Genivaldo era tímido, pai coruja e sonhava fazer do filho um doutor

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.06.2022 - Movimentos negros e populares durante ato pedindo justiça pela morte de Genivaldo de Jesus, no Masp, na avenida Paulista, região central de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.06.2022 - Movimentos negros e populares durante ato pedindo justiça pela morte de Genivaldo de Jesus, no Masp, na avenida Paulista, região central de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

UMBAÚBA, SE (FOLHAPRESS) - A cena ainda permanece vívida na memória dela. Genivaldo de Jesus Santos vestia uma jaqueta jeans quando cruzou olhares pela primeira vez com Maria Fabiana dos Santos nas ruas de Umbaúba, cidade do sul de Sergipe.

O reencontro aconteceu dois dias depois e foi ela quem tomou a iniciativa de puxar assunto. Conversaram, mas ele tinha um jeito tímido e falava pouco. Ele a acompanhou até a porta de casa e ela pediu um beijo.

O beijo selou a relação que perdurou por 17 anos e foi encerrada de forma abrupta: Genivaldo foi morto por asfixia após agentes da PRF (Polícia Rodoviária Federal) soltarem gás lacrimogêneo e spray de pimenta no porta-malas da viatura em que foi colocado após uma abordagem nas margens da BR-101.

Ele havia sido parado por trafegar de moto sem capacete. Antes de ser colocado na viatura, foi imobilizado, atingido com spray nos olhos, jogado ao chão e recebeu chutes dos policiais. Testemunhas dizem que a ação durou cerca de 30 minutos.

Genivaldo tinha 38 anos, era negro e tinha esquizofrenia. Deixou esposa, mãe, 11 irmãos, um filho, um enteado e planos para o futuro que não vão mais se concretizar.

Nascido em uma família pobre de agricultores, ele viveu a infância na comunidade Mangabeira, na zona rural de Santa Luzia do Itanhy, cidade vizinha a Umbaúba, onde até hoje vivem a sua mãe e a maioria de seus irmãos.

Assim como os irmãos, Genivaldo alternava o dia entre a escola e o trabalho na roça, onde ajudava o pai no turno oposto ao das aulas. Mas deixou os estudos ainda nos primeiros anos do primário. Por ser um dos mais novos dentre 12 irmãos, ganhou o apelido de "moço" na família.

Com cerca de 20 anos, foi morar em Umbaúba junto com a irmã Damarise de Jesus Santos, 42. Ele já tinha sido diagnosticado com esquizofrenia, transtorno mental que tratava com medicação e visitas periódicas ao posto de saúde.

Foi nesta época que ele conheceu Fabiana, com quem se casou e passou a viver pouco tempo depois. Ela já tinha um filho, hoje com 18 anos, que Genivaldo ajudou a criar. Filha de mãe solo e criada por uma tia, Fabiana conseguiu dar ao filho um pai presente que ela não teve.

"Em nenhum momento eu tive dúvida de que ele seria um homem para mim. Tinha plena convicção de que ele poderia ter uma vida normal, ter uma família. Eu acreditei nisso e assim foi nesses 17 anos", lembra.

O filho do casal, Enzo, veio dez anos depois do início do relacionamento e está com 7 anos. Desde que nasceu, passou a ser o centro da vida do pai.

Fabiana diz que Genivaldo era pai amoroso, dedicado e superprotetor. Mesmo com a renda familiar de um salário mínimo, matriculou o filho em uma escola particular da cidade.

O estudo era uma prioridade de Genivaldo, que queria que o filho tivesse as oportunidades que ele não teve na infância e na juventude. Costumava dizer que queria fazer do filho um doutor.

"Ele já chamava nosso filho de doutor Enzo e dizia 'meu filho vai estudar, vai virar um doutor e vai cuidar do papai'", lembra Fabiana.

Na quarta-feira em que foi morto, ele havia cumprido um ritual que fazia todos os dias de semana: levou Enzo à escola e fez uma visita no horário do recreio, para se certificar de que o filho havia se alimentado e se queria mais lanche.

