Gaslighting, goblin mode e permacrisis: o que as ‘palavras do ano’ dizem sobre nós

Até pouco tempo, a eleição da “palavra do ano” por alguns dos dicionários mais importantes do mundo, como o Dicionário de Cambridge ou o Merriam-Webster, era assunto mais de acadêmicos e professores. Nas últimas semanas, as discussões nas redes após o anúncio de alguns dos vocábulos mais buscados em 2022, como goblin mode ou gaslighting, elevaram os termos ao patamar de fenômeno pop. Tamanha popularidade pode sinalizar que as palavras ultrapassaram os limites das definições dos dicionários para nos dar dicas sobre como caminha a Humanidade.

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As palavras do ano são escolhidas a partir de pesquisas sérias conduzidas por algumas das principais universidades do mundo. São levados em consideração os números colhidos por programas de computador capazes de monitorar as expressões mais usadas na língua inglesa em várias plataformas, das redes sociais aos livros, passando por cinema, TV, música e imprensa.

Zona de conforto

A expressão goblin mode foi uma das mais usadas no ano, segundo o “Dicionário Oxford”, publicado pela Universidade de Oxford. Em tradução livre, o “modo duende” descreve um estado de desânimo e de rejeição de convenções sociais, como a ideia de que o trabalho incansável resulta em sucesso profissional.

— O “modo duende” foi uma das expressões que mais chamaram a minha atenção na lista deste ano — diz Michel Alcoforado, mestre em Antropologia do Consumo. — A vontade de fazer nada, sem motivo algum, contrapõe o conceito do “ócio criativo” sugerido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, que defendia a ideia de que um período de inatividade era necessário para que se produzisse mais e melhor depois. No “modo duende” não existe essa preocupação. É ficar na zona de conforto porque o mundo real já está desconfortável demais.

Entre as alegadas 19 bilhões de palavras registradas pelos computadores de Oxford, também chegaram à lista tríplice final da instituição a hashtag “#Istandwith” (algo como “eu apoio...”) e “Metaverse”, em referência ao universo on-line, fortalecido durante o período de isolamento social causado pela Covid-19.

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A ideia de um certo desânimo ou preguiça parece também se relacionar com as palavras apontadas pelo Dicionário Collins, publicado pela editora HarpersCollins, com sede na Escócia. Entre as finalistas, figura a expressão quiet quitting, que descreve a atitude de apenas cumprir o mínimo necessário no trabalho.

No entanto, a vencedora como palavra do ano para os editores foi “permacrisis”, que descreve um “estado prolongado de insegurança e instabilidade causado por uma sequência de acontecimentos catastróficos”. Será que é preciso explicar?

— Nosso projeto de vida prevê uma determinada organização para chegar a algum lugar, mas esta palavra nos lembra de que estamos num mundo marcado pela imprevisibilidade. Em 2022, aprendemos que nada está garantido — avalia Alcoforado.

O Dicionário Merriam-Webster, publicado desde 1831 nos EUA, decretou gaslighting como a palavra do ano recém-terminado. A decisão surgiu a partir do registro do aumento de 1.170% nas buscas pela expressão no site do dicionário em 2022. A justaposição dos vocábulos “gas” (“gás”) e “lighting” (“iluminação”, em tradução livre) apareceu pela primeira vez em 1944 no título de um filme de George Cukor, levando para a telona a história de um homem que, às escondidas, mexia na iluminação da casa para convencer sua mulher de que ela estaria ficando “louca”. O termo popularizou-se, o substantivo virou verbo e passou a ser usado para descrever a manipulação de pessoas e de grupos. Alguém falou em fake news?

— O inglês é uma língua muito móvel, que permite mudanças rápidas, diferentemente do português, que demora mais para incorporar neologismos — explica o linguista e professor da Universidade Federal de São Paulo Marcello Marcelino. — No caso desta palavra, ela certamente foi reativada por conta deste momento em que a desinformação nos assombra por tantos lados.

Retrospectiva: os destaques e tendências da cultura digital

Alguns sites também se aventuram na eleição de termos significativos para o espírito do tempo em que vivemos. O dictionary.com, por exemplo, elegeu woman (“mulher”) como a palavra do ano. O site defende a escolha devido ao aumento de cerca de 1.400% nas buscas em 2022. No site do dicionário, os editores afirmam que “a escolha reflete a interseção entre gênero, identidade e língua que domina o debate cultural e pauta o trabalho dos dicionaristas”.

A Universidade de Cambridge parece confirmar o debate citado pelo Dictionary.com. As palavras “woman” e “man” ganharam definições adicionais no consagrado “Cambridge Dictionary”. “Woman”, por exemplo, é “um adulto que vive e se identifica como mulher ainda que lhe tenha sido atribuído um sexo diferente ao nascer”.

A expansão semântica de Cambridge para o substantivo motivou reações entre conservadores. O canal americano Fox News atribuiu a mudança a uma “tentativa da esquerda de rejeitar o uso universalmente aceito de tais termos”.

Referência mundial

Apesar da ousadia no território das discussões sobre gênero, o Dicionário de Cambridge elegeu homer como sua palavra do ano, uma aglutinação de “home + run”, que descreve uma jogada de beisebol. Os editores justificam a escolha devido a um pico de buscas pelo termo no site do dicionário no dia 5 de maio, quando apareceu no jogo on-line Wordle.

Segundo o linguista britânico David Crystal, autor da “Enciclopédia da Língua Inglesa”, publicada pela Universidade de Cambridge, existem no mundo dois bilhões de falantes fluentes de inglês, e apenas 400 milhões deles seriam nativos do idioma. Seria natural, então, concluir que as palavras eleitas pelos dicionários de alcance global têm bastante para nos dizer por aqui.

— O recado geral das listas é que o futuro é uma incógnita. Tudo o que passamos nos últimos anos nos leva a concluir que o segredo é resistir. Vamos ver até quando a gente resiste — diz Alcoforado.