Gal Costa reencontra público após 19 meses em show com 'Fora, Bolsonaro', inéditas e respeito aos protocolos; saiba como foi

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Não foi lá a multidão que uma das maiores vozes do Brasil merece, mas o fato é que a baiana Gal Costa, agora com 75 anos, se reencontrou com o público num show ao vivo na noite desde sábado, praticamente 19 meses depois da última troca de energias, quando cantou na Concha Acústica, em Salvador. Na plateia do Teatro Sérgio Cardoso, região central de São Paulo, 125 pessoas devida e persistentemente mascaradas — 40% da capacidade total da casa — representavam outros milhares que assistiam, pelo YouTube, a apresentação válida pela programação da 11ª edição da Virada Sustentável SP.

Além das máscaras sempre no rosto, o público fisicamente presente soube respeitar também os assentos permitidos, a regra de não comer nem beber dentro do teatro e a saída organizada por filas.

Roteiro como destaque

No palco, o resultado se mostrou acima do esperado, levando em conta todas as circunstâncias — entre elas, a que a intérprete fez apenas cinco ensaios com a pequena banda formada por André Lima (piano e teclado), Fábio Sá (baixo) e Vitor Cabral (bateria e percussão) antes do show. Não só a formação foi diferente daquela que a acompanhou na última live, em maio — quando a guitarra de Guilherme Monteiro substituiu este formato mais jazzy com piano —, como o repertório desenhado pelo diretor artístico Marcus Preto também pululou como um dos destaques da noite.

Apenas três canções foram repetidas no roteiro de 18 músicas: os clássicos “Folhetim” (Chico Buarque) e “Baby” (Caetano Veloso), e o bis em clima de samba-rock meio protesto e meio carnaval “Brasil” (imortalizada na voz de Cazuza), quando Gal conclamou seus mascarados a voltarem para casa “atentos e fortes” com uma música “essencial para esse momento que a gente vive” — mais cedo, ela já tinha sido política ao responder aos gritos de “Fora, Bolsonaro” com “fora, sim!” e quando falou rapidamente sobre a questão ambiental do país, em diálogo com a proposta direta da Virada Sustentável.

A repetida “Folhetim” encerrou uma inesperada e inusitada tríade Chico Buarque. Antes, Gal Costa e seu trio tinham interpretado “A história de Lily Braun” (parceria de Chico com Edu Lobo) e “Último blues”, canções que a cantora baiana nunca tinha feito ao vivo, até então. A primeira, gravada por ela para o musical “O grande circo místico” (1983), funcionou no palco com maestria, num clima boate cool que tinha como líder uma Gal que se apropriou da canção com a devida malemolência teatral pedida, para delírio do público. Já “Último blues”, que a baiana gravou no álbum “Bem bom” (1985), passou quase despercebida enquanto novidade, um tanto ofuscada pela antecessora mas também menos azeitada na harmonia voz-música.

Outra novidade inesperada do setlist apresentou “A verdadeira baiana”, de Caetano Veloso, que Gal não cantava em shows desde a turnê de “Plural” (1990). Aqui, mais uma esperteza do roteiro, está já na metade final do show de cerca de uma hora. A canção do amigo Caetano veio logo após “Falsa baiana”, do mineiro Geraldo Pereira, formando um diálogo quase direto: “A falsa baiana quando entra no samba/ Ninguém se incomoda/ Ninguém bate palma/ Ninguém abre a roda/ Ninguém grita oba!” cantou Gal, entoando os versos de Geraldo, para minutos depois completar com “A verdadeira baiana sabe ser falsa, salsa, valsa e samba quando quer”. A sequência baiana divertida e suingada, regida pela percussão de Vitor Cabral, terminou em “Vatapá” (Dorival Caymmi), deixando o público com vontade de pedir “um bocadinho mais”.

Sorrisos e saxofones imaginários

Mas nem só de ousadias no repertório se fez o show de Gal Costa em São Paulo. Devidamente adaptada ao tempo, a voz marcante e brilhante que marca uma carreira cinquentenária estava lá, sem falhas marcantes. Na única vez que pigarreou, durante “Folhetim”, Gal disfarçou bem chamando o público virtual e físico — este ainda por vezes tímido, seja pelo teatro ou pelo costume perdido com a pandemia— para o seu lado, esbanjando bom humor. Em “Aquele frevo axé”, Gal também brincou tocando um saxofone imaginário e arrancou risadas dos presentes.

— Boa noite para quem está assistindo de casa e para esses mascarados que estão aqui. Estava com muita saudade de estar em frente a uma plateia, mesmo que pequena. É uma alegria imensa, a gente já muda — constatou a cantora na sua interação mais longa com a plateia, após a sequência inicial com “Todo amor que houver nessa vida” (Frejat e Cazuza), “Acontece” (Cartola) e “Esotérico” (Gilberto Gil), quando ainda aquecia a voz.

Depois de mais um teste bem sucedido e dos projetos pandêmicos — lives e o disco de releituras em duetos “Nenhuma dor” —, Gal agora se prepara para, enfim, estrear um show inédito, completo, depois do sucesso de “A pele do futuro”. Segundo Marcus Preto, a previsão é abrir esse novo capítulo em novembro, no Teatro Bradesco, também em São Paulo. Dependendo, claro, do avanço da imunização dos brasileiros.

Setlist do show de Gal Costa

1 - “Todo amor que houver nessa vida”

2 - “Acontece”

3 - “Esotérico”

4 - “Luz do sol”

5 - “Açaí”

6 - “Aquele frevo axé”

7 - “Meu bem, meu mal”

8 - “a história de Lily Braun”

9 - “Último blues”

10 - “Folhetim”

11 - “Palavras no corpo”

12 - “Baby”

13 - “Falsa baiana”

14 - “A verdadeira baiana”

15 - “Vatapá”

16 - “Barato total”

17 - “Sorte”

18 - “Brasil”

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