General Santos Cruz rechaça diálogo de ex-Secom sobre 'mídia aliada' e pede investigação

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BRASÍLIA — Ex-ministro da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz classificou como “esdrúxula” e “inadequada” as conversas entre o então titular da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Fabio Wajngarten, e o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, do site Terça Livre, nas quais defendem a liberação de verba da caixa Econômica Federal para publicidade para empresas de comunicação alinhadas ao governo federal e classificadas por Wajngarten como “mídia aliada”. Os diálogos, revelados pelo GLOBO neste domingo, foram obtidos pela Polícia Federal (PF) e fazem parte do inquérito sobre os atos antidemocráticos.

Santos Cruz chefiou a Secretaria de Governo (Segov) da Presidência da República, à qual a Secom ficava subordinada, até junho de 2019. Para Santos Cruz, o diálogo entre entre Wajngarten e Allan dos Santos “é uma conversa particular sobre assuntos da administração pública”:

— Isso aí aconteceu nas sombras, fora do ambiente de trabalho, até porque o próprio Allan dos Santos nunca foi funcionário público, nunca trabalhou na Secom, nunca trabalhou na Segov, nunca trabalhou no governo. Assuntos de serviço desse tipo nem poderiam ser tratados com uma pessoa que nem é do ambiente de trabalho. Então, é uma conversa absolutamente esdrúxula — afirmou o general.

Nas trocas de mensagens via WhatsApp, o publicitário se apresentou à Allan, amigo dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, quando assumiu a pasta, em abril de 2019. Wajngarten teria dito que é próximo a executivos de emissoras de televisão e que poderia aproximá-los. Citou reuniões com a cúpula do SBT, da Band e com bispos da Record. Allan é um dos principais investigados no inquérito dos atos antidemocráticos que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

— Se tem alguma irregularidade, tem que dar continuidade à atividade policial de investigação, para definir responsabilidades. Eu não vou entrar em consideração porque isso aí tem que ser avaliado pela polícia. (...) É uma conversa completamente desqualificada, porque ele está tratando nas sombras de um assunto com uma pessoa que não faz parte da administração pública. Tudo isso aí, todo esse conjunto de coisas, tem que ser tratado no âmbito legal — declarou o militar.

As mensagens obtidas pela PF mostram queo ex-chefe da Secom se mostrou preocupado com atraso no pagamento de verbasda Caixa à chamada “mídia aliada”. Ele disse que recebeu a informação de que a “Caixa”, em possível referência à Caixa Econômica Federal, estaria “devendo dinheiro” à Band e “RTV”, uma sigla provável para a “RedeTV!”. Confira trecho:

Fabio Wajngarten: “Caixa devendo dinheiro pra BAND, RTV”.

Allan dos Santos: “E como foi?”

Fabio Wanjgarten: “os aliados estão furiosos”

Fabio Wajngarten: “General sentou em cima e não paga nenhuma nota passada”

Fabio Wajngarten “provocando iminentes tumores”

Allan dos Santos: “Desnecessário”

Fabio Wajngarten: “totalmente desnecessário”.

No relatório, a PF não identifica o “general” citado por Wajngarten, mas à época, o único general que teria alguma ingerência sobre os trâmites da Secom era Santos Cruz por chefiar a Segov. Há exatos dois anos, ele acabou sendo demitido do cargo após se tornar alvo de ataques bolsonaristas e ver sua atuação criticada por filhos do presidente.

Santos Cruz se negou a comentar as declarações de Wajngarten e a avaliar o trabalho desempenhado por ele na Secom.

— Ele ficou comigo (por) um mês e pouco, talvez. Não vou avaliar o trabalho dele. Ele que seja avaliado pelo resto do tempo que ele passou lá, (...) que seja avaliado pelo chefe dele — disse, em referência a Bolsonaro — disse.

O militar criticou o uso da expressão “mídia aliada” feito por Wajngarten.

— Não tem negócio de classificar “esse é aliado”, “esse não é aliado”. Amigo e inimigo são coisas de doente, fanático — afirmou o general.

Dados do sistema de pagamentos da Secom indicam, contudo, que veículos pró-governo, na classificação de Wajngarten, foram privilegiados. Na comparação entre os biênios de 2017 e 2018 (sob o governo do então presidente Michel Temer) e 2019 e 2020, já no governo de Jair Bolsonaro, a verba da Secom caiu, em média, 26%, saindo de um total de R$ 409 milhões para R$ 300,5 milhões.

O volume de recursos públicos destinado à Globo Comunicação e Participações, que controla a TV Globo, teve o maior corte: 69%. Já a verba para Record retraiu 7%, de R$ 36,5 milhões para R$ 33,8 milhões.

O SBT teve queda de 16%, passando de R$ 34,5 milhões para R$ 28,9 milhões, e a Bandeirantes, de 22%, ainda abaixo da média, de R$ 12 milhões para R$ 9,6 milhões. Na contramão, a Rede TV!, aumentou o volume de verbas em 10%, saindo de R$ 1,5 milhão para R$ 4,1 milhões no período.

A atuação de Wajngarten no comando da Secom é alvo de investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF). Em 2020, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou falta de critério na distribuição da verba publicitária da secretaria.

Procuradas pelo GLOBO, as emissoras negaram privilégios. Record e SBT não responderam. A reportagem não conseguiu localizar Allan dos Santos. Wajngarten disse que sua gestão foi “técnica e profissional” e que ele não é investigado pelo inquérito dos atos antidemocráticos.

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