Gal sai de cena consagrada como voz de todas as gerações

Por Vinícius Marques

Gal Costa em performance no palco do Carnegie Hall, Nova York, em 24 de março de 2011 (Foto: Jack Vartoogian/Getty Images)
Gal Costaem show no Carnegie Hall, em Nova York, em março de 2011 (Foto: Jack Vartoogian/Getty Images)

Em 1964, quando Gal Costa – ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé –, subiu ao palco do Teatro Vila Velha, em Salvador, para se apresentar no espetáculo “Nós, Por Exemplo”, ela não tinha dimensão da importância que um dia teria para a música brasileira e se consagraria como a voz de todas as gerações a partir de então.

A cantora baiana, nascida Maria das Graças Penna Burgos, que faleceu na manhã de quarta-feira (9), aos 77 anos, carregou os títulos de ‘Musa da Tropicália’ e ‘Maior Cantora do Brasil' por quase 60 anos de carreira. Nesse sentido, não existia competição para Gal Costa. Ela era a única diva da Música Popular Brasileira que entendia o posto que lhe foi dado pelo público e o carregava com orgulho.

A carreira, que começou de forma tímida, logo após o espetáculo “Nós, Por Exemplo”, explodiu de repente. Junto com os amigos baianos, foi para o Rio de Janeiro e gravou seu primeiro disco, “Domingo”, ao lado de Caetano Veloso. Antes disso, havia gravado uma música com a amiga Maria Bethânia, para o disco de estreia da santamarense. O último álbum de Gal Costa, “Nenhuma Dor'', foi lançado em 2021, onde regravou canções do seu vasto repertório com artistas masculinos da nova geração.

Sua voz marcante, com uma afinação impecável, fez com que todos prestassem atenção no que ela estava cantando de forma imediata. O crítico musical Marcelo Argôlo atribui a grande voz de Gal Costa ao que resultou neste legado que a artista deixou para a música brasileira.

“Esse timbre dela com uma capacidade de chegar em notas muito agudas, que na técnica vocal chamam de nota de cabeça, e nessas notas brincar com elas, rasgar, fazer aqueles movimentos vocais… Isso tecnicamente é muito difícil, uma grande habilidade. Ela tinha essa capacidade técnica muito apurada e ela juntava essa qualidade técnica com a capacidade de interpretação, que sempre foi muito emocionante. Isso é o grande diferencial dela e é o que a tornou uma grande artista”, afirma Argôlo.

Com uma discografia repleta de sucessos, Gal Costa se manteve autêntica e fiel aos seus discursos que embalaram as rádios, vitrolas e até mesmo os serviços de streaming. Discos como “índia”, “Legal”, “Gal Canta Caymmi”, “Profana”, “Água Viva”, “Gal Tropical” e “Gal A Todo Vapor” resumem a versatilidade e pluralidade de sua obra, que contou com grandes compositores da música brasileira.

Entre os destaques acima, o disco “Fa-Tal – Gal a Todo Vapor” (1971) é, sem dúvidas, um dos maiores e mais importantes trabalhos da soteropolitana. Gravado ao vivo – sendo este o primeiro disco duplo ao vivo da música brasileira –, o álbum é resultado de um dos shows mais antológicos que já passaram pelo país.

Gal Costa morre aos 77 anos: capa do álbum Fatal, lançado em 1971. (Foto: Reprodução)
Gal Costa morre aos 77 anos: capa do álbum Fatal, lançado em 1971. (Foto: Reprodução)

Nascido da parceria da cantora com o poeta Waly Salomão, que dirigiu o espetáculo, o show foi uma espécie de resposta para a mocidade da época que se sentia sem esperanças durante uma forte ditadura militar que já havia exilado Caetano Veloso e Gilberto Gil para a Europa. Naquele momento, Gal se tornou porta-voz daquela juventude que não concordava com os desmandos da repressão militar.

Argôlo define o show Fatal como um momento bastante específico para a carreira de Gal, justamente pelo fato de ela sempre estar próxima daquele grupo que surgiu no Teatro Vila Velha, antes de irem para o sudeste. “Era o momento em que Gil e Caetano estavam exilados, e ela de alguma forma era a representante, bastiã daqueles valores que tinham sido desenvolvidos, e daquela estética que tinha sido trabalhada na Tropicália”, explica.

