Gari pedala 18 km para poder trabalhar na Zona Norte do Rio

Letycia Cardoso e Natalia Boere
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Frank Baldez, o gari que pedala 18 quilômetros para chegar até a estação de trem de Japer e ir ao trabalho até Vila Isabel, seu posto na Comlurb

Uma da manhã, o despertador de Frank Baldez toca. É quando começa a jornada do gari de 50 anos, que mora em Conrado, terceiro distrito de Miguel Pereira, na região serrana do Rio. Diante da suspensão da linha Arcozelo X Japeri, por conta da pandemia, o trabalhador se viu obrigado a pedalar 18 quilômetros para chegar até a estação de trem de Japeri. No Maracanã, pega um ônibus e só às 6h chega a seu posto de trabalho da Comlurb, em Vila Isabel. Na barriga, banana da terra, bolinhos de chuva e aipim, um café da manhã reforçado que a mulher dele, a dona de casa Andrea Baldez faz questão de preparar.


- Chego no trabalho e peço a Deus que me faça ganhar o sustento do dia tranquilo. Só estou conseguindo dar conta da maratona porque, pela escala da Comlurb durante a pandemia, dou expediente dia sim e dia não. Fico muito cansado; só sinto as pernas quando deito na cama. Mas me sinto responsável pela vida das pessoas. Limpeza é questão de saúde pública - afirma ele, que larga o serviço às 13h30 e só almoça quando chega em casa, por volta das 18h. - Cuido das plantas, fico com meus cachorros e, às 20h, vou dormir.

A determinação e o esforço de Frank não são de hoje. Para conquistar o emprego na Comlurb, onde trabalha há 15 anos e ganha dois salários mínimos por mês, o gari conta que dormiu na fila de inscrição do concurso. Tudo para garantir que os filhos, a agrônoma Fabiana Baldez, de 29 anos, e o estudante de Educação Física Cayque Baldez, de 25, tivessem acesso à universidade.


- Só estudei até a quinta série, faço serviço braçal desde os 16 anos. Comecei como moldador em uma metalúrgica, fui frentista. Tenho muito orgulho do meu trabalho, ele me permitiu realizar meus sonhos, que eram comprar a minha casinha e formar os meus filhos. Mas queria que eles tivessem uma oportunidade de futuro melhor - conta Frank.

 


O gari é responsável pela coleta no Morro dos Macacos, comunidade em Vila Isabel. Conta que a quantidade de lixo dobrou na quarentena e que, não raro, tem que coletar no chão a sujeira que transborda da caixa coletora.


- Gosto de fazer um serviço bem feito e receber elogio. Chegar em casa com a consciência tranquila - afirma ele, contando, orgulhoso, que já recebeu medalhas da Comlurb pelo bom desempenho. 
Frank diz que tem trabalhado com os equipamentos de proteção necessários para se proteger do coronavírus. Reclama apenas da falta de suporte para o deslocamento dos trabalhadores de serviços essenciais. Ele gasta dez horas por dia em trânsito.


— Acho que deveria ter um ônibus para transportar apenas os garis, policiais, guardas municipais e enfermeiros. Todos os dias pego uma estrada escura e sem acostamento. Um perigo! Não falto o trabalho porque sei que a limpeza vem em primeiro lugar. Como os médicos fariam o trabalho deles se os hospitais estivessem sujos?

Em nota, o governo estadual afirma que as linhas que ligam os municípios do interior aos da Região Metropolitana foram suspensas até 31 de maio, conforme o decreto 47.068, como forma de conter o avanço da Covid-19. Diz ainda que compreende as dificuldades geradas a diversos trabalhadores por conta das medidas restritivas impostas no momento. E que tais ações, além de temporárias e sob avaliação permanente, têm o objetivo maior de desacelerar a Covid-19 no estado e manter a população fluminense em segurança.