Garotos do Ninho: como está a única família que não fez acordo com Flamengo, dois anos depois de incêndio

Diogo Dantas
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A dor vai dando espaço à saudade. Quando vê Hugo no gol do Flamengo, Andreia de Oliveira lembra do potencial do filho Christian Esmério, goleiro que treinou junto com o atual titular e tinha passagem por seleção de base. Mesmo dois anos após o trágico incêndio no Ninho do Urubu, completos hoje, ela resiste a um acordo financeiro, ao lado do pai do garoto, Cristiano, apesar dos apelos recentes do clube para fechar com a última família restante.

— Hoje posso dizer que sinto mais saudade. Saudade de ter a presença do meu filho. No primeiro ano, a gente não conseguia aceitar. Vejo os meninos que jogavam com ele crescendo e penso em como estaria agora. Dói muito — diz Andreia.

Todos os outros nove jovens mortos já tiveram ao menos um representante convencido pelo Flamengo a aceitar os valores de pensão e indenização. A mãe de Rykelmo Viana é a única que foi à Justiça. Os pais de Christian aguardam o fim das investigações para seguir o mesmo caminho. E pensam no legado do filho.

Hoje, um projeto social será inaugurado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, em homenagem ao ex-goleiro e a Samuel Thomas Rosa, cujos familiares chegaram a um acordo com o Flamengo no meio do ano passado. Com foco no esporte e em educação, a ideia é que os pais também atuem juntos a crianças carentes para que elas tenham a chance de realizar o sonho que seus filhos não conseguiram. A atividade é uma forma de os próprios pais superarem o luto.

— Desde que meu filho morreu evitei fazer planos. Não consigo pensar na frente. Mas vou atuar no projeto. Ajudar a realizar o sonho e criar esperança em outros jovens, para acreditar que podem chegar até mais longe. Infelizmente o Flamengo interrompeu o sonho do meu filho — desabafa Andreia.

Demitida do trabalho como frentista, ela se segurou com apoio psicológico pago pelo Flamengo, mas nos últimos meses o contato não foi mais presencial. Parentes e amigos próximos também só deram suporte à distância. O luto em tempos de pandemia foi um desafio à parte.

— Esse ano foi mais difícil do que a gente imaginava. Acabamos tendo que ficar isolados. Era o ano que a gente esperava conseguir passar melhor, depois do primeiro, conviver melhor com a perda. Não tivemos com quem conversar, um abraço — relata Andreia, que sente o progresso com a terapia por videochamada, mas, ao ficar “presa” em casa, se pega mais deprimida e cabisbaixa.

— É mais difícil. Você fica pensando mais — relata.

Grupo de apoio

O pai do ex-goleiro, Cristiano, se diz sem tempo e sem vontade para falar sobre a tragédia. Mantém o foco no trabalho, enquanto divide com a ex-mulher o valor de R$ 5 mil pago pelo Flamengo para quem ainda não fechou acordo. O valor foi reduzido à metade por decisão judicial. Os diálogos sobre a perda e a indenização são escassos. Surgem por exemplo quando há novidades nas investigações, como o indiciamento de dirigentes feito pelo Ministério Público e aceito pela Justiça do Rio, entre eles o do ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello, e do ex-gerente da base, Carlos Noval.

— Graças a Deus, mesmo devagar, é isso que conforta — admite Andreia.

Mas o ano da saudade foi também de renovação. A família ganhou um netinho de seu filho mais velho. Aos dois meses, Gael faz os avós focarem a atenção em uma nova vida, que não substituiu a que se foi, mas desvia a dor quando ela vem forte, segundo Andreia. Outra forma de dividir o peso do luto é no grupo de pais das vítimas. Mesmo quase todos tendo fechado acordos com o Flamengo, as perdas são comuns e o sofrimento é compartilhado, nunca as questões financeiras.

— Ninguém nunca interferiu em relação a isso com o outro. Cada um tomou sua própria decisão. Eu e Cristiano não temos a ideia de fazer nada parecido — reafirma Andreia.

O advogado Marcio Costa, que dá respaldo à família de Christian, disse que o Flamengo tentou contato direto com o pai do jovem para oferecer um acordo. E que Cristiano e Andreia levam a vida como possível:

— Estão levando uma vida, dentro do possível, normal. A mãe até hoje com tratamento psicológico, o pai trabalhando normalmente, mas ambos não aceitaram a proposta do Flamengo e vão aguardar a decisão da Justiça. O Flamengo ainda, através de um de seus diretores, foi direto aos pais e tentou convencê-los do acordo, ultrapassando qualquer tipo de ética — lamentou.

Até o momento, o Flamengo chegou a acordo com familiares de Samuel, Athila Paixão, Bernardo Piseta, Gedson Santos, Jorge Eduardo, Vitor Isaias, Arthur Vinicius, Pablo Henrique e com o pai de Rykelmo. Em dezembro, o vice-jurídico Rodrigo Dunshee falou sobre o diálogo com os pais de Christian.

— A mãe discordava de algumas coisas que o clube fez, houve mal-entendidos, coisas em que ela tinha razão, pedi desculpas, estamos no caminho de uma conciliação. A distância é difícil, mas agora estamos mais próximos — disse.