Galeria a céu aberto: novos grafites invadem a cidade e ajudam a transformar as vidas de crianças e jovens

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RIO — Transformar é um dos superpoderes da arte, e é o que ela tem feito em ruas da Zona Sul. De paredes cinzas e sem graça, surgem murais coloridos e impressionantes, que renovam não só o concreto, dando vida aos lugares onde estão inseridos, mas principalmente as pessoas que são alcançadas pelos desenhos. Além dos artistas por trás deles, os primeiros impactados, afirmam eles.

Quem costuma transitar pela Rua da Passagem, em Botafogo, mesmo que apressado, deve ter reparado que a via ganhou esse colorido especial. Difícil não se encantar com a pintura de aproximadamente oito metros de altura criada pelo artista Thiago Molon em homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, marco simbólico do modernismo no Brasil, e que será comemorado a partir de fevereiro.

Finalizado no mês passado, o painel chama a atenção para os projetos sociais e culturais desenvolvidos nas favelas, que levam jovens a enxergarem novas perspectivas de vida por meio da música.

Molon é nascido e criado no Morro do Vidigal e teve seu projeto escolhido pela Fundação Astrojildo Pereira, patrocinadora da intervenção urbanística.

O desenho modernista traz uma artista negra tocando seu violoncelo, de chinelos, como protagonista, e inserida no contexto da favela. Estão presentes as casas sem reboco e outros elementos típicos da comunidade, como a caixa-d’água e o botijão de gás.

— Realizar essa pintura foi gratificante, ainda mais depois de um bom tempo afastado das ruas devido à pandemia. Além de colorir o caminho de tanta gente homenageando o centenário da Semana de Arte Moderna, o mural destaca a importância de projetos que transformam a vida de pessoas em comunidades. Não sei se, lá atrás, Villa-Lobos, que prezava o ensino musical nas escolas, imaginaria que esses instrumentos, ainda considerados da burguesia, estariam espalhados por tantas favelas. Uma orquestra das lajes e dos becos sendo levada mundo afora — afirma Molon, ressaltando que na pintura a música representa todos os campos da arte dentro das comunidades.

A execução do painel durou cinco dias e foi feito com tinta para piso e alguns traços de spray. Molon criou ainda outra pintura em frente, como um bônus para a população: o “Mural das galinhas”, como ele carinhosamente o chama. O painel, que também tem cerca de oito metros de altura, foi inspirado na série de gravuras “Tropical fundo de quintal”, assinada pelo artista e que retrata vivências de quintais das periferias.

Obras democráticas para contemplar e fotografar

Além de murais, Thiago Molon, de 31 anos, pinta quadros e faz esculturas de papel, em seu ateliê, no Vidigal. O artista é filho de um paraibano com uma capixaba que vieram morar no Rio em busca de melhores condições de vida. Ele, porteiro; e ela, empregada doméstica. Tornaram-se motoristas de transporte escolar, e assim Molon ganhou bolsa para estudar em boas escolas, incluindo a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde formou-se em Design Gráfico.

— A arte transforma vidas, transformou a minha, por isso a importância de proporcionar oportunidades para os jovens. As minhas principais inspirações para criar são meus pais e suas origens e as pessoas da favela — frisa.

Outra via em Botafogo também foi contemplada por um extenso mural, a Rua Miranda Valverde. Os muros da escola Favinho & Mel ganharam uma pintura em 3D, assinada pelo artista David Smith.

O painel retrata de forma lúdica crianças brincando e em contato com a música e a natureza. Folhas de papel e uma janela parecem sair da pintura. Um tronco pintado também ganha vida com galhos de uma árvore de verdade, localizada no interior da instituição. Nos detalhes, elementos de vários campos da arte, esporte e natureza, ao lado de abelhas e favos de mel.

— Quis retratar a leveza das crianças, pois temos muito a aprender com elas, os saberes que perdemos no decorrer da vida. Alinhada com a filosofia da escola, de estimular o contato com a natureza e a expressão artística — explica Smith.

Ele acrescenta ainda o sentimento de realização que o trabalho lhe causou:

— A oportunidade de fazer esse mural me acrescentou muito, e eu fiquei bastante feliz com o impacto positivo que ele causou. É uma arte interativa, viva, em que as pessoas podem contemplar e fotografar.

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Autodidata, o artista de 24 anos, morador da Baixada Fluminense, ressalta que o grafite é uma arte democrática.

— O morador de rua e um grande empresário podem contemplar a mesma arte. Procuro sempre colocar nos meus desenhos os meus sentimentos, o que eu aprendo e quero aprender, o que eu acredito, a minha fé. E transmitir a esperança em dias melhores — observa Smith.

O artista, que já teve um painel de grafite em exposição no Museu de Arte do Rio, também pinta quadros. Neles, seu estilo segue a linha do realismo.

Projeto realiza mapeamento on-line dos painéis do Catete

Pegue a visão: a comunidade Pedro Américo 715, no Catete, ganhou uma galeria de arte a céu aberto. Por iniciativa do gestor cultural Jaxwell dos Santos Nascimento, nascido e criado no local, 59 artistas urbanos fizeram grafites e levaram cor a muros outrora cinzas. E, de quebra, alegria para os moradores.

— Fiquei feliz por ter podido levar um pouquinho de cor, luz e cultura para os olhos de crianças e adultos da comunidade, do tiozinho mais velho ao molequinho mais novo — diz.

Ele é o fundador do movimento TTK, um conjunto de iniciativas para unir moradores, instituições e o poder público em prol do bairro em que vive. E, por acreditar no poder transformador da arte, idealizou o projeto C.R.I.A. (Cultura de Rua Impulsionando Adolescentes).

— Os jovens da comunidade adoram rap, funk, skate, grafite. Não queria deixá-los de bobeira nas ruas. A intenção é dar um sentido à vida deles — afirma Nascimento, que é sócio da produtora cultural Urbanamente.

Por meio do projeto, ele proporcionou uma oficina de audiovisual de um mês e meio a quatro jovens de 18 a 24 anos da comunidade. Além de aprenderem a filmar, fotografar e editar, os alunos mapearam mais de cem grafites do bairro.

Os quatro alunos ganharam uma bolsa para fazer faculdade de Audiovisual na Estácio através do C.R.I.A.. Um deles, Naor Moraes, de 22 anos, conta que o projeto lhe deu uma perspectiva de vida.

— Na pandemia, não tinha o que fazer além de ficar em casa. O C.R.I.A. me abriu um horizonte de possibilidades, uma visão que não existia em mim. E os grafites provocaram uma mudança direta no nosso dia a dia. Agora, sinto alegria e orgulho nos rostos dos moradores da comunidade — relata o jovem.

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