Gene explica a gravidade da COVID-19 em pacientes com doenças crônicas

Natalie Rosa

Em estudos sobre o novo coronavírus, cientistas da USP têm o objetivo de entender o que faz com que pessoas com doenças crônicas, como pulmonares e hipertensão, sejam as principais prejudicadas pela COVID-19. As pesquisam investigaram um gene bastante ativo nos pulmões desses pacientes, chamado ACE2.

Para fazer o estudo, os cientistas usaram técnicas de bioinformática e uma abordagem da biologia de sistemas, analisando se a expressão do ACE2 em células do pulmão é diferente em pessoas saudáveis em comparação com quem possui doenças crônicas. Os pesquisadores explicam que quando um gene está mais expresso, ele está ativo e produz a proteína que faz a codificação, que acaba atraindo o vírus.

Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e também coordenador do estudo, conta que como o novo coronavírus (SARS-CoV-2) ainda é algo muito novo, a pesquisa teve como base hipóteses a partir do que se sabia em relação à epidemia de SARS em 2003, também causada por um coronavírus. O cientista conta que, naquela época, o vírus infectava as células humanas através da proteína codificada pelo ACE2, e em estudos recentes, descobriu-se que o novo coronavírus faz o mesmo para atacar as células do pulmão, comprovando a hipótese.

Helder Nakaya diz ainda que muito sobre o coronavírus foi aprendido em 2003, mas que com o passar dos anos os estudos sobre o tema foram deixados de lado, apontando isso como uma falha. "Deveríamos ter continuado pesquisando a SARS, porque já se sabia que uma hora ou outra haveria uma epidemia de novo", diz.

Gene ACE2 (Reprodução: Wikimedia Commons)

Metodologia

Os cientistas da USP usaram dados públicos da plataforma Medline, levantando mais de oito mil artigos científicos indexados nela. Os temas abordados foram de condições interessantes para o estudo, como hipertensão, diabete, doenças cardiovasculares e pulmonares, insuficiência renal crônica, câncer de pulmão e tabagismo. Então, foi feita uma seleção para analisar apenas os textos que tratavam dos genes relacionados a cada doença, como o ACE2.

Com os dados em mãos, os pesquisadores  analisaram mais de 700 transcriptomas (conjunto de moléculas de RNA) de amostras pulmonares de pacientes que contavam com comorbidades associadas à COVID-19. Essas transcrições, por serem fragmentos do RNA, permitem que os cientistas consigam identificar os genes que estão ativos em uma determinada célula, de acordo com os cientistas. A quantidade de moléculas de RNA idênticas também é relevante ao estudo por permitir a determinação de quais genes estão produzindo mais ou menos proteína.

Descoberta

O time de pesquisadores descobriu que, em comparação com o grupo controle, o gene ACE2 esteve mais ativo em pacientes que contavam com essas doenças crônicas. O diabete tipo 2, no entanto, foi descartado por não estar presente na base usada nos estudos. Na sequência, os cientistas buscaram entender a hipótese de que uma pessoa possui mais chances de desenvolver um quadro severo de COVID-19 se o gene ACE2 estiver ativo nas células do pulmão. Isso foi feito, inicialmente, de forma digital e não presencial. "Todo mundo conectado, coordenado on-line e usando dados públicos para criar hipóteses e usar as ferramentas e conjuntos de dados certos", apontou Nakaya.

As pesquisas também encontraram genes que podem facilitar a infecção provocada pelo novo coronavírus, como o RAB14, entre outros que ainda seguem envolvidos em processos epigenéticos. Os cientistas, de acordo com Nakaya, estão também investigando a relação da COVID-19 com outras doenças e tecidos do corpo humano, como a mucosa nasal de crianças, adultos e idosos, analisando se os níveis de genes ativos aumentam com a idade.

O artigo completo pode ser visto online na plataforma medRxiv.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: Canaltech

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