Genro de Trump assume papel-chave no combate ao coronavírus nos EUA

Por Sebastian Smith
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acompanhado por seu genro e conselheiro, Jared Kushner (I), em coletiva sobre o coronavírus em 3 de abril de 2020 em Washington, DC

Ele não estudou medicina e nunca passou pelo serviço militar, mas como genro de Donald Trump, Jared Kushner ganhou um papel fundamental no gerenciamento da crise do coronavírus e se tornou peça-chave da Casa Branca na luta contra a pandemia.

Embora ele nunca tenha servido em qualquer nível de governo antes, seu casamento com a filha de Trump, Ivanka, o colocou no coração do poder após as eleições de 2016. Agora, aos 39 anos, Kushner não é mais um estranho em Washington.

A surpreendente aparição de Kushner na coletiva diária de Trump sobre o coronavírus na quinta-feira confirmou sua ascensão ao mais alto nível, em uma das maiores crises já enfrentadas pelo país.

O vice-presidente, Mike Pence, está encarregado de coordenar a complexa resposta do governo a uma doença que afeta o sistema de saúde e a economia.

Já havia rumores de que Kushner, experiente no setor imobiliário e que se apresenta como um dinâmico intelectual, liderava uma equipe discretamente.

Mas na tribuna da sala de imprensa, Kushner rompeu o silêncio.

Apesar de garantir que estava lá para ajudar Pence, o genro do presidente falou com a autoconfiança - já classificada por seus críticos como arrogância - de alguém que desfruta de uma influência única.

Quando solicitado a descrever sua missão, Kushner sugeriu que revitalizaria uma equipe que lutava para combater a pandemia no vasto e diversificado país.

Kushner disse que Trump lhe pediu "para assegurar que obteriam as melhorias ideias e que encontrariam os melhores pensadores do país".

- Drama na Casa Branca -

A Casa Branca de Trump costuma ser pontuada por dramas pessoais dignos de "O Aprendiz", o ex-reality show do presidente.

Altos funcionários entram e saem em ritmo acelerado. Às vezes, são demitidos por meio de um tuíte e, em vários casos, estas relações terminam mal.

Há um mês, Trump demitiu seu terceiro chefe de gabinete. Seu substituto, Mark Meadows, levou semanas para assumir o cargo. E o presidente sofreu a falta de uma importante assessoria enquanto o coronavírus avançava.

O esperto e, aparentemente, centrado Kushner percebeu a oportunidade. Esta não é a primeira vez que ele assume um papel que muitos não ousariam.

No início do ano, foi ele quem trouxe à luz nada menos que o plano de Trump para resolver o conflito entre Israel e os palestinos. E entrou no campo diplomático sem experiência relevante.

Quase todos, exceto o governo de Israel e os que apoiam Washington, rejeitaram o plano, mas o episódio demonstrou a posição extraordinária de Kushner.

Agora, com Trump e os governadores discutindo sobre quem é responsável por garantir a entrega de suplementos médicos para atender surtos em diferentes áreas do país, Kushner retorna com a promessa de resultados onde outros falharam.

Ele disse que "romperia todas as barreiras necessárias para garantir o sucesso das equipes".

- "Assustados" -

A Casa Branca considera que é injustamente responsabilizada por hospitais, fabricantes e cidadãos comuns por atrasos no abastecimento de suprimentos médicos e equipamentos.

No país mais rico do mundo, respiradores que salvam vidas são escassos. É difícil para a maioria das pessoas conseguir uma máscara facial simples.

Trump argumenta que a escassez de insumos se deve ao fracasso dos governos estaduais, não do governo federal, que ele descreve como um mero respaldo e não como um líder.

"A ideia é de que as reservas federais deveriam ser nossa reserva", disse Kushner, atraindo críticas imediatas de seus oponentes no Twitter. "Não se supõe que as reservas estatais deveriam ser utilizadas de imediato."

Em tom contundente, Kushner continuou dizendo que a crise revela que os políticos já foram "melhores administradores". Ele descreveu alguns governadores como "assustados" e confusos.

Os apoiadores de Kushner dizem que ele tem uma inteligência incomum e que seria um "gênio oculto", como disse a ex-embaixadora de Trump na ONU em 2018, Nikki Haley.

Na linha de frente da pandemia, o polêmico genro do presidente terá a chance de provar que seus opositores estão errados.