Gal Costa deixou legado de reviravoltas estéticas e de excelência no ecletismo

Poucas intérpretes deixarão um legado tão contundente para a posteridade quanto Gal Costa. Desde que Maria Bethânia a lançou em seu primeiro LP num dueto na canção “Sol negro”, de Caetano, em 1965, ainda assinando Maria da Graça, lá se vão 57 anos de uma carreira muito intensa, cheia de reviravoltas estéticas.

Gal foi balconista de uma loja de discos em Salvador até conhecer a trupe célebre baiana com quem fez os primeiros espetáculos “Nós, por exemplo” e “Nova bossa velha, Velha bossa nova”. A seguir, encantada pelo estilo cool de João Gilberto, gravou com Caetano o primeiro álbum, “Domingo” (1967). Mas foi no IV Festival da Record de 1968 cantando “Divino maravilhoso”, com o cabelo black Power e uma túnica colorida bordada com espelhos, com urros à la Janis Joplin, que ela inseriu em definitivo seu nome na história, mostrando que naqueles tempos era necessário um canto mais agressivo. A partir dali virou a principal divulgadora do Tropicalismo, mesmo quando Caetano e Gil foram exilados. A seguir, tornou-se a musa do desbunde comportamental dos anos 1970.

Cantando com uma flor no cabelo, as pernas abertas e empunhando um violão, ela virou símbolo sexual de parte de uma geração de jovens que não aguentava mais o moralismo e a caretice na forma de transar, se vestir e viver de uma maneira geral. Quando foi construído um emissário submarino na Praia de Ipanema, a areia removida formava uma montanha de areia e, no mar, um píer que era uma espécie de território livre para aquela gente. Era a época do emblemático show “Fatal” em que lançava Luiz Melodia com “Pérola negra” e “Vapor barato”, de Macalé e Waly Salomão. Não deu outra. O local ficou conhecido como Dunas da Gal ou Dunas do Barato.

Em 1979, pelas mãos do empresário Guilherme Araújo, Gal deixou a vertente hippie estilizada para misturar Carmen Miranda, Broadway e teatro de revista no disco/show “Gal Tropical”, virando diva definitiva do povo LGBT, uma grande vendedora de discos, além de ostentar uma técnica vocal cada vez mais apurada. As estripulias que fazia na versão de “Meu nome é Gal”, duelando com seu guitarrista, era algo para lá de surreal. Foi também a fase de grande intérprete carnavalesca, emplacando sucessivos hits do gênero nas paradas.

Nos anos 80, foi de êxitos populares como “Um dia de domingo” e “Chuva de prata” a canções roqueiras, além de investir numa carreira internacional que gerou até álbum com Tom Jobim, gravado em Los Angeles. Depois, no show “Plural”, se inseriu na era dos blocos afro-baianos, e a seguir, dirigida por Gerald Thomas, voltou a causar polêmica no show “O sorriso do gato de Alice”, mostrando os seios, ao cantar “Brasil”. Se na década de 2000, ficou um pouco estacionada, retomou seu protagonismo ao gravar “Recanto” (2011), só com músicas de Caetano, e reconquistando um público jovem que passou a idolatrá-la até o fim de seus dias.

Que outra cantora conseguiu nos convencer entoando uma cantiga de ninar, outra de vanguarda, um standard americano, uma bossa nova e um forró, com o mesmo encantamento? Poucas tiveram a leveza ou a energia vocal e de interpretação perfeita em tantas vertentes estéticas. Viva Gal, para sempre atemporal.

Rodrigo Faour é jornalista, escritor e historiador da música popular brasileira