Gabz, ex-Malhação, relembra racismo na TV quando criança: “Queriam me humilhar”

Gabz hoje tem 23 anos. (Foto: Arquivo pessoal)
Gabz hoje tem 23 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Lidar com as marcas do racismo não é fácil para ninguém, muito menos para uma criança. A atriz Gabrielly Nunes, que adotou o nome artístico Gabz, lembra até hoje dos comentários maldosos e ofensivos de quando participou de algumas novelas da TV Globo.

Segundo ela, o público não aceitava bem sua inserção na telinha, e corriqueiramente ouvia frases como “Se mudar o cabelo, vai ser menos feia”. As agressões vinham também das crianças da escola, fazendo com que Gabz se sentisse muito confusa, naturalmente: “Eu não entendia. Na escola tudo foi agressivo. Sempre fui a única criança negra nos espaços onde eu estava. A galera me odiava muito”, pontua.

A artista saiu da periferia do Rio de Janeiro para tentar realizar seus sonhos em outros lugares. Fez balé, teatro, foi modelo. O esforço dos pais fez diferença. Era perto da família que os sentimentos de amor e proteção transbordavam.

“Meu pai me conta da primeira vez que ele viu acontecer. A gente estava brincando em uma pracinha. Em dado momento, eu criei uma brincadeira e uma criança comentou que meu cabelo era ruim. Criei travas emocionais. As pessoas não me davam a chance de ser alguma coisa”Gabz

A carreira de Gabrielly começa ainda aos 6 anos. Estreou no cinema em “Xuxa em Sonho de Menina'', interpretando Thayane. Também viveu Bia na quarta temporada de “Teca na TV'' e Gracinha no remake de Ciranda de Pedra. “Páginas da Vida e “Viver a Vida” marcaram a carreira da atriz, assim como "Malhação - Toda Forma de Amar".

Hoje, a multiartista se divide entre as gravações de séries, filmes e sua poesia.

Racismo na infância

Recentemente, inclusive, um internauta relembrou a participação de Gabz em “Páginas da Vida”. Ela compartilhou a publicação comentando: “Gente quando eu lembro que nessa época eu sofri um bullying absurdo na escola por ser “feia” e ter cabelo ruim eu fico kkk cara o racismo eh ridículo pq eu era uma criança LINDA DEMAIS SIM!!!”.

A virada de chave veio quando a jovem fez “Viver a Vida”, onde interpretou Taís Araújo (Helena) criança.

“Foi muito incrível para mim. Lembro que fui com o penteado dela pra escola e pensei ‘Nada mais importa, sou a Taís Araújo’. Foi um processo que me deu força e deu força a outras crianças".Gabz

Murro em ponta de faca: casos de racismo aumentaram no Brasil

Gabz entrega aqui uma história comum a crianças negras brasileiras. Nascer, crescer, viver e morrer neste país não é fácil quando o ideal da branquitude nos é distante. A jovem, hoje com 23 anos, precisou enfrentar o processo cruel do racismo ainda muito pequena e com um plus: tudo televisionado.

Pessoas entre 12 e 29 anos estão mais vulneráveis. (Arte: Gabriela Feitosa/Yahoo)
Pessoas entre 12 e 29 anos estão mais vulneráveis. (Arte: Gabriela Feitosa/Yahoo)

O fato é: a inserção de pessoas negras na TV, no cinema e demais obras audiovisuais precisa ultrapassar a barreira da representatividade superficial. Essa população precisa estar na produção, nos roteiros, nas grandes decisões e na frente das câmeras com personagens complexos e longe dos estereótipos.

A advogada Raquel Andrade, presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Ceará, reflete que, apesar dos avanços, ainda há muito trabalho a ser feito. “Os números de representatividade negra e, sobretudo, de mulheres negras são tão ruins. O racismo estrutural e o racismo institucional afastam essas pessoas do poder e a comunicação é um lugar de poder fundamental”.

Raquel pede que reflitamos: quantas pessoas negras existem nos lugares que você frequenta? Falando de TV, ainda segundo a advogada, é inaceitável que tenhamos, ainda, poucas pessoas negras protagonizando folhetins, já que pretos e pardos são maioria no país.

“O contexto político tem uma interferência direta nas agendas que tratam de racismo estrutural e machismo estrutural. A gente tem que dar atenção maior a esse controle de narrativas e de imagem. Isso é tão alarmante que as pessoas negras não são cotadas para protagonizar de maneira corriqueira grandes comerciais. Mulheres negras só protagonizam 7,4% dos comerciais na TV brasileira”Raquel Andrade

Para entender o contexto, é preciso, de acordo com Andrade, avaliar fatores históricos e estruturais que causam esse racismo na comunicação. “A invisibilização da população negra é uma violência”, enfatiza a presidente.

Romper estereótipos

Além da pouca representação, as que existem são tomadas de estereótipos. Mulher negra faz papel de doméstica, homem negro faz papel de traficante, crianças negras (como Gabz) são humilhadas na rua. Se formos falar de corpos trans e travestis, então, a boa representatividade é quase inexistente.

“Ainda há muito o que caminhar para evitar subalternidade, hipersexualização e a naturalização da violência associada às pessoas negras. Elas não são tratadas como pessoas elegantes, de posse”, pontua Raquel Andrade.

André Severino, sociólogo autor do trabalho “Cinema Nacional: a representação do negro na contemporaneidade” e idealizador do projeto Black Nerd Lab, concorda com Raquel e acrescenta:

“Além de imagem e controle de imagem, essa é uma questão de contratação de pessoas negras. A gente sabe que existem poucos roteiristas trabalhando. Tudo isso começa na universidade, onde a elite comanda. Quem são as pessoas que conseguem se formar na faculdade de Comunicação?”André Severino

Yasmin Thayná, diretora e roteirista do curta “Kebela” e Zózimo Bulbul, considerado o criador do Cinema Negro no Brasil, são alguns exemplos que André trouxe na nossa conversa como figuras importantes que vem reinventando e reinventaram o audiovisual nacional.

Para o sociólogo, o ideal é que as pessoas racializadas sejam incluídas também nos editais e em outras oportunidades de colocá-las na frente dos processos. “Só que como a gente está lidando com problemas históricos, essa questão remonta ao início do século 20, pós abolição. Logo ali no começo a gente já tem a técnica da decupagem excluindo negros e indígenas. Mesmo quando surge o Cinema Novo na década de 60 e com a boa vontade dos diretores, o negro ainda é estigmatizado. Negão, malandro, favelado, criolo doido…”, cita alguns estereótipos.

Tanto no cinema, quanto nas telenovelas, e agora com as plataformas de streaming, é preciso ficar de olho na monopolização das narrativas que vem sendo feitas. A novela ainda é um produto importante consumido por brasileiros, como o próprio sucesso de “Pantanal”.

A “caixa ideológica”, como resume André, carrega a função social de comunicar a uma grande maioria de pessoas. “A novela aparece como uma oportunidade de a gente ter contato com representações. A gente sabe que a população negra tem sido retratada com estereótipos. Existe monopólio do que é passado para a grande população”, completa.

“Essas imagens traduzidas pela televisão acabam se cristalizando como uma noção da realidade. As pessoas passam a acreditar que as pessoas negras estão incorporadas nesses estereótipos. A TV brasileira é majoritariamente masculina e branca"André Severino

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