General busca equilibrar discurso de Bolsonaro com ações do governo na crise do coronavírus

TALITA FERNANDES E FÁBIO FABRINI
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 16.02.2018: Ministro da Casa Civil, Walter Souza Braga Netto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Chefe da Casa Civil há um mês, o general Walter Braga Netto terá como principal desafio à frente do comitê de crise do coronavírus encontrar um equilíbrio entre o discurso do presidente Jair Bolsonaro e as ações do governo.

Caberá a ele comandar as reuniões em que serão tomadas medidas em diversas áreas do Executivo para conter o impacto da dispersão do vírus no país.

Por causa de seu estilo discreto, auxiliares palacianos veem a atuação de Braga Netto mais tímida e menos midiática quando comparada a antigos ocupantes da Casa Civil, como Pedro Parente, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e Eliseu Padilha, na gestão de Michel Temer (MDB).

Até o momento, o general não fez aparições públicas e não deu declarações sobre o avanço da doença no Brasil. A primeira reunião do comitê foi realizada nesta terça-feira (17), no Palácio do Planalto, mas terminou sem anúncio de novas medidas.

Na noite do mesmo dia, o Palácio do Planalto anunciou que vai pedir ao Congresso o reconhecimento do estado de calamidade pública no país em decorrência do coronavírus. A medida, com validade até 31 de dezembro de 2020, será adotada em razão da necessidade de elevar gastos públicos.

Se a calamidade pública for reconhecida pelo Congresso, o governo não será mais obrigado a observar a meta de resultado primário e a fazer contingenciamento das despesas para cumprir as estimativas iniciais. A previsão para 2020 era de um déficit primário de R$ 124,1 bilhões.

Por outro lado, Bolsonaro tem repetido que há uma histeria sobre a dispersão do vírus e descumprido orientações do Ministério da Saúde e mantido contato físico com apoiadores.

O Brasil já tem ao menos 291 casos da Covid-19 registrados, uma morte e mais de 8.000 suspeitas. Há registro de transmissão comunitária em pelo menos dois locais: Rio de Janeiro e São Paulo.

O Ministério da Saúde prevê uma curva crescente de novos casos até o mês de junho, com estabilização apenas em julho. A pasta estima que o número de mortos pode crescer consideravelmente nas próximas semanas.

O gabinete chefiado por Braga Netto terá o papel de calibrar o tom que o governo vai dar na gestão dessa crise, além de monitorar as diversas áreas de ação do poder Executivo. No decreto de criação do comitê está escrito que o órgão visa a "articulação da ação governamental e de assessoramento ao presidente da República".

Como mostrou a Folha de S.Paulo, Bolsonaro tem cobrado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que passe a adotar um discurso mais afinado ao do Palácio do Planalto no combate à pandemia do coronavírus.

O presidente tem defendido a deputados bolsonaristas que o auxiliar presidencial, que se tornou o porta-voz do governo na atual crise, incorpore em sua retórica pública a defesa para que a atividade econômica não seja paralisada e o apoio ao direito do cidadão de participar de protestos.

Ele também tem considerado que o tom adotado pelo Ministério da Saúde tem gerado histeria e que, neste momento, o papel do poder público deveria o ser de acalmar a população, não o de estimular o pânico.

Além da Casa Civil, também farão parte do abinete chefiado por Braga Netto os seguintes ministérios: Justiça, Defesa, Relações Exteriores, Economia, Infraestrutura, Educação, Cidadania, Saúde, Ciência e Tecnologia, CGU (Controladoria-Geral da União), Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Secretaria-Geral, Secretaria de Governo, Segurança Institucional e Advocacia-Geral da União.

Os presidentes do Banco Central, do Banco do Brasil, da Caixa e do BNDES também vão compor o comitê, assim como o chefe da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o coordenador do Centro de Operação Emergenciais em Saúde Pública da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Como órgão de assessoramento, o comitê poderá ter ação limitada, embora tenha funcionamento diário. A comunicação com os estados, afetados pelo avanço da doença, deve ficar a cargo do chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos.

Braga Netto deve concentrar as demandas e propostas de cada uma das pastas envolvidas e se reportar a Bolsonaro. Não é esperado dele um papel de protagonista da crise, como foi Pedro Parente no apagão elétrico na gestão FHC.

De estilo centralizador, Bolsonaro deve manter concentrado em si os holofotes da gestão da crise. Foi ele quem, na noite de terça falou sobre o fechamento da fronteira do Brasil com a Venezuela, um dia depois de o Ministério da Saúde negar o fechamento de fronteiras.

O presidente também disse que o governo avalia a possibilidade de oferecer vouchers para trabalhadores informais como medida de mitigação dos efeitos da crise, que deve diminuir o ritmo da economia do país.

Braga Netto é general do Exército e tem pouca experiência na política. Ele foi escolhido por Bolsonaro para chefiar a Casa Civil depois de a pasta passar por um esvaziamento nas mãos de Onyx Lorenzoni, hoje no Ministério da Cidadania.

As reuniões do comitê de crise devem ser realizadas todas as manhãs, mas não contarão com a presença de ministros todos os dias. De acordo com a Casa Civil, Braga Netto convocará os chefes das pastas em ocasiões especiais, quando necessário.

Nesses casos, o ministro poderá fazer uma declaração à imprensa ao final.

O próprio Bolsonaro tem se mantido em evidência na comunicação de seu governo, e repete o modelo durante a crise do coronavírus. Ele afirmou na noite de terça que participará de entrevistas coletivas ao longo desta quarta (18).

A instauração do comitê de crise se deu na noite de segunda (16), cinco dias depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) ter declarado que existe uma pandemia do novo coronavírus.

Sem experiência na gestão de crises sanitárias, Braga Netto tornou-se conhecido como interventor na Segurança Pública do Rio de Janeiro, determinada pelo ex-presidente Michel Temer em 2018.

Até fevereiro, quando foi nomeado para a Casa Civil, era o chefe do Estado-Maior do Exército. Ele também liderou o Comando Militar do Leste e, durante dez meses de 2018, foi o responsável pela intervenção no Rio, considerada o ponto alto de sua carreira até aqui.

Especialistas em direitos humanos, em geral, consideraram a iniciativa do governo Temer como inócua. No entanto, militares de alto escalão sustentam que, dada a situação trágica que encontraram, a ação foi bem-sucedida ao fim.

Problemas não faltaram quando o general era o responsável pelas forças fluminenses, como mortes de civis em favelas e os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes.

Houve melhoria de alguns indicadores de violência e piora de outros, além do reaparelhamento de alguns setores da polícia durante a intervenção.

Braga Netto subiu na carreira após a intervenção, saindo do Comando Militar do Leste e chegando à chefia do Estado-Maior do Exército, segundo posto na hierarquia interna da Força.

O ex-interventor é conhecido por trabalhar em silêncio, ao estilo de sua Belo Horizonte natal. Tem 62 anos e entrou em 1975 no Exército. É casado e tem dois filhos.