde os meus 8 anos, eu escrevo letras de músicas. Pegava melodias que já existiam e fazia versões em cima. Eu tenho umas canções guardadas que são muito infantis, outras com sentimento adolescente. Ficava pensando: “O que é que eu vou fazer com elas?”. Hoje, com 42 anos, ainda guardo uma criançona em mim. Procuro mantê-la viva. Ela é arteira, quer pintar, desenhar, subir em árvore, pular de cabeça no rio... — detalha ela, que emprestou sua voz à personagem Engine Gui, da animação “Ico Bit Zip”, do canal Nat Geo Kids: — A trilha de abertura dessa atração também é minha, uma batida gostosa do tecnobrega, que as crianças adoram. Realizar um projeto para o público infantil me deixaria muito feliz. Eu sou uma nativa da Amazônia. Seria lindo falar para as crianças sobre a minha floresta, sobre o respeito à diversidade. Influenciar positivamente as novas gerações para que cresçam livres de preconceito, abertas apenas para o amor. Jogo para o universo e entrego nas mãos do Senhor. Se tiver que rolar, vou receber de braços abertos.

Enquanto isso, a musa de sangue negro e indígena, abundante em cores, sons e formas, segue como porta-voz do movimento feminino que prega o corpo livre, longe das imposições dos padrões de beleza.

— Se você é voluptuosa, não pode usar listras porque engorda; se é muito magra, não deve vestir preto porque emagrece; se tem celulite, melhor não usar short curto e calça branca — enumera Gaby os absurdos da moda em que as mulheres são enquadradas, e subverte o conceito que a acompanha desde os primórdios: — Brega, pra mim, é um grito de liberdade. É dizer “dane-se tudo isso”. Eu e uma equipe de oito a dez pessoas fazemos reuniões on-line para desenvolvermos meus figurinos. Já usei um vestido num prêmio com a frase: “Por que choras, padrão?”. Vestir-se também é um ato político. E o estilo de vida brega é fashion demais!

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