Segundo o crítico, a artista estava trabalhando com uma série de elementos que até então ninguém tinha combinado, nem mesmo a Tropicália. “Com o suporte de Jards Macalé na direção musical, ela faz uma fusão que era inédita. Ela junta Bossa Nova com Rock and Roll de um jeito que a Tropicália ainda não tinha feito, sem aquela orquestração, com uma energia mais visceral mesmo, da contracultura, daqueles valores que marcaram a juventude dos anos 1970”, conta. “O que ela faz em 'Fatal' é abrir uma nova possibilidade de fazer música brasileira, com esses ruídos e misturas que não estavam sendo feitas antes” acrescenta.

Cinquenta anos depois, Gal apresentaria um show especial em comemoração a este espetáculo, que deveria ter acontecido no último dia 5 de novembro, no festival Primavera Sound, mas teve de ser cancelado devido a uma cirurgia para retirada de um nódulo do nariz, realizada em setembro, logo após aquele que foi seu último show, no festival Coala, em São Paulo. É possível assistir o show aqui.

Escola de canto de Gal

Presente naquele que foi o último show da baiana, o produtor cultural e relações públicas Pedro Progresso lembra de como foi aquela noite. “Ela estava maravilhosa, recebeu convidados da nova geração, afinada como sempre, mas de alguma forma mais firme, altiva. Faltava pouco para o primeiro turno das eleições e tudo que ela cantava ganhava um sentido muito mais forte. Ela sentia isso e cantava com muito mais força”, conta.

Fã de Gal Costa, Pedro Progresso posa com o disco
Fã de Gal Costa, Pedro Progresso posa com o disco "Cantar", de 1974 (Foto: Arquivo pessoal)

Pedro se recorda também que Gal é a voz que ouve desde o berço. A cantora foi presença constante na vitrola da casa dele. Tinham quase todos os discos, segundo lembra. “Nos carnavais que fazíamos na sala era de lei o “Carnaval de Gal”. Meu primeiro apego consciente foi o disco de 1969, o de “Baby” e “Namorinho de Portão”. Ouvia todo dia quando chegava da escola. Era Rock, Jovem Guarda, Bossa Nova, Tropicalismo, modernidade e invenção. Cresci com essa voz e ela é minha trilha até hoje”, afirma.

Sua graduação em Produção Cultural foi culminada, inclusive, com uma monografia sobre a cantora. Na ocasião, Pedro fez um trabalho onde tentou explicar a escola de canto de Gal dividido em três partes. “Para mim, são as fontes dessa escola: a modernidade do canto ‘joãogilbertiano’ e potencializada pelo procedimento tropicalista; a mulher, com o timbre e a emissão, o dengo e a baianidade de Caymmi e também o repertório da mulher dedicado a ela por Chico Buarque; e, por último, o contemporâneo, onde cruzava as presenças de Gal, Elza e Juçara Marçal com obras extremamente políticas e que traduzem nosso tempo”, explica Pedro.

O advogado Sleiman Hage lembra que conheceu Gal aos 19 anos, através de Maria Bethânia, que ele já era fã. A paixão foi tão forte que ele cita um famoso discurso de Tom Zé ao se referir a Gal Costa para exemplificar esse amor: “Me arrebato por ela, me arrebento por ela e me desarrumo por ela”.

Gal Costa autografa cópia do álbum
Gal Costa autografa cópia do álbum "A Pele do Futuro", do fã Sleiman Hage (Foto: Arquivo pessoal)

O primeiro show ao vivo que viu de Gal Costa foi em 2012, para o que viria ser a turnê do álbum “Recanto”. “Ainda não era nem chamado assim. Depois ela grava o disco e roda o Brasil com essa turnê”, se recorda. Desde então, viu todas as turnês da cantora. Já o primeiro show de Pedro foi em 2005, com a turnê “Hoje”, quando tinha 15 anos. Depois disso, perdeu as contas de quantos shows da cantora ele assistiu.

