Garis fazem sucesso na internet com samba de Candeia e cavaquinho encontrado no lixo

Geraldo Ribeiro
Kleber, Diogo e Clevinho: garis sambistas bombam nas redes sociais

Um vídeo despretensioso gravado por três garis cantando o samba “Mil réis”, de Candeia e Noca da Portela, já foi visto por mais de 300 mil pessoas em menos de uma semana. Batizado de "Faxina no samba", a gravação postada no sábado acumulava mais de 27 mil curtidas e 4 mil compartilhamentos até o começo da tarde desta quinta-feira. A repercussão surpreendeu os amigos Diogo Francisco, de 35 anos, Kleber Costa, de 44 e Cleverson Lacerda, de 47, que trabalham na Gerência da Comlurb no bairro do Estácio, na região central do Rio.

— Foi uma grande surpresa e compensador saber que o pessoal curtiu— afirmou Diogo, que na gravação que está bombando nas redes sociais assumiu o vocal.

Ele contou que o vídeo tinha sido gravado uma semana antes de ter sido postado e começou a repercutir depois de compartilhado por Ito Melodia, intérprete da União da Ilha, sendo que após ir parar numa página especíalizada em samba é que viralizou.

Entre as milhares de pessoas que registraram seus comentários na postagem, uma delas chama a atenção: Selma Candeia, filha de um dos compostores do samba interpretado pelos garis, que se mostou emocionada com a homenagem ao seu pai:

“Que coisa lindaaa! Obrigada. Se eu fiquei emocionada, imagino o velho lá em cima! Amei rapaziada da pesada”, escreveu.

Diogo Percussão, como o gari Diogo é conhecido no meio do samba, integra com os outros dois colegas o grupo Saracoteando, que toca samba de raiz em rodas pelo Rio. Porém, o trio que já tocou em palcos nobres da Lapa como Beco do Rato, Carioca da Gema e Baródromo nem em sonho imaginava que um dia teria uma plateia tão grande, como a das redes sociais. Os três contaram que costumam fazer uma espécie de “aquecimento” ao som de samba sempre no início de cada jornada.

— Foi assim que surgiu o vídeo. Música pra mim é tudo — definiu Cleverson Lacerda, de 47 anos, o Clevinho, que na gravação toca cavaquinho.

Aliás, o instrumento também tem uma história à parte, relacionado ao trabalho dos garis sambistas. O cavaquinho foi encontrado no lixo numa das idas e vindas dos três pela cidade. Estava abandonado numa caçamba no Leblon, na Zona Sul, sem o cavalete e as cordas. Devidamente reformado virou uma espécie de talismã do grupo.

Quando não estão envolvidos nos trabalhos de limpeza nem nas rodas de samba, os três amigos engrossam o grupo Chegando de Surpresa, formado por garis da Comlurb que levam conscientização para a população sobre as ações da limpeza urbana por meio da música. O samba é praticamente a segunda profissão de todos eles.

Kleber Costa, ou Kleber Pixote, que no vídeo aparece fazendo o acompanhamento com palmas, toca cuíca na bateria do Império Serrano e da Vila Isabel, além de assumir o surdo de terceira na banda da Bola Preta. O morador de Anchieta está há nove anos na Comlurb. Cleverson, que tem 17 anos como gari e é de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, toca cavaquinho, banjo, violão e percussão, com atuação em escolas com a Beija-Flor de Nilópolis e Grande Rio.

Diogo, morador em Pau Grande, era baterista quando entrou para a Comlurb, há 15 anos. Nas horas de folga dá aulas de percussão. O gari músico se orgulha de já ter tocado com Beth Carvalho, Luiz Carlos da Vila e Luiz Melodia. O contato com o samba veio cedo. O pai também era sambsita e a mãe, cozinheira de Agepê. Casado com uma neta do craque Garrincha, sonha ver decolar o Saracoteando, grupo que agrega outros trê integrantes não garis.