Gari é morto com tiro nas costas ao sair de casa, na Vila Cruzeiro, para trabalhar

Marcos Nunes
·3 minuto de leitura

RIO — Funcionário da Comlurb desde 2010 e morador da Vila Cruzeiro, na Penha, na Zona Norte do Rio, o gari Marcelo de Almeida da Silva, de 38 anos, sonhava em mudar da comunidade para fugir da rotina de violência. Neste domingo, dia 31, ele esperou o fim de um tiroteio para sair de casa e seguir para o trabalho, na Ilha do Governador. Usando uma mochila e um boné, ele deu os primeiros passos, mas não conseguiu ir muito longe. Em uma das ruas da Vila Cruzeiro, Marcelo foi atingido por um tiro nas costas.

Levado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, ele não resistiu ao ferimento e morreu. Segundo a família do gari, ele foi deixado no hospital por uma equipe da Polícia Militar, que teria alegado ter encontrado Marcelo caído em rua após sofrer uma convulsão. Parentes do gari desmentiram a versão e disseram que um cartão de crédito e o dinheiro que a vítima levava na mochila, simplesmente desapareceram.

— Isso (ter sofrido uma convulsão) é mentira! No hospital fui informado que ele tinha um buraco de bala nas costas e que os PMs que levaram ele pra lá disseram ter achado meu irmão após ele sofrer uma convulsão. Alguém ainda levou a mochila dele com dinheiro e o cartão de crédito. Meu irmão era trabalhador e deu entrada no hospital como indigente, sem qualquer documento. Ele trabalhava desde os 14 anos. Acertaram ele de longe, sem qualquer chance de defesa. Acharam que ele era bandido só porque estava de boné e mochila. Nossa família está indignada e revoltada — disse o também gari Arnaldo Almeida da Silva, de 43 anos, irmão de Marcelo.

Segundo Marcelo Almeida da Silva Júnior, de 20 anos, um dos dois filhos do gari assassinado, ele ouviu tiros cerca de três minutos após seu pai sair de casa. Imediatamente, ligou para o telefone do funcionário da Comlurb, mas a chamada não foi atendida. Pouco depois, uma ligação vinda do celular do gari, feita por uma pessoa que estava no Hospital Getúlio Vargas, informou que seu pai estava morto.

— Meu pai esperou o tiroteio acabar para sair de casa e ir trabalhar. Uns três ou quatro minutos depois que ele saiu, eu escutei tiros e fiquei preocupado. Liguei, mas ele não atendeu. Achei aquilo estranho. Depois, ligaram para meu tio dizendo que meu pai estava morto no hospital — contou Marcelo Júnior.

A família esteve, nesta segunda-feira, dia 1º, no Instituto Médico-Legal do Rio para tratar da liberação do corpo do gari. O filho e o irmão de Marcelo Almeida da Silva mostraram a blusa que a vítima usava, suja de sangue e com um buraco de uma bala. Para os parentes, o tiro que matou a vítima partiu de uma arma usada por um policial.

— Pra gente o tiro veio da polícia. Não havia mais confronto quando ele foi baleado. Tanto que meu irmão esperou o tiroteio acabar para sair de casa — disse Arnaldo.

O gari deve ser enterrado nesta terça-feira, dia 2, em local que ainda será definido pela família. Ele deixa dois filhos, um de 20 anos e outro de 9 anos.