De Garrincha a Senna: relembre funerais que marcaram o esporte

Maior atleta de todos os tempos, Pelé será velado a partir desta segunda-feira, às 10h, na Vila Belmiro, e sepultado terça, no Memorial Necrópole Ecumênica, também em Santos. São aguardados torcedores, jogadores e ex-atletas, parentes, amigos e autoridades para as últimas reverências ao Rei do Futebol. Ao longo das décadas, diversos nomes do esporte tiveram despedidas gloriosas, alguns foram esquecidos e outros receberam homenagens aquém do brilhantismo que proporcionaram.

Há três décadas, o Brasil se despedia do grande companheiro de Pelé na seleção — jogando junto, a dupla jamais perdeu um jogo pela canarinho. Mané Garrincha, falecido aos 49 anos, em 20 de janeiro de 1983, foi enterrado na tarde do dia seguinte, no cemitério de Inhomirim, distrito da cidade fluminense de Magé, onde o corpo era aguardado por milhares de pessoas, muitas aglomeradas sobre os túmulos.

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Nos 80 quilômetros que separam o Maracanã, onde Garrincha foi velado, do cemitério, o povo se apinhava em calçadas e passarelas e saudava o Anjo das Pernas Tortas com cantos de “está chegando a hora” e “ei ei ei, Garrincha é nosso rei”, atirando flores e aplaudindo o cortejo.

A confusão foi tamanha que a missa programada para a igreja de Pau Grande não chegou a ser rezada devido à invasão popular, que venceu todas as tentativas de controle da polícia. Na chegada do corpo a Magé, a programação inicial foi mudada porque o povo tomou o caixão e foi passando de mão em mão até, enfim, o sepultamento.

“O povo aplaude, canta e chora: uma festa no adeus a Garrincha”, destacou O GLOBO de 21/1/1983. “Do instante — às 8h40 — em que o cortejo deixou o Maracanã até a hora em que chegou — às 12h30 — no cemitério de Vila Inhomirim, o homem da rua cantou e aplaudiu. Foi o cortejo da alegria, da alegria do povo”, continuava.

Ocaso das estrelas

A festa nas ruas no adeus a Garrincha, naquele janeiro de 1983, contrastava com o triste fim da estrela. Convivendo com o alcoolismo desde os tempos de jogador, o craque teve seus últimos anos marcados por confusões policiais por violência doméstica à esposa Elza Soares, a letal mistura de álcool e remédios, ganho e perda de peso e tentativas frustradas de jogar.

Por causa das dificuldades financeiras, o velório e o enterro foram custeados pelo cantor Agnaldo Timóteo (1936-2021), botafoguense de carteirinha, que à época precisou ser consolado por Nilton Santos tamanha sua tristeza.

Mas nem tudo foi festa. Ex-companheiros de Garrincha e ídolos do passado demonstraram emoção, mas também revolta pela ausência de craques do presente. “Se hoje temos jogadores com altos salários, em parte, isso é devido ao Mané. Infelizmente, as pessoas esquecem tudo muito depressa. Ou não dão valor”, esbravejou Nilton Santos nas páginas do GLOBO. “Só não foi ao Maracanã quem não quis. Isso prova que o jogador brasileiro não tem sentido de classe”, reclamou o ex-zagueiro Brito, campeão no México-1970.

Duas décadas antes, outro ídolo do Botafogo não foi lembrado nem por jogadores, nem pelo povo. Depois de quase cinco anos de internação em Barbacena (MG) por causa da sífilis terciária que lhe corroeu a saúde mental, Heleno de Freitas foi sepultado na pequena São João Nepomuceno, onde nasceu, esquecido e longe dos holofotes que o consagraram na década de 1940.

Já em 5 de maio de 1994, o sepultamento do piloto Ayrton Senna, morto em acidente no GP de San Marino, em Ímola, levou meio milhão de pessoas às ruas de São Paulo.

“Cem horas de sofrimento do povo brasileiro, iniciadas na manhã de domingo, com um estúpido acidente em Ímola, tiveram seu momento culminante ontem, às 12h30, quando o maior piloto de corridas de todos os tempos foi enterrado no cemitério do Morumbi, em São Paulo”, destacava a manchete do GLOBO no dia seguinte ao enterro.

O corpo de Senna chegou ao cemitério depois de um cortejo de 17 quilômetros. O caixão era carregado por astros do automobilismo: Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, Gehard Berger, Raul Boesel e Alain Prost, que chegou a afirmar que “em homenagem a Ayrton, nunca mais me sentarei num carro de Fórmula 1”.

Não foi apenas São Paulo que se mobilizou para se despedir de Senna. No Rio, às 11h, os bondinhos do Pão de Açúcar pararam e pétalas foram lançadas sobre a Baía de Guanabara. Outras homenagens ocorreram em todas as partes do país.

Despedidas

Outra morte inesperada marcou aquele 1994. Poucos dias antes da partida de Senna, o jogador Dener dormia no banco de carona quando seu carro se chocou com uma árvore, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, matando o jogador do Vasco com apenas 23 anos. Mais de 10 mil pessoas foram ao velório, no Canindé, estádio da Portuguesa-SP.

Nos últimos anos, outros craques dos gramados também foram velados e sepultados, com aglomerações menores, mas sob homenagens da torcida. Em 2001, Didi foi velado em General Severiano e enterrado no cemitério São João Batista, onde, no ano seguinte, Dida, ídolo do Flamengo, foi sepultado com muitas palmas. No mesmo ano, Zizinho partiu com homenagens em Niterói.

Na sede do Botafogo, outros nomes marcantes do alvinegro receberam o último adeus, como Nilton Santos, em 2013, e Valdir Espinosa, em 2020.

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Em 2016, o corpo de Carlos Alberto Torres, o capitão do tricampeonato no México, fez o cortejo da sede da CBF até o cemitério do Irajá em carro do Corpo de Bombeiros também exaltado pelos fãs.