Encontro de Sleiman Hage, segurando o disco
Encontro de Sleiman Hage, segurando o disco "Gal Estratosférica" com Gal Costa (Foto: Arquivo pessoal)

Para Sleiman, o legado de Gal Costa vem desde o início da carreira dela, pois, segundo ele, a baiana “sempre transcendeu o cantar”. Sleiman explica que “o cantar dela sempre foi sincronizado com um momento político, um momento social, uma voz para além de ser uma voz da música, mas uma voz da cultura, uma voz da nossa força, da nossa expressão. Tanto que durante toda a carreira gritou nos palcos o que nós gostaríamos de ter voz e alcance pra gritar”.

Os Doces Bárbaros

Um outro grande momento da carreira de Gal Costa aconteceu em 1976, quando se juntou novamente com os amigos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia para uma turnê pelo país em comemoração aos 10 anos de carreira de cada um deles. Sob o título de Doces Bárbaros, o quarteto fez uma grande festa e levou músicas inéditas para shows lotados, o que rendeu um álbum ao vivo e um documentário, “Os Doces Bárbaros” (1976), de JomTob Azulay, registrando os bastidores dessa turnê.

Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Gilberto Gil (Foto: Divulgação)
Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Gilberto Gil (Foto: Divulgação)

Pedra fundamental na obra de todos os quatro, o impacto dessa união é ainda hoje tão grande que sempre que estavam juntos os pedidos para uma reunião surgia. Fagulhas de esperança eram lançadas cada vez que um deles se mostrava disposto a um novo encontro enquanto grupo. Agora, o desejo fica apenas em sonhos.

Voz de grandes compositores das gerações

Apesar de não ser conhecida como compositora, Gal Costa sempre soube se aliar a grandes autores do seu tempo. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento são os maiores colaboradores da cantora, que já gravou dezenas de canções dos mesmos. Mas Gal sempre foi jovem, mesmo nos seus 70 anos. Seus últimos discos de inéditas, “Estratosférica” e “A Pele do Futuro”, trouxeram nomes de compositores como Mallu Magalhães, Tim Bernardes e Silva para o rol de compositores que já se aliaram a ela.

Dos seus contemporâneos, talvez seja a que mais soube se aproximar dos mais jovens e atualizar as plateias que antes eram frequentadas por pessoas mais velhas. Ir a um show de Gal Costa era ver de perto todo o choque geracional que somente a música dela entendia tão bem. Rebelde, transgressora e fatal, Gal gritava e exigia todo tipo de coisa com seu trabalho. Era urgente e "fullgás", portanto todos paravam para lhe ouvir.

“Ela foi uma cantora que soube estar sempre muito atenta ao meio, as produções, as formas de produzir música que variaram muito durante esses quase 60 anos de carreira. Sempre muito atenta aos compositores, ela gravou Ary Barroso, Noel Rosa, Caetano, Chico Buarque, Gil, fez um disco em homenagem a Caymmi e recentemente gravou Tim Bernardes, Mallu Magalhães, artistas de uma geração que têm idade para ser netos dela. Ela sempre teve esse olhar muito próximo, atento e acolhedor para os artistas novos”, explica o crítico musical Marcelo Argôlo.

Ele acrescenta que ela nunca teve um gênero musical específico, uma estética de arranjo e instrumentação específicos, deixando-a sempre atenta ao que havia de novo e incorporando essas novidades ao trabalho dela. “Essa característica fez com que ela sempre estivesse em diálogo com a juventude”, ressalta Argôlo. “A partir dos anos 1970, que ela se consolida como uma das maiores cantoras do Brasil e passa a fazer uma música sempre voltada a explorar novos recursos, gravar novos compositores, e abordar temas que estão na agenda atual, ela manteve esse diálogo”, complementa.

Gal sai de cena e deixa uma nuvem negra que paira sobre a música, lembrando a todos que foi muito mais do que a voz do Tropicalismo e musa do desbunde, mas a personificação de liberdade para uma geração que ainda hoje a enxerga como o símbolo da rica e abundante cultura brasileira.