No final da manhã, ele ainda voltaria para buscar o filho na escola. Mas naquele dia Enzo aguardou em vão, enquanto Fabiana buscava informações sobre Genivaldo, que já havia desfalecido no porta-malas da viatura e sido levado para o hospital.

Fabiana decidiu, por enquanto, não falar para o filho sobre a morte do pai. Diz que a criança está muito confusa, ora fala como se o pai estivesse vivo, ora dá a entender que sabe que o pai não está mais entre eles.

"Eu estou sem respostas para dar. Teve um momento que ele chegou para mim e disse 'mainha, meu pai morreu, mas deixou todo o amor com você, né?' e me abraçou. Mas aí já chega no outro dia e ele faz 'e painho?'. Ele está confuso, não tem noção de certeza das coisas."

O sustento da família também se tornou uma preocupação. Fabiana é dona de casa e não tem emprego. Genivaldo também não tinha uma profissão e a família sobrevivia do BPC (Benefício de Prestação Continuada) de um salário mínimo que ele recebia por causa do transtorno mental.

Segundo a família, ele não costumava ter crises e tinha a esquizofrenia controlada com remédios. Desde que soube do diagnóstico do marido, Fabiana passou a pesquisar sobre o assunto na internet para aprender a lidar com a doença.

"Às vezes, ele dizia que estava com cabeça cheia, mas ele se cuidava. Eu já conhecia ele pelo olhar. Se eu visse que ele não estava bem, eu o levava logo ao médico e tomava as providências", diz.

Entre amigos e familiares, Genivaldo é descrito como uma pessoa calma, educada no trato pessoal e, por isso, benquista entre os amigos e entre os vizinhos em Umbaúba. Visitava com frequência sua irmã Damarise, com quem gostava de conversar e dividir as refeições.

"Meu irmão sempre foi aquela pessoa otimista, de dar força a gente. Se percebia que eu estava triste dizia 'levanta a cabeça, amanhã é outro dia'. Sempre muito educado e prestativo", lembra Damarise.

A morte de Genivaldo causou revolta na comunidade de Umbaúba. Os policiais envolvidos diretamente na abordagem -Kleber Nascimento Freitas, Paulo Rodolpho Lima Nascimento e William de Barros Noia- foram afastados, mas seguem em liberdade.

A direção-geral da PRF criou uma comissão interventora na superintendência regional da corporação em Sergipe para investigar o caso.

A Polícia Federal tem 30 dias para concluir a investigação e já começou a ouvir as testemunhas: na última terça-feira (31), foram ouvidas a viúva Fabiana, a irmã Damarise e o sobrinho Walllison Santos, que presenciou a abordagem.

A família, que defende a prisão dos policiais envolvidos na abordagem, diz considerar que o racismo contribuiu para uma ação truculenta da polícia e foi determinante para a sua morte.

"O que eles fizeram ali foi só para fazer a crueldade. Eu não sei se foi porque o meu irmão é pobre e negro, entendeu? Depois eu vendo aqueles vídeos eu achei que ali foi um preconceito total. Se fosse um branco não aconteceria aquilo ali", afirmou a irmã Damarise.

Damarise mora em uma casa próxima a onde ocorreu a abordagem, na rodovia BR-101. Quando ela chegou ao local, o irmão já estava desfalecido no porta-malas da viatura da PRF.

Os familiares também reforçam que Genivaldo não agiu com violência com os policiais e não perdeu o controle.

Fabiana diz que o fato de a morte do seu marido ter sido resultado da ação de policiais a deixou com receio e desesperança: "Eu fico analisando, a quem a gente vai pedir socorro? Dá até uma sensação de medo. Eu espero que esse caso venha fazer uma mudança nas corporações".

Três dias após de Genivaldo, a PRF publicou um vídeo em que afirma que aquilo foi uma conduta isolada e promete que vai aperfeiçoar os padrões de abordagem.

Quando pensa no futuro, Fabiana diz que espera ter forças para criar o seu filho sem a presença do pai, que era figura central na vida da criança.

"Espero que Deus me dê força para que eu consiga criar meu filho na educação que o pai queria. Quero que lá no céu, onde ele estiver, ele possa ver o filho e ter orgulho. Vai ser doutor como ele queria